Wyllys ao 247: “O Planalto ainda protege Cunha”

Ao jornalista Alex Solnik, o deputado afirma que, ao contrário do que se supõe, Eduardo Cunha continua sendo protegido pelo Planalto, a fim de ser evitada a sua delação: “Há um movimento político em curso de proteção a Cunha”; Jean Wyllys (PSOL-RJ) também comenta a ação movida por Jair Bolsonaro contra ele no Conselho de Ética: “se eles vierem com suspensão eu peço a cassação! Me cassem!”; para ele, “os procuradores da Lava Jato são analfabetos políticos”; “Sergio Moro é messiânico... aliás, toda essa turma é messiânica, tem ligações com o movimento pentecostal, essas pessoas não precisam de provas, mas de convicções, o que é típico da fé”

Ao jornalista Alex Solnik, o deputado afirma que, ao contrário do que se supõe, Eduardo Cunha continua sendo protegido pelo Planalto, a fim de ser evitada a sua delação: “Há um movimento político em curso de proteção a Cunha”; Jean Wyllys (PSOL-RJ) também comenta a ação movida por Jair Bolsonaro contra ele no Conselho de Ética: “se eles vierem com suspensão eu peço a cassação! Me cassem!”; para ele, “os procuradores da Lava Jato são analfabetos políticos”; “Sergio Moro é messiânico... aliás, toda essa turma é messiânica, tem ligações com o movimento pentecostal, essas pessoas não precisam de provas, mas de convicções, o que é típico da fé”
Ao jornalista Alex Solnik, o deputado afirma que, ao contrário do que se supõe, Eduardo Cunha continua sendo protegido pelo Planalto, a fim de ser evitada a sua delação: “Há um movimento político em curso de proteção a Cunha”; Jean Wyllys (PSOL-RJ) também comenta a ação movida por Jair Bolsonaro contra ele no Conselho de Ética: “se eles vierem com suspensão eu peço a cassação! Me cassem!”; para ele, “os procuradores da Lava Jato são analfabetos políticos”; “Sergio Moro é messiânico... aliás, toda essa turma é messiânica, tem ligações com o movimento pentecostal, essas pessoas não precisam de provas, mas de convicções, o que é típico da fé” (Foto: Ana Pupulin)

Por Alex Solnik, do 247Eleito três vezes o melhor dos 513 deputados federais nos seis anos em que está na Câmara, Jean Wyllys reage, nessa entrevista exclusiva ao 247, pela primeira vez, à tentativa de submetê-lo a julgamento no conselho de ética por um episódio de 16 de abril, dia da votação do impeachment na Câmara dos Deputados, o que poderá implicar na suspensão de seu mandato por seis meses, pena que não aceita: "Eu vou dar risada disso. Eles precisam ler o Código de Ética e Decoro Parlamentar, que é a lei"!

Ele também afirma que, ao contrário do que se supõe, Cunha continua sendo protegido pelo Palácio do Planalto a fim de ser evitada a sua delação: "Há um movimento político em curso de proteção a Cunha... esses caras, o Michel Temer, o Romero Jucá, Renan, a cúpula do PMDB, a cúpula do PSDB estão chafurdando em corrupção". "Ele só vai abrir o bico", diz o deputado, "se a sua filha e a sua mulher forem presas".

"Os procuradores da Lava Jato são analfabetos políticos", diz o deputado, e têm a intenção de alijar Lula da cena política: "O Lula não vai preso, mas basta uma condenação. Se ele estiver de tornozeleira, não pode ser candidato a presidente em 2018 e esse é o objetivo final desse golpe". Para ele, "Sergio Moro é messiânico... aliás, toda essa turma é messiânica, tem ligações com o movimento pentecostal, essas pessoas não precisam de provas, mas de convicções, o que é típico da fé".

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Foi encaminhado um processo contra você ao Conselho de Ética por causa de uma briga com o Bolsonaro. O que aconteceu?

