A Ocupação 9 de Julho em tempos de “Bozofascismo”

Armando Coelho Neto escreve que "na Ocupação 9 de Julho há clara atividade comunitária e solidária, por meio da qual pessoas, política e pacificamente organizadas, tentam suprir uma função do Estado, e, ao mesmo tempo, cobram desse mesmo Estado, que cumpra a função social da propriedade, tal como prescrita na Constituição Federal "

(Foto: Reprodução/Google Street View)

 Por Armando Coelho Neto, no jornal GGN - Como dizem os advogados Antonio Sergio Escrivão Filho e Darci Frigo, há domínio de forças conservadoras no aparelho de estado que usam mecanismos seletivos e simultâneos contra movimentos sociais

Um menor de idade está amarrado no poste, enquanto policiais militares de São Paulo lhe dão socos no estômago. Foi assim que a notícia me chegou. 

“Delegado Armando, venha até aqui”, me diz um adolescente por meio de uma ligação telefônica a cobrar. Corri até a varanda. As câmeras de celulares, até então, não eram tão comuns, e, da altura em que estava não me era possível observar detalhes. 

Mas, vi o bastante para não esquecer. 

Gritei, “parem”, só para que percebessem que estavam sendo observados. Entre trocar de roupa e descer, os garotos foram levados para o 4º Distrito Policial (Consolação, São Paulo/SP). O caso foi parar na corregedoria da PM/SP e… melhor nem saber…

O episódio do adolescente, cujo crime teria sido estar tocando pagode tarde da noite, na Ocupação 9 de Julho – São Paulo, foi apenas um capítulo a mais em minha superficial, porém intensa ligação com o Movimento Sem Teto do Centro (MSTC). 

Lá, há décadas, conheci Carmem Silva, a quem trato por “guerreira” – procurada pela Justiça, enquanto sua filha, Preta Silva, está presa junto com o irmão. 

A prevalecer o tratamento dado ao adolescente, tenho razões de sobra para desconfiar da seriedade do processo, nessa fase nebulosa do Judiciário, na qual juiz ladrão não é mais retórica de futebol. Pilantra, vira herói, ministro, é candidato à Suprema Corte, com relações promíscuas e traiçoeiras com os Estados Unidos.

Ontem, 25 de agosto, teve almoço na Ocupação. 

Festa bem organizada, cada vez mais com gente bonita e engajada. 

Como disse um dos sem teto, “tá vindo gente que come três vezes por dia, não come queijo vencido do mercado Vovó Zuzu”(*). 

Compra no Pão de Açúcar, mesmo”. 

Gente, digo eu, que pelas leis bolsopatas deveria estar dando pernada no Shopping Higienópolis, onde cuidadores de Poodle usam roupa da mesma cor dos cãezinhos. 

Pelas leis bolsopatas, gente que deveria se declarar contra o assistencialismo, como fez a mulher do Marreco de Maringá. Segundo o UOL, escoltada pela PF, acompanhada de uma empresária do ramo de joias, a “conja” estaria portando uma bolsa Gucci.

A portaria da Ocupação estava livre, ontem. 

No dia a dia, porém, as entradas e saídas de moradores e visitantes são controladas. 

Entrar ou sair tem registro da hora, e quem chega após uma hora da manhã não entra, precisa esperar até às cinco da manhã. 

Perturbadores da ordem são advertidos e expulsos. Recentemente, houve uma vaquinha para mandar de volta para Alagoas um desses indisciplinados. A cozinha foi doada por artistas, há uma salinha ocupada por alguns integrantes do grupo Jornalistas Livres. 

Paredes decoradas, com registro de fotos de eventos políticos e culturais, textos bilíngues em paredes, eis o cenário de uma “organização criminosa”.

Quem paga as vassouras que limpam o local? 

Quem paga o sabão e o detergente com os quais são lavados os utensílios? 

Quem paga os porteiros que trabalham dia e noite zelando pela segurança? 

Quem paga cópia e impressão de currículo de quem procura emprego? 

Quem paga taxa para obtenção de um documento? 

Quem ajuda o coitado que quer ir a um protesto, mas não tem nem passagem nem comida? 

Quem paga a ajuda de quem para quem, senão eles próprios? 

Quem tem mais paga mais, menos paga menos, quem nada tem paga nada. Eis a razão pela qual contribuições são necessárias, destinadas à manutenção da causa.

Em maio do ano passado, por ocasião do incêndio numa das ocupações do Centro de São Paulo, deixei neste GGN meu testemunho do que vi no MSTC. 

Histórias de migrantes, de mulheres espancadas e abandonadas, dependentes químicos, gente pobre, sofrida, desempregada. 

Presenciei reuniões, depoimentos, festas, assisti atividades que incluíam desde esportes como capoeira à produção de alimentos como pães, bolos. 

Vi o esforço aguerrido do movimento, seja na luta por moradia, seja na luta contra o golpe sujo com Supremo e tudo, com as covardes Forças Armadas monitorando o MST (sem que as exceções se manifestem).

Testemunhei desocupações forçadas, violentas e desumanas promovidas pela PM/SP, algumas com requintes de crueldade, já que ocorriam propositadamente em dias de frio ou chuva e à noite, de forma a neutralizar reações, provocar dispersão desesperada, nas quais mulheres com crianças de colo corriam desesperadas. 

Onde estava a grande imprensa e as instituições? Do lado policialesco, claro! 

Para defender um imóvel abandonado, exposto a ratos, baratas, matagal, doenças como dengue, sem finalidade social. Claro! A especulação imobiliária não quer vender nada num local com vizinhos pobres por perto. Os donos de restaurantes “finos” das redondezas não querem essa moldura para o belo quadro que seus clientes se presumem ser.

Na Ocupação 9 de Julho há clara atividade comunitária e solidária, por meio da qual pessoas, política e pacificamente organizadas, tentam suprir uma função do Estado, e, ao mesmo tempo, cobram desse mesmo Estado, que cumpra a função social da propriedade, tal como prescrita na Constituição Federal (O art. 5°, inciso XXIII). 

Entretanto, tem predominado a visão policialesco-fascista bem ao estilo do adolescente preso ao posto levando soco no estômago. Visão, aliás, com endosso de um Judiciário bolsopata e lampejos de sabujices na linha “DD Dinheirol” e do Marreco de Maringá.

Com o advento do “bozofascismo”, cresce a criminalização dos movimentos sociais. 

Como dizem os advogados Antonio Sergio Escrivão Filho e Darci Frigo, há domínio de forças conservadoras no aparelho de estado que usam mecanismos seletivos e simultâneos contra movimentos sociais, “como prisões, inquéritos policiais, ações criminais, ameaças… num processo de desmoralização e satanização dos movimentos sociais, orquestrado por meios de comunicação”.

Ainda que existam ocupações sinistras e duvidosas, que precisam ser investigadas, não parecer ser o caso da Ocupação 9 de Julho e de outras. A Justiça, antes cega, está surda e paraplégica.

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Armando Rodrigues Coelho Neto – jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo.

*Vovó Zuzu é um mercado popular que pontualmente faz promoção de produtos prestes a vencer.

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