Acampamento sem-terra em Minas Gerais é envenenado por latifundiário

“A gente estava fazendo janta, pegando água, nossos afazeres, quando o trator passou com o veneno", relatou moradora. Idosos e crianças passaram mal

www.brasil247.com - Acampamento Arco-Íris, em Gurinhatã, Triângulo Mineiro
Acampamento Arco-Íris, em Gurinhatã, Triângulo Mineiro (Foto: Moradores do acampamento)


Por Laís Vitória Cunha de Aguiar, especial para o 247

“A gente estava fazendo janta, pegando água, nossos afazeres, quando o trator passou com o veneno (..) O pé de limão queimou, as cebolinhas, até o cachorro tá doente”, relatou dona Eliana de Lima Teófilo, moradora do acampamento Arco-Íris, no município de Gurinhatã, Triângulo Mineiro.

No último domingo (14), às 17h30, os jagunços da fazenda passaram em um trator uniporte derramando veneno no acampamento. Após a perícia médica de João Eurípedes Cruvinel (61) e Francisco Feitosa da Silva (75), que passaram muito mal na madrugada do dia 15, foi constatado que o veneno era glifosato, considerado o agrotóxico mais vendido do mundo e também conhecido por suas propriedades cancerígenas.

No entanto, eles não foram os únicos que sentiram o efeito do veneno. “Muita gente vomitou, tá com dor de cabeça, meu filho de três anos tá todo molinho, minha esposa levou um banho de veneno”, contou Marçal, liderança do acampamento. 

Na madrugada do dia 15, eles fizeram uma vigília à espera do trator, que no entanto voltou apenas às 10h, momento no qual o jagunço conhecido pelo apelido de Cigano chamou a polícia para o acampamento, afirmando aos policiais que estavam destruindo o trator ao tacar pedras e paus. Os habitantes negaram a ação. 

Quando os policiais chegaram (11h), viram que os moradores não jogaram nada no trator, mas que o veneno estava caindo por todo o terreno, assim o acampamento conseguiu fazer um boletim de ocorrência contra o jagunço.   

Apesar de terem agido corretamente, os moradores afirmaram que quando ligam, a polícia não responde, só vêm quando o fazendeiro ou jagunço ligam. No dia 1º de setembro, os jagunços colocaram fogo em um curral, e para evitar que todo o acampamento queimasse, algumas pessoas queimaram as mãos, mas não conseguiram evitar a morte dos animais que estavam no curral e faziam parte da alimentação deles, como galinhas, ovos etc). 

Conforme explicou dona Eliana, ao colocarem fogo, acabaram também com o setor de água, tiveram que jogar fora latões que tinham reservado. Em 29 de setembro, o jagunço Cigano retirou uma parte da cerca do acampamento, mas foi detido pela polícia antes que pudesse causar mais danos.  

Reintegração de posse

O acampamento luta desde 2009 pela fazenda (com o apoio do MTST e Movimento Terra, Trabalho e Liberdade), e em 2018 o espaço foi considerado pela justiça como improdutivo, mas o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) não fez o assentamento das famílias no tempo previsto (dois anos), o que acarretou na perda do processo. 

Os advogados da brigada do MTST estão lutando contra essa resolução, mas enquanto isso outro problema surgiu: a área que os assentados estão ocupando pertence ao DER, pois é próxima à rodovia (100m), e assim o estado quer a reintegração de posse. Cinco barracos foram destruídos em 30 de setembro por escavadeiras.    

Foi um ano inteiro de lutas e violações de seus direitos, tendo tido suas habitações queimadas, suas plantações intoxicadas, assim como seus corpos. No entanto, não demonstram sinal de hesitação: pretendem continuar lutando. 

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