O que aconteceu entre mim e Bolsonaro é público. No dia da votação do impeachment, naquele clima de violência política estabelecida pelos golpistas, eu fui proferir o meu voto; antes de mim, a votação foi por bancadas de estados, a gente estava na fila, ele votou antes de mim porque o nome dele começa com “Ja” e o meu é “Je”, ele elogiou um torturador, um dos mais cruéis torturadores desse país, que torturou, inclusive, a presidenta Dilma Rousseff, para as pessoas alcançarem o nível de tortura era colocar rato na vagina das mulheres, torturar crianças na frente de mães, nesse nível de tortura, eu estou falando em execuções, em desaparecimentos... essa figura elogiou esse torturador e quando fui votar recebi uma chuva de insultos homofóbicos, com palavras e expressões impublicáveis que eu vou sequer repetir porque eu tenho vergonha. Não foi a primeira vez. Ele já me insultou com xingamentos homofóbicos muitas vezes, inclusive no microfone, com transmissão ao vivo pela TV Câmara, e isso está gravado. Ele usa palavras irreproduzíveis para me insultar no meio das reuniões das comissões.Então, naquele momento, quando eu saí ele olhou pra mim, me chamou de "queima-rosca", disse tchau, querida e eu dei um cuspe na cara dele, do qual não me arrependo porque quando a força bruta se estabelece, quando você não tem outro recurso, quando a farsa está em curso, quando você não tem instituições que o protejam, você tem que usar as armas que você tem. Eu usei essa arma do cuspe que era usada pelos judeus no Gueto de Varsóvia, eles cuspiam nos nazistas alemães. Por conta disso entraram com representação contra mim no conselho de ética. Importante dizer que tanto a Corregedoria quanto o presidente da Câmara indicaram o arquivamento do processo e que, se tiver processo contra mim por isso, também deveria ter contra o filho dele, o deputado Eduardo Bolsonaro, que também me cuspiu e foi filmado, no mesmo momento. Os membros da mesa diretora, que são os membros da mesa diretora colocados por Eduardo Cunha, que servem a ele decidiram levar adiante o processo contra mim, ignorando as agressões deles. Houve deputados que fizeram coisas piores e jamais foram ao conselho de ética. Deputado que já saiu na mão com outro deputado. Bolsonaro subiu na mesa da presidência para agredir Maria do Rosário, foi contido por Patrus Ananias. Ele já tinha empurrado a Maria do Rosário uma vez na frente das câmeras e em outra oportunidade falou que só não estupraria ela por achá-la feia. E ele não está no conselho de ética. Bolsonaro espalhou pela Câmara dos Deputados um panfleto agredindo a presidenta Dilma a partir da suposta orientação sexual dela, com dinheiro público, isso foi espalhado nos corredores da Câmara ele não foi ao conselho de ética. Ele sugeriu que Fernando Henrique Cardoso fosse metralhado. Então, essa Câmara que nunca puniu verdadeiras violações da ética acha que vai me intimidar me colocando no conselho de ética. Como se eu tivesse medo do conselho de ética, como se eu tivesse medo da punição do conselho de ética! Eu não tenho medo. Primeiro eu acho que há uma justiça nesse país... no caso de eles levarem adiante esse absurdo, cassar meu mandato por causa de cuspir na cara daquele fascista, haverá uma reação. E eu quero ser bem claro: se eles cassarem meu mandato, isso seria ilegal. A Câmara dos Deputados tem um regimento interno e um Código de Ética e Decoro Parlamentar que estabelece em quais casos um mandato pode ser cassado: pode ser cassado por violar a Constituição, por casos de corrupção (perceber vantagens indevidas), por fazer acordo com o suplente para ele tomar posse em troca de dinheiro, por fraudar o andamento dos trabalhos legislativos ou por mentir quando dá um depoimento à Câmara sob juramento de dizer verdade (foi o caso de Cunha). Cassar um mandato por qualquer outro motivo seria ilegal. Se fizerem, eu serei a primeira vítima, o primeiro deputado cassado pelos golpistas. Aconteceu em 64, espero que não aconteça agora, mas, se acontecer, vou recorrer ao STF e, se necessário, aos tribunais internacionais de direitos humanos. Cassar meu mandato não significaria me calar, eu vou continuar na cena política denunciando eles do mesmo jeito porque os meus canais de comunicação não dependem só do fato de eu estar na Câmara. Para desespero deles. E, por fim, o filho do fascista também cuspiu em mim. Então, se eles me punirem por cuspir na cara dele – um fascista que elogiou um torturador, me chamou de "queima-rosca" - eles terão também que punir o filho do fascista com a mesma pena.

Pelo que eu li eles não estão cogitando cassar teu mandato, mas suspender por seis meses...

(Risos) Eu vou dar risada disso. Eles precisam ler o Código de Ética e Decoro Parlamentar, que é a lei. Só podem suspender o mandato de um deputado por abuso de poder contra funcionários da Casa para obter alguma vantagem, por revelar o conteúdo de deliberações secretas ou por fraudar o registro de presença da Câmara. E mais nada. É o que diz a lei, qualquer leitor pode confirmar; a lei é pública. Existe também a suspensão de prerrogativas, que só pode ser aplicada a quem revelar informações ou documentos oficiais reservados ou a quem relatar matéria de interesse de um financiador de campanha. Repito: é a lei. Então, se eles me aplicarem essas punições, será ilegal. Eles podem não gostar do cuspe, como eu não gostei de ser xingado, mas não podem inventar uma punição que a lei não permite. Ao contrário de outros, que levaram adiante farsas, eu não vou levar uma farsa adiante. Eles não têm moral para me levar ao conselho de ética! Um dos partidos que está me levando ao conselho de ética tem entre uma de suas figuras proeminentes um envolvido num escândalo policial envolvendo o estupro de uma jovem; o outro é réu no STF por apologia ao estupro. Ele também tem um processo meu porque me difama nas redes sociais usando recursos públicos. Eu não vou aceitar que essa Câmara dos Deputados leve o meu mandato para o conselho de ética. Eu não vou admitir porque eu sou veado e sei que eles estão fazendo isso porque eu sou homossexual. Eles querem derrubar o mandato do único deputado homossexual desse país. Eu! Um deputado que tem por três vezes o título de melhor deputado desse país e foi eleito entre as 50 personalidades mundiais que defendem a diversidade. Então o mandato de um veado é o mandato de maior prestígio e que tem mais capilaridade nesse país, porque vem gente de todo o país querendo votar em mim. Eles querem o símbolo da suspensão para me macular. Eu não aceito! Não aceito e não vou aceitar! Nós vamos apresentar a defesa porque nós vamos cumprir o rito, mas eu digo de antemão: se eles cometerem essa ilegalidade vou fazer a denúncia internacional contra o governo golpista por perseguição política e homofobia. Se a imprensa permitir isso, se vocês da imprensa não entrarem de sola nessa denúncia! A facilidade com que a imprensa aceita abusos contra mim faz parte da homofobia que está na imprensa, não só na imprensa tradicional, mas na imprensa alternativa. Eu não vou aceitar porque eu me respeito! Eu não vou aceitar que aquela gente leve o meu mandato ao conselho de ética.  

