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23.10.2018, 22:53

Trabalhador grisalho. Como sobreviver após superar a barreira dos 50 anos

Se ela é sinônimo de experiência, a idade também costuma ser acompanhada por uma maior vulnerabilidade em relação a certos riscos. Daí a necessidade de se organizar e se poupar para enfrentar com sucesso a fronteira da terceira idade.

 

 

Por: Anne Lefèvre-Balleydier – Le Figaro Santé 

 

“O envelhecimento não acontece subitamente, de um momento para outro. Ele é um processo contínuo inerente ao próprio transcorrer da vida, durante o qual as capacidades se transformam e as competências evoluem. Quando o envelhecimento se apoia em condições de trabalho de boa qualidade, isso pode ser uma grande oportunidade não apenas para o trabalhador mas também para todos aqueles que fazem parte do seu grupo”, explica Catherine Delgoulet,  professora e pesquisadora no Laboratório do Trabalho da Universidade Paris-Descartes.

A fronteira dos 50 anos é, em toda a parte, um desafio no mundo profissional. Isso é ainda mais verdadeira quando nos encontramos submetidos a pressões temporais, físicas, psíquicas ou ligadas à organização: cadeia de montagem, carregamento de cargas pesadas, posturas penosas e desconfortáveis, horários atípicos, mudanças brutais de métodos e plannings de trabalho, etc. Nessas condições, o declínio associado ao envelhecimento pode se amplificar, e nossa saúde pode ficar ameaçada. Claro, as estatísticas mostram que os acidentes de trabalho são menos frequentes com os seniors do que com o resto dos trabalhadores. Mas, quando acontecem, costumam ser mais graves. Daí a importância de se precaver...

Acidentes mais raros, porém mais graves

Baseando-se em relatos de acidentes, dois especialistas do Instituto Nacional de Pesquisa de Segurança (INRS, França) ressaltam: “Fala-se com frequência de um comportamento mais responsável dos seniors em relação aos mais jovens em relação à segurança”. Mas em sua análise, Claude Tissot e Jean-Claude Bastide também notam que “certos relatos mostram casos de subestimação do risco malgrado uma experiência profissional confirmada”. Os dois pesquisadores detectam, além disso, que “a gravidade do acidente é o primeiro critério que caracteriza os trabalhadores em processo de envelhecimento”, com 72% de acidentes mortais entre os que têm mais de 45 anos, contra 56% para os que têm menos dessa idade.

Trata-se de uma tendência que acaba de ser confirmada por uma pesquisa publicada em abril último pela Saúde Pública Francesa, da qual um relatório aponta para o período 2011/2012 um índice de acidentes graves duas vezes mais elevado para os que têm mais de 50 anos (ou seja 12% contra 6%) para os trabalhadores de regime geral e também para os que estão no regime agrícola. Como deixa claro Julien Brière, epidemiologista da Agência Nacional de Saúde Pública (França), “o fenômeno é ainda mais marcante para as mulheres, com uma frequência de acidentes mais elevada que para o conjunto de trabalhadores no que diz respeito a quedas de lugares altos e também para tombos por escorregões na superfície do terreno, causadas por passos em falso ou por perda do equilíbrio. Partindo de constatações do gênero, existe realmente a necessidade de campanhas de prevenção. Mas concretamente, o que se deve fazer para possibilitar a todos um bom envelhecimento sem deixar de trabalhar?

Necessidade de quatro vezes mais claridade

Os especialistas do INRS possuem muitas propostas nesse sentido. Em se tratando de trabalho físico, eles recomendam suprimir o mais possível as tarefas mais penosas para os seniors, lançando-se mão de alguma ajuda mecânica (por exemplo, as máquinas que servem para se levantar objetos pesados). Ou ainda, usar o recurso do trabalho coletivo, em equipe, de modo que os esforços violentos não sejam desempenhados pelos mais idosos. Ao mesmo tempo, preconiza-se a rotatividade das pessoas empenhadas em alguma tarefa, para se evitar a fadiga e o desgaste representados pelos gestos e movimentos repetitivos e por períodos demasiado longos.

De modo paralelo, aconselha-se também a otimização da organização entre os trabalhadores, para evitar que os seniors atuem em horários atípicos, e para impedir que o ritmo do trabalho seja ditado por máquinas ou por jovens inexperientes. Por fim, o INRS preconiza a redução dos níveis de ruído, da quantidade de mensagens sonoras e visuais, bem como a adaptação da iluminação ao ambiente de trabalho: aos 60 anos, uma pessoa precisa de quatro vezes mais claridade do que aos 20 anos para conseguir ver bem.

Facilitar o teletrabalho

Tais recomendações coincidem em boa parte com aquelas que são preconizadas pelo Top Employers Institute. Especializado na certificação da qualidade das condições de trabalho – sem levar em conta as diferentes idades dos trabalhadores -, esse organismo ressalta vários pontos: a necessidade de espaços de trabalho mais silenciosos e tranquilos, a existência de equipamentos esportivos, a possibilidade de teletrabalho, ouvir os trabalhadores, ou ainda a colocação à disposição de ferramentas destinadas a pilotar a sua formação e o seu bem-estar. Tais providências parecem ser um dos principais favores que favorecem o grande progresso da Finlândia, por exemplo, um país no qual, hoje, a média  de seniors que permanecem trabalhando até uma idade bem avançada é de 63%. Quanto à França, certas grandes empresas assinaram acordos coletivos, por exemplo, para facilitar a passagem ao tempo parcial (part-time) ou ao teletrabalho (homework) a partir da idade de 54 anos.

Deve-se dizer ainda que, de maneira geral, a idade é muito frequentemente percebida de forma negativa no mundo do trabalho: ela é o primeiro item na lista dos motivos de discriminação. É preciso encontrar rapidamente uma solução para isso, tendo-se em vista o envelhecimento geral da população. Manter ativos os mais idosos que desejam permanecer trabalhando é uma evolução sociocultural que, em nossos países, precisa ser considerada.