Vigília Lula Livre: 580 dias entre luzes e sombras, debaixo de chuva e de sol

Vigília Lula Livre está entre as maiores experiências de organização e resistência já registradas na história do Brasil

Justiça revoga liminar e proíbe manifestações da Vigília Lula Livre em Curitiba
Justiça revoga liminar e proíbe manifestações da Vigília Lula Livre em Curitiba (Foto: Stuckert)
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Por Neudicléia de Oliveira e Pedro Carrano - Na história do Brasil, poucos movimentos em apoio a um preso político duraram tanto tempo como a Vigília Lula Livre. As primeiras movimentações em defesa do ex-presidente Lula aconteceram ainda no dia 4 de abril de 2018, quando o STF deu sinal verde à sua condenação, rejeitando o habeas corpus preventivo. As organizações no interior da Frente Brasil Popular prepararam-se para o pior: no dia 7 de abril Lula se apresentava e o helicóptero pousava no teto da superintendência da Polícia Federal, no bairro Santa Cândida. Do lado de fora dos portões, bombas de gás lançadas contra mais de dois mil pacíficos manifestantes. 

Na mesma madrugada, todos retomaram suas energias e foi feita a promessa da militância de sair dali apenas com a presença do ex-presidente. Já no primeiro dia foi adotada a prática de enviar a Lula o “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”. Todos os dias. Nos primeiros três meses a vigília ainda era na rua, com barracas de saúde, secretaria e comunicação.  

Naquela esquina pela democracia machucada, mas viva, provou-se o sabor de um pouco de tudo: ataques de grupos conservadores; visitas de pessoas comuns querendo contribuir; vasilha de água  chuveiro doados por moradores; provocadores a mando do deputado Fernando Francischini. Mas nosso espaço era de propostas, de projeto: a vigília tornou-se um centro de comunicação com entrevistas, coletivas de imprensa e reportagens diárias, no auge e ebulição da comunicação colaborativa, com vários veículos alternativos participando. Tornou-se também um espaço de rodas de conversas e formação política, apresentações culturais, que contaram com Ana Cañas, banda Partigianos, João Bello e Susi Monte Serrat, entre inúmeros artistas que tomaram posição naquele momento decisivo.  

Solidariedade é a essência dos trabalhadores 

No livro ata de registro dos visitantes à vigília, estão marcados 30 mil nomes. Os visitantes na realidade foram muito mais. Pessoas chegavam diariamente. E esse espaço se manteve ao longo de 580 dias, preparando comida para, em média, 50 pessoas, tudo a base de doações. O fato é que a solidariedade é algo fundamental neste momento no Brasil para a organização dos trabalhadores. E a Vigília foi o seu exercício mais bonito e que não podemos esquecer. 

Tribuna política brasileira e mundial 

Uma piada começou no governo Temer e continuou mais forte no governo Bolsonaro: Lula foi mais visitado na prisão do que os ambos em Brasília. Figuras da política brasileira e mundial, artistas, caso de Chico Buarque, religiosos e acadêmicos estiveram diante da polícia federal às quintas-feiras, quando o ex-presidente recebia duas visitas. O líder brasileiro também recebeu a visita de Monja Cohen, de Dilma Rousseff, do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, de Ernesto Samper, ex-presidente da Colômbia (1994-1998), de Jean Luc Mélenchon, que teve 20% dos votos na França. Do futuro candidato socialista do Zâmbia, país africano. O ex-presidente argentino Eduardo Duhalde e o presidente recém-eleito, Alberto Fernandez, também estiveram em 2019 diante dos portões injustos e pequenos da Polícia Federal.  

Ato inter-religioso  

Entre as atividades que fizeram parte do ritual da Vigília Lula Livre estava a consolidação do ato inter-religioso, todos os domingos, às 18h, reunindo lideranças religiosas católicas, evangélicas, umbandistas. Era o momento para renovar o ânimo, carregado da simbologia de que a mensagem de Cristo essencialmente é de amor ao próximo, de justiça social, de valorização dos trabalhadores mais humildes. Experiência de tolerância e diversidade que deveria ser reproduzida em cada estado, reunindo os movimentos populares e as lideranças progressistas das diferentes religiões.   

O corredor do grito Lula Livre   

Nervosismo de todos. Às 17h45 do dia 8 de novembro de 2019 aconteceu o que muitos já não esperavam depois de mais de um ano e meio de cárcere. Até que veio a decisão do STF contra a prisão em segunda instância, na noite anterior. A Operação Lava Jato estava desmoralizada na sociedade. Assim mesmo, naquela tarde, o tempo se arrastava. Todos desconfiavam se o Judiciário cumpriria mesmo as regras do jogo. De repente, os ombros cansados dos que lutavam todos os dias ergueram-se ansiosos e viram os advogados do ex-presidente chegarem animados vindos da Justiça Federal. Movimentação dos seguranças. Notícias correndo nos grupos de Whatsapp. O juiz havia enviado o alvará de soltura! Um corredor de coletes vermelhos do MST abriu alas, dos portões da PF até o palco montado na vigília, onde estávamos.  

Do alto da rua, era possível sentir e ouvir a vibração da saída de Lula, os gritos das dezenas de pessoas e jovens ali presentes de última hora. Preparativos apressados da coordenação da vigília. Minutos tensos. Jornalistas posicionados. Um terremoto coletivo. Lula finalmente vem na direção do palco. Chega no atropelo dos abraços. Sobe. Confusão. Fazia sol. Nossos corações mais leves. Beijos. Muitos ali choravam. Seguranças tranquilos. Amigos. Dirigentes. Apoiadores. Pessoas humildes e tenazes, algumas das quais passaram os exatos 580 dias diante da injustiça. Muitos agora cantavam. E a história brasileira volta a jogar seus dados. Missão cumprida, sentimos naquele momento. Mas a luta, Lula bem sabe desde os anos 80, essa continua.   

* Pedro Carrano é militante da organização Consulta Popular, Neudicléia de Oliveira é militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), ambos integraram a coordenação da Vigília Lula Livre, entre várias organizações e militantes

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