O Bolsonaro é o herdeiro do integralismo?

Eu não quero falar sobre Bolsonaro, não. Acho que a gente deveria combater o Bolsonaro em vez de falar sobre ele. Eu não quero que isso seja tratado como oposição entre mim e o Bolsonaro. Eu não sou antípoda do Bolsonaro. Eu não sou o reverso da medalha do Bolsonaro. Eu sou um cara de espírito democrático, defendo as minorias, os direitos humanos, respeito os meus adversários, a prova disso é como eu me coloco na defesa do PT contra esse antipetismo vulgar apesar de ser de outro partido que é adversário do PT, então não aceito que queiram me reduzir como antípoda desse cara! Ele é um fascista, é um inimigo da democracia, deveria ser inimigo de todos nós e não como inimigo de Jean Wyllys. O PT e todos os partidos democráticos deveriam tratá-lo como adversário, a imprensa deveria tratá-lo como adversário porque ele atenta contra as liberdades individuais. Eu estou muito além desse cara e eu quero tratar essa denúncia com o tamanho que ela tem, é uma denúncia que partiu da extrema-direita, de um grupo de partidos que não têm moral nem ética, é a isso que vocês têm que dar visibilidade, isso nem deveria estar na minha boca e eu não deveria estar fazendo a minha defesa. Esse mandato não é só meu, é de todos nós. Meu mandato segurou a barra pesada no auge do antipetismo contra Dilma. Não era eu que deveria me defender contra esse novo golpe, esse golpe dentro do golpe. Eram vocês que deveriam estar tratando como golpe dentro do golpe. É o mandato que enfrenta eles, com todas as letras. Um mandato que foi eleito com 145 mil votos com uma campanha de apenas 70 mil reais! Vocês não tomam a minha defesa porque eu sou veado! Se eu fosse heterossexual vocês seriam mais solidários. Desculpe esse desabafo, mas a imprensa alternativa acaba repetindo certos comportamentos da imprensa hegemônica.

 

Mas, escuta, o que você achou das acusações ao Lula feitas ontem?

Olha, cara, na verdade o Ministério Público ofereceu um discurso político. Montou uma coletiva, usou recursos públicos. Todos nós achávamos que o Ministério Público é uma instituição em que todos os brasileiros ou boa parte deles podia confiar e ao montar toda essa infraestrutura de divulgação os procuradores iriam apresentar provas contundentes. E o que a gente viu é que o Ministério Público não apresentou provas, apresentou um discurso político bastante suspeito pela ocasião em que ele foi proferido, às vésperas das eleições municipais, então, ficou claro para todos nós, inclusive para a direita hidrófoba brasileira que apoia o ministério público em suas decisões seletivas, que apoia o Sergio Moro em suas decisões seletivas, até mesmo para essa direita hidrófoba ficou patente que esse discurso era meramente político, dando a entender que o ministério público quer intervir nas eleições municipais, influenciar as eleições para que o resultado seja desfavorável à esquerda. A despeito do PT estar em muitos municípios em coligação com partidos que perpetraram o golpe contra a democracia. Essa é a complexidade do sistema político brasileiro e da qual a gente não pode fugir. Nós queremos honestidade, inclusive honestidade intelectual e temos que reconhecer isso: ao mesmo tempo que no âmbito federal nós sustentamos um discurso anti-golpe e denunciamos de maneira acirrada o golpe perpetrado contra a democracia e contra uma presidente eleita, ao mesmo tempo o PT, que é o principal partido atingido pelo golpe faz alianças, a nível municipal com candidatos de partidos que perpetraram o golpe. Mas, de qualquer forma, o Ministério Público quis intervir nas eleições municipais com esse discurso, de maneira que a esquerda seja prejudicada. Aquele power-point da apresentação virou motivo de chacota.

Parecia um gráfico de “Guerra nas Estrelas”...

Pois é. Mas é tão sintomático desses tecnocratas que estão tomando conta das instituições do estado, são tecnocratas que vieram, que sempre gozaram de privilégios, que tiveram oportunidades, ao contrário da massa, da maioria do povo brasileiro, da qual eu faço parte, porque aos dez anos de idade eu estava trabalhando na cidade com meu irmão, para ajudar no sustento da minha família miserável, então, para eu chegar na universidade pública exigiu muito de mim quando muitos de meus colegas gozavam de privilégios e oportunidades. Essa geração de tecnocratas chegou às instituições do estado, eles são analfabetos políticos...eu tenho convicção que os procuradores da Lava Jato são analfabetos políticos... eles têm uma compreensão pobre da política...então, o power-point é sintomático de quem, apesar dos privilégios e oportunidades tem uma formação precária, baseada em apostilas e em power-point. O nível de conhecimento e de conhecimento interdisciplinar é baixíssimo. A democracia está ameaçada não só pela seletividade e partidarismo, é óbvio que eles estão atendendo aos plutocratas e aos partidos que perderam as últimas eleições presidenciais, as quatro últimas eleições, está ameaçada por essa seletividade, mas também pelo analfabetismo político.

Essa é a segunda parte do golpe? Derrubar Lula?

Pra mim a retirada da Dilma foi um pitstop. Esse movimento de retirar o PT do condomínio do poder é um movimento antigo, o mensalão já era parte disso. Poder ao qual o PT chegou graças, óbvio, às suas estratégias eleitorais, ao fato de o presidente Lula ser um homem que vem de um Brasil profundo e tem conhecimento do povo que leva esse Brasil nas costas, chegou ao condomínio do poder, mas a plutocracia, as elites econômicas que tiveram que aceitar o PT nesse condomínio sempre quiseram se livrar dele. O mensalão fez parte desse movimento. Não estou dizendo aqui que não houve pessoas petistas envolvidas em esquemas de corrupção. É claro que houve, eles são seres humanos e os seres humanos são corrompíveis, são passíveis de ser picados pela mosca azul, de se embriagar pelo poder e de buscar vantagens pessoais em detrimento da coisa pública. Mas não foram só os petistas que fizeram isso e o PT entrou nisso, o condomínio do poder já funcionava assim. Esse movimento é antigo, ele recrudesceu com a crise econômica mundial de 2013, afetou drasticamente o primeiro mandato da Dilma, afetou a popularidade da Dilma. Por essas sucessivas etapas eles sempre acharam que seriam bem-sucedidos, mas não são bem- sucedidos porque ao mesmo tempo as transformações que o PT fez no país são irreversíveis do ponto de vista social. Então, o golpe teve que ir se aprofundando. A retirada da Dilma eles achavam que seria a etapa final, mas descobriram que não, que houve uma reação popular e da comunidade internacional ao golpe, a imprensa internacional passou a ouvir a narrativa de quem estava sendo golpeado e com isso agora eles acharam que precisavam dar outro passo, porque se não dessem esse outro passo certamente o Lula vence as eleições de 2018. Então resolveram torná-lo inelegível. O Lula nem precisa ser preso para isso, basta que com base nessa tecnicalidade do Ministério Público em torno do apartamento do Guarujá e em torno do galpão onde ele guarda os presentes de presidente, basta que a partir dessa tecnicalidade o presidente seja condenado por Sergio Moro, essa pena, ainda que seja branda, seja reavaliada e reduzida, o Lula não vai preso, mas basta uma condenação. Se ele estiver de tornozeleira, não pode ser candidato a presidente em 2018 e esse é o objetivo final desse golpe. O PSDB e o DEM sabem que não vencem as eleições presidenciais nas urnas, a ideia de país que ambos os partidos têm não está em sintonia com o que o povo brasileiro quer, então a única maneira é derrubar o PT do condomínio do poder, tornar Lula inelegível e com isso deixar o campo livre para que eles cheguem à presidência da República. Só chegaram agora através de um golpe. E para esse golpe ser bem-sucedido eles tiveram que se aliar aos traidores, não há política sem traição. A traição talvez seja tão antiga quanto a própria política, portanto o PSDB e o DEM tiveram que contar com os traidores do PMDB, com Eduardo Cunha, que tinha interesses pessoais, não só econômicos, queria livrar o seu pescoço das garras da justiça e, claro, além de Eduardo Cunha, com Michel Temer, Romero Jucá, a cúpula do PMDB.

Como é que você entendeu essa desidratação do poder do Cunha que teve só dez votos na votação da cassação?

O que aconteceu é o seguinte. Eu vou usar uma metáfora. Eu nasci no interior da Bahia, minha mãe era lavadeira de rio e os rios que cortavam Lagoinhas não tinham piranha. Mas eu vou usar uma metáfora da região do Pantanal. Naqueles rios que são infestados de piranhas. Quando a boiada precisa atravessar, para que a boiada não seja atacada pelas piranhas eles destacam um boi da boiada que eles julgam que é velho, que pode ser abatido, que está doente de alguma forma, um boi que, ainda que se tenha afeto por ele, ainda que no passado tenha feito muito pela boiada precisa ser sacrificado em nome da boiada. Esse boi de piranha é colocado no rio antes para que as piranhas o ataquem e enquanto as piranhas atacam esse boi a boiada atravessa. O Cunha é o boi de piranha do momento. O golpe para ser bem-sucedido, para que toda a boiada passe, e quando estou falando a boiada não estou falando só dos políticos, mas de toda a plutocracia do golpe, todos os representantes das elites econômicas desse país, para que eles atravessem tranquilamente esse golpe o Cunha teve que ser sacrificado. O discursinho de William Bonner na cobertura da cassação é paradigmático dessa postura. Cunha que se acha tão esperto acabou levantando a bola. Ele no discurso quando é cassado culpa o governo Dilma, culpa o PT, claro, recorre ao antipetismo que está impregnado em parte da classe média brasileira, que tem a ver com as virtudes do PT, que tem a ver com o fato de o PT ter feito um governo que promoveu a mobilidade social e a inclusão, ainda que não foi suficiente, ainda que não foi como a gente esperava, mas foi significativo sim. Então, Cunha apelou para esse antipetismo e também atacou a Rede Globo, disse que foi vítima da Rede Globo. Quando Cunha levantou a bola, Bonner cortou com o discurso que na verdade foi para esconder a participação da Rede Globo no golpe, para dizer que a Rede Globo está agindo com isenção e que a postura da Globo em relação a Dilma e ao PT é uma postura correta. Que a Rede Globo está acima da corrupção de ambos os partidos. Mentira! A Rede Globo não está acima. A Rede Globo é parte desse golpe, foi parte do golpe de 64, é parte do golpe atual. Ela criminalizou o PT através de uma postura parcial, de distorções, quando não de mentiras mesmo. E de certa maneira foi seguida pelas demais famílias que cuidam da comunicação do país. A nossa democracia sempre teve dono.

Não sei se você se lembra quando Sarney nomeou o ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega ele teve que primeiro ser sabatinado por Roberto Marinho.

Eu não sabia disso...

Quem contou foi o próprio Mailson, não é fofoca. A Globo anunciou que ele era ministro antes de ele ter voltado da reunião. Foi Roberto Marinho que o fez ministro, antes do Sarney. Depois a Globo fez o Collor e destruiu o Collor...

Exatamente.

A Globo é a tutora da política brasileira.

Ela é a tutora do sistema político, ela é uma das donas da democracia, por mais paradoxal que seja isso, a democracia não tem dono, o dono da democracia é a soberania popular e não uma emissora de TV e não sete famílias, mas no Brasil, oligarca, escravocrata sempre foi assim. Mais uma vez a Globo tenta sustentar um discurso de imparcialidade e objetividade. Tem um ditado popular que diz o hábito do cachimbo deixa a boca torta. A Globo talvez pense que os tempos são os mesmos e os tempos são outros. As novas tecnologias impactaram profundamente a comunicação, a ciência, o imaginário, as relações políticas. As coisas estão mudando. A própria disputa em torno da narrativa que foi vitoriosa para o nosso lado é uma prova de que as coisas estão mudando.  Temos hoje que lidar com bestas como esse grupo MBL, temos que lidar com cavalgaduras como Janaína Pascoal, que são fanáticos religiosos travestidos de tecnocratas porque as elites econômicas resolveram flertar com a extrema-direita para pode apear o PT do poder. Então empoderaram a extrema-direita e agora a gente tem que lidar com essa gente que não sabe debater, que não discute argumentos, é o modelo Bolsonaro de comportamento, sobe-se na tribuna, solta-se um monte de mentiras, de calúnias, de deturpações, com um tom de voz agressivo e se impõe como verdade, monta-se um esquema criminoso de difamação para transformar mentiras em verdades.

Você acha que o Cunha vai abrir o bico? O que vai acontecer?

Olha, só tem uma maneira do Cunha abrir o bico: é prender a mulher e a filha dele. Se ele conseguir poupar a mulher e a filha ele não vai abrir o bico.  Vai querer gozar o dinheiro que ele amealhou ao longo de sua vida pública à sombra... essa carreira pública se movimentando nas sombras, no escuro da política brasileira... dinheiro amealhado pela via da corrupção, para que ele suporte e saia para gozar esse dinheiro, se não voltar, como ele mesmo disse a política é o único lugar onde você morre e ressuscita. A gente viu o Collor ressuscitar... a gente vê Renan Calheiros presidindo o Senado... por mais absurdo que seja isso Renan Calheiros é o presidente do Senado...a gente viu Jader Barbalho voltar... a gente vê todos os oligarcas das elites, historicamente corruptas, predadoras ressuscitarem em público... por que é que o Cunha não vai ressuscitar? Então, a única maneira de ele abrir o bico, de ele derrubar o segundo presidente, como ele disse que seria capaz de derrubar só se a mulher dele fosse presa... e a filha. Ele não vai suportar isso, então ele vai abrir o bico. Era o que todos nós gostaríamos. Dizem que se ele abrir o bico metade da República cai, então que caia, pois tudo raia e o Brasil pode ser nosso, parafraseando o poeta Antônio Cícero. Se a metade da República cair, que tudo caia, porque tudo raia e o país pode ser nosso se ela cair.

A pena do Cunha se ele não delatar deverá ser bastante longa...se bem que tem a segunda instância...

E há um movimento político em curso de proteção a Cunha... esses caras, o Michel Temer, o Romero Jucá, Renan, a cúpula do PMDB, a cúpula do PSDB estão chafurdando em corrupção, sejam as denúncias contra Aécio em Minas Gerais e Alckmin et caterva em São Paulo, sejam as denúncias contra Marconi Perillo em Goiás, no Paraná... o PSDB e os corruptos do PSDB , os corruptos do DEM também querem salvar a própria pele, então eles que têm a hegemonia política após o golpe, eles farão um movimento para salvar a própria pele e isso implica em proteger o Cunha. Eles deram o Cunha agora por causa da pressão popular, o Cunha é o boi de piranha, mas se eles disserem “olha as piranhas vão te morder um pouquinho, mas você vai poder atravessar depois, ainda que com partes do corpo mordidas pelas piranhas, você poderá atravessar, a gente pode garantir isso para você”. Se ele perceber que vai morrer ali, comido pelas piranhas, e isso implica em prender a mulher e a filha dele, que são cúmplices dele, foram laranjas dele segundo o Ministério Público Federal e o Ministério Público da Suíça, se ele perceber que pode morrer ele pode prejudicar, de fato, a boiada e a boiada não poderá atravessar o rio.

Você acha que essas forças que você descreveu podem influenciar o Sergio Moro a tratar o caso Cunha com mais benevolência?

Eu acho que o Sergio Moro é um cara que tem convicções próprias. Ele é messiânico... aliás, toda essa turma é messiânica, tem ligações com o movimento pentecostal, quase todos têm um repertório cultural muito estreito, são tecnocratas, têm um conhecimento técnico aprendido em apostilas, prestaram concursos públicos, mas têm um nível de interpretação de texto muito restrito, então, essas pessoas não precisam de provas, mas de convicções, o que é típico da fé. Então, Sergio Moro, ainda que empoderado pelas elites econômicas no primeiro momento para criminalizar o PT e tirar o PT do poder, ele tem convicções próprias porque ele está indo mais longe do que as elites econômicas gostariam que ele fosse. Ele é messiânico, faz parte da elite econômica, descendente de europeus, que odeia o PT, como em geral todas as pessoas dessa classe odeiam o PT, são anti-petistas, não porque o PT está envolvido em corrupção, mas por causa do ódio de classe, pela inclusão de minorias que o PT promoveu. Sergio Moro no fundo é isso, ele odeia o PT por isso e achou na corrupção que alguns petistas praticaram a razão para empreender essa investigação de maneira obstinada. Então, deram todo o destaque para ele, prêmios na Rede Globo, mexeram com a vaidade dele, todo candidato a messias tem um pouco de narciso, isso mexeu com ele, envaideceu, e agora eles não querem que ele vá muito longe, é óbvio, se ele for muito longe e se tiver mais do que dois neurônios, ele vai compreender que a corrupção nesse país é sistêmica e ela é histórica. Ela gangrena as estruturas públicas do estado de maneira geral, de maneira ubíqua. Tanto na política como no Ministério Público, passando pelo Judiciário. No Legislativo, nem se fala! Tem desde venda de sentenças até venda de medicamentos fraudulenta. Quando ele compreender que o sistema político brasileiro foi sustentado pela via da corrupção e caixa 2, historicamente, ele, que tem mais de dois neurônios, se for honesto ele não pode parar no PT, ele tem que ir adiante. Como ele é antipetista talvez ele aceite esse papel de borra-botas da história. Um cara que se coloca como salvador da pátria e ataca a corrupção dessa maneira tão pobre, tão partidária, tão seletiva só pode ganhar o troféu de borra-botas da história.

Você acha então que o final de Cunha pode não ser tão trágico como muita gente imagina?

Acho, acho que há um movimento no Palácio do Planalto, nesse governo só formado de homens, os homens de preto do governo Temer, há um esforço para reduzir danos e para que Cunha não desmonte o edifício deles, entendeu? “As piranhas vão te atacar, as piranhas vão te morder, mas vamos fazer tudo para que, depois que a boiada passar, você também passe”. Acho que há esse movimento...o que não pode acontecer é que a sociedade deixe que isso aconteça. Não pode deixar. Por isso é fundamental denunciar, como é que a imprensa não dá destaque, não aprofunda o áudio vazado do Romero Jucá com o Sergio Machado?! Como é que Romero Jucá não é afastado pela mesma razão que Delcídio já que ele praticou o mesmo crime que Delcídio praticou, que é obstrução da justiça, como não enxergar isso como obstrução à justiça? Cunha é um boi de piranha mesmo, ele caiu de podre, ele caiu quase um ano depois da denúncia que nós fizemos no conselho de ética, o PSOL e a Rede. Ele caiu um ano depois das denúncias de suas arbitrariedades na presidência da Câmara e não falo só do uso do regimento interno em proveito próprio, eu falo de outras coisas, como, por exemplo o fechamento da Câmara aos movimentos populares, à militarização da Polícia Legislativa, com aquisição de armas e aparato repressivo, a maneira como ele empoderou a bancada da bíblia e a bancada da bala, falo do modus operandi da polícia do Congresso Nacional, essa baixa intelectualidade que tomou conta, quer dizer, um ano depois desses absurdos todos contra a política, contra a democracia, Cunha cai. Caiu de podre! Ele caiu porque precisa se sustentar a narrativa da isenção, precisa se contrapor à narrativa do golpe. “Então, vamos entregar o Cunha para mostrar o quanto isentos nós somos e as instituições estão funcionando bem”. Não estão funcionando bem! A citação de ministros do STF nas delações, se bem que não basta ser citado numa delação, ao contrário, eu defendo a presunção de inocência, quem está sob bombardeio do Ministério Público pode mentir deliberadamente, não à toa que eu citei As Bruxas de Salém, de Arthur Miller, para explicar o que está acontecendo, eles foram citados e isso não pode ser minimizado.

Você concorda com a definição de Renan de que o impeachment foi um julgamento no hospício?    

A questão é como o presidente do Senado é capaz de admitir isso e todo mundo encarar como natural. E os senadores dizendo abertamente que foi um julgamento político. Ou seja, às favas o estado de direito, às favas as garantias jurídicas, ou seja, “nós mandamos na República”. “Nós decidimos apeá-la do poder mesmo que não haja crime porque nós não concordamos com o posicionamento do governo dessa mulher em período de crise. Nesse período de crise mundial nós não queremos perder os nossos privilégios. Não queremos vender a nossa casa de campo e só ficar com a nossa casa de praia, o apartamento na cidade e os apartamentos para cada filho. Nós queremos a casa de praia e a casa de campo. Nós não queremos vender o iate e ficar só com o helicóptero, a gente quer o iate e o helicóptero. E para a gente manter os nossos privilégios e as nossas vantagens, vamos repassar os custos dessa crise para os pobres e os trabalhadores”... que sempre, historicamente, pagaram os custos das crises desse país. No fim e ao cabo nós é que sustentamos essa elite. Eles nos exploram e eles querem que o Brasil continue sendo um país de muitos explorados e pouquíssimos exploradores. Por isso a declaração de Renan foi recebida com naturalidade. Nisso tudo surgiram figuras queimadas, desmoralizadas. Cristóvão Buarque. Se eu nutria qualquer respeito por ele o meu respeito acabou ali no dia daquele julgamento da Dilma no Senado. Porque sequer a humildade de pedir desculpas e voltar atrás ele teve. Meteu os pés pelas mãos.

E o que você achou do Temer se comparar com Carlos Magno?

Primeiro, Temer é um ignorante, vamos combinar, faz parte da baixa intelectualidade que tomou conta da política brasileira. Essas elites que chamavam o Lula de analfabeto, como o Diogo Mainardi que o chamava de apedeuta, de anta, criticam ele porque ele dizia “menos”, mas o Lula sempre teve uma sabedoria típica de pessoas como o Riobaldo de Guimarães Rosa em “Grande Sertão Veredas”. O Lula não teve a formação acadêmica, ele pode não dominar as normas da língua, mas ele tocou profundamente a alma do povo brasileiro. Aí, esses caras... constitucionalistas... sociólogos, como Fernando Henrique Cardoso...constitucionalistas como Michel Temer cometem esse tipo de gafe, confundem Carlos Magno com Rei Arthur. É um delírio! É um delírio típico dos golpistas, típica da elite cafona, trancafiada em bolhas, que não conhece as diferentes realidades do povo dessa nação. Isso está de acordo com o surto psicótico de Janaína Pascoal que é ao mesmo tempo professora da USP, uma instituição que sequer está entre as melhores do país, tem a ver com o power-point do Dallagnol, é bem isso, a nova hegemonia política brasileira, além de cafona e anti-intelectual, ela é arrogante e cuja formação é uma fachada, é o diploma, mas a formação profunda mesmo, a transformação pessoal, espiritual, a ausência de preconceitos, o repertório dilatado isso eles não têm.

Aliás, se conhece bem quem é Michel Temer pelos poemas dele...

Menino, que coisa!

Você acha que são poemas?

Aquilo é um constrangimento! Um dia eu abri o livro dele numa página e não acreditei! É muita arrogância alguém lançar aquele bando de clichês... autoajuda rasteira... aquilo se fosse um livro de poesias... para mim aquilo nunca vai ser literatura, em nenhuma circunstância, em nenhum contexto.   

Você acha que ele aguenta dois anos?

Cara, eu não quero que ele dure dois anos, eu não quero. Mas o meu medo não é só que ele dure dois anos, mas que dure mais tempo, não ele especificamente, mas o tipo de política que ele representa, uma hegemonia política ignorante, anti-intelectual, preconceituosa, violenta do ponto de vista político, que não admite o debate, não admite o adversário político, não baseia a discussão em argumentos, mas sim na desqualificação do adversário, eu tenho medo que essa hegemonia perdure por mais tempo. Ela já perdurou 21 anos depois do golpe de 64. Eu não quero mais vinte anos disso de novo. Eu acho que podemos criar um estado de bem-estar social como em alguns países europeus, sem abolir o capitalismo. O capitalismo é uma besta que precisa ser domesticada. O mercado é uma fera que precisa ser contida, adestrada. Senão, ela estabelece a paz dos cemitérios. O estado tem que controlar essa fera chamada mercado. Há de haver um equilíbrio. Isso é o que os países europeus fizeram. Estão numa luta para controlar o mercado. Enquanto aqui nós deixamos essa besta livre.

Esse ano o Temer não cai mais. Se cair ano que vem é pior porque aí a Câmara é que vai eleger o sucessor dele...

O Congresso Nacional continua o mesmo. Derrubar o Temer será um ato de justiça por tudo o que foi perpetrado contra Dilma e contra a democracia. Mas a gente precisa rapidamente renovar o Congresso Nacional. Teria que ter eleições gerais, não só para a presidência da República. Eu não tenho problema nenhum de abrir mão do meu último ano de mandato. Estou deputado, não sou deputado. Eu abro mão em nome da renovação do Congresso Nacional. Precisamos ter um Congresso Nacional diferente do que aquele que se apresentou ao país no dia 17 de abril. E que chocou o país, porque o Brasil tem essa postura meio esquizofrênica. Tem que eleger tudo de novo, desde os vereadores. A indecência começa na Câmara de Vereadores. Nas prefeituras.

Tem alguma semelhança entre a Câmara e o Big Brother?

Nenhuma semelhança...a única semelhança é essa questão da vigilância. As câmeras permanentes, o modelo... O Big Brother não é uma novidade. Os donos da Endemol, que são os criadores do programa tiraram a fórmula do livro de George Orwell, “1984”. O Big Brother é o olho que tudo vê, é o olho que tudo controla numa sociedade despótica, imaginada por George Orwell em 1948. Ele inverteu o 48 para 84. Essa distopia está se implantando, na medida em que se permite essa ubiquidade das câmeras, para o bem e para o mal. Os vilões que emergem do Big Brother têm mais dignidade que os da política brasileira, esses que sempre mandaram na nossa República.

No Big Brother você fica trancado com pessoas que nunca viu na sua vida, muitas devem ser desagradáveis, assim como na Câmara, aquele auditório fechado, sem janelas, você também obrigado a conviver com gente desagradável.

Não é nada agradável, mas o Big Brother tem uma desvantagem; no Big Brother a gente não pode sair dali. Você não tem televisão para assistir, você não pode levar livro, não pode levar caneta, papel, você não se comunica por outro meio        que não a fala, a interação forçosa com essas pessoas. Nesse sentido, três meses sob essa vigilância e sem poder fazer nada talvez seja pior que a Câmara porque quando um fascista como Bolsonaro faz o seu discurso de ódio ou mesmo me insulta eu tenho a opção de me levantar, como eu fiz muitas vezes em diferentes sessões. Quando o Marun está fazendo o seu discurso pavoroso em defesa do Cunha eu tenho a opção de sair. No Big Brother, não. Mas a Câmara não deixa a desejar em figuras deploráveis com as quais a gente tem que conviver. Pessoas inclusive acusadas de mando de assassinato, quer dizer, é uma barra pesada. Eu sou um cara espiritualizado, não sou ateu, tenho uma religiosidade que é bastante sincrética, acredito em forças e fico me protegendo como posso daquelas pessoas, muitas das quais têm um ódio terrível de mim e ódio de tudo que eu represento, e ao mesmo tempo sou um cara combativo, não tenho medo, é difícil lidar comigo, eu entendo isso. Eu sou um corpo estranho que emperra a engrenagem de alguma maneira. A única coisa que o sistema pode fazer é me cuspir, me expelir. Embora eu duvide muito que depois de tudo o que eu já fiz ao longo desses dois mandatos esse sistema volte a operar como antes. O sistema não vai operar como antes. O Michel Temer pode levar uma comitiva só de homens para a China, mas ele não vai mais levar impunemente, sem ser questionado, sem ser debochado.

Um dia você falou sobre a formação das famílias, tão heterodoxa, a começar de Jesus, cujo pai não era o pai dele. E o Michel Temer é casado com uma mulher que tem idade da filha dele... também é uma família heterodoxa...

Os conservadores e reacionários são bem seletivos na hora de condenar as relações familiares. Eles se incomodam com as famílias homoafetivas, famílias formadas por pessoas do mesmo sexo, mas aceitam de bom grado a família de Michel Temer. Mas por que aceitam? Porque a família de Michel Temer é o homem mais velho, o patriarca, desposando o corpo das meninas mais jovens, que cumprem papel na sustentação pública do patriarca. O Lula também tem essa mentalidade. Ele é um cara que deu um passo adiante. Hoje ele elogiou a Marisa Letícia por ela ter aceito o papel de esposa, de cuidar da família para deixa-lo trabalhar no espaço público. Não deixa de ser uma mentalidade machista. Mas o Lula, ao contrário do Michel Temer, talvez pela própria experiência da pobreza faz com que ele consiga dar um passo adiante, ou meio passo, mas ele consegue ser um pouco mais sensível a essa questão, tanto que ele indicou a Dilma... tanto que ele indicou a Carmen Lúcia no STF... ele indicou o Joaquim Barbosa...Michel Temer, não, é a mera representação da dominação masculina...é o segundo casamento dele e ninguém tem nada com isso, a Igreja não se mete, pode ser o segundo casamento ou o décimo-sétimo... mas quando é casamento homossexual deixa a Igreja se meter.

Em 1931 Oswald de Andrade e Pagu editaram um jornal diário chamado “O homem do povo”. Uma espécie de “O Pasquim” da época.

Foi quando ele deixou a Tarsila para morar com a Pagu que eles fizeram esse jornal.

Uma das sessões se chamava “Quem é o maior bandido vivo do país”?

(Risos). Muito bom!

Os leitores por meio de cartas faziam suas escolhas. E todo dia saía o placar. Arthur Bernardes, tantos votos... Assis Chateaubriand... Lampeão... Em quem você votaria hoje? Quem seria para você o maior bandido vivo do país?

Eduardo Cunha. Sem sombra de dúvida. Eduardo Cunha foi a inteligência do golpe na sua execução no Parlamento. Claro que o golpe foi uma vontade das elites econômicas, plutocratas e dos partidos que os representam – PSDB, DEM e PPS – mas ele é um cara que atravessou diferentes governos procedendo de maneira ilícita e nas sombras e achou que tinha amarrado todas as pontas de modo que ele poderia ir para os holofotes. Mas tinha um Ministério Público da Suíça no caminho dele.

Como o Temer vai entrar para a história?

Golpista. Não há outro papel, não há outro lugar para ele. Traidor e golpista. Acho que Temer terá o mesmo destino de Joaquim Silvério dos Reis, o traidor da conjuração mineira. Eles podem até controlar a narrativa por um tempo, mas a verdade sempre emerge. Até “O Globo” pediu desculpas por ter apoiado a ditadura militar.

Esses protestos vão parar?

Acho que não e acho que não devem falar. Acho que a gente tem que continuar contestando esse governo, porque contestar esse governo é defender a democracia. Temos que defender o estado de direito, temos que defender a presunção de inocência, temos que defender a postura republicana dos membros das instituições públicas, temos que cobrar isenção dos membros do Ministério Público.

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