Em livro, Moro detonou Flávio Bolsonaro, que é hoje seu aliado
Sergio Moro cita caso de rachadinha e outras “encrencas” de Flávio Bolsonaro com a Justiça
247 - O livro “Contra o Sistema da Corrupção”, publicado pelo senador e pré-candidato ao governo do Paraná Sergio Moro (PL) no fim de 2021, voltou ao centro do debate político ao revelar críticas do ex-juiz parcial a uma decisão que beneficiou o também senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) no caso conhecido como “rachadinha”, envolvendo suspeitas no gabinete do então deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), destaca Lauro Jardim, no jornal O Globo.
Moro e Flávio Bolsonaro hoje aparecem politicamente alinhados no Paraná, onde dividem palanque nas articulações eleitorais deste ano. A obra, porém, mostra que a relação entre os dois já foi marcada por fortes divergências, especialmente em torno de uma decisão liminar do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), que suspendeu investigações abertas a partir de relatórios de operações financeiras enviados pelo Coaf sem autorização judicial prévia para quebra de sigilo bancário.
Entre os procedimentos impactados pela decisão estava o inquérito que investigava a suposta prática de “rachadinha” no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj. No livro, Moro classificou a medida, que favoreceu Flávio e Fabrício Queiroz, como “temerária para o país”.
De acordo com o relato do ex-juiz parcial, a liminar contrariava práticas internacionais de combate à lavagem de dinheiro e colocava em risco o sistema brasileiro de prevenção a crimes financeiros. Moro escreveu que o Brasil “corria o risco de se transformar em um paraíso da lavagem de dinheiro”.
A crítica mais direta aparece em uma passagem na qual Moro afirma: “O que não se poderia admitir era a destruição do sistema nacional de prevenção à lavagem de dinheiro com o propósito de salvar da lei o filho de alguém, mesmo sendo ele o filho do Presidente da República”.
Relato aponta desgaste com Jair Bolsonaro
Na obra, Moro afirma que evitou tratar publicamente do caso à época, mas diz ter manifestado preocupação dentro do governo, quando ainda ocupava o cargo de ministro da Justiça. Segundo ele, a posição gerou “desgaste” com Jair Bolsonaro (PL).
Moro relata uma conversa em que teria sido orientado pelo então presidente a não se envolver no assunto. De acordo com o livro, Bolsonaro disse: “Se não vai ajudar, então não atrapalhe”.
O ex-juiz parcial também procura se afastar do episódio das “rachadinhas”. Ele afirma que, quando aceitou o convite para comandar o Ministério da Justiça, ainda não haviam surgido notícias sobre Fabrício Queiroz nem sobre as suspeitas envolvendo o gabinete de Flávio Bolsonaro.
No livro, Moro reconhece ainda que era “controverso” integrar um governo liderado por um presidente que acumulava declarações preconceituosas, agressivas e autoritárias. A justificativa apresentada por ele é que, durante a campanha eleitoral, Bolsonaro teria moderado o tom.
Livro cita PCC e cobranças por vetos
A obra também aborda outro episódio de tensão no governo Bolsonaro: a transferência de lideranças do PCC para presídios federais. Moro afirma ter sido surpreendido, poucos dias antes da operação Imperium, por uma mensagem do então presidente sugerindo o cancelamento das transferências.
Segundo o relato, Bolsonaro temia possíveis retaliações do crime organizado e avaliava que uma escalada de violência poderia resultar até em um processo de impeachment.
Moro também registra críticas à falta de vetos de Bolsonaro a medidas que, em sua avaliação, enfraqueciam o combate ao crime. Na obra, o ex-ministro afirma que “as encrencas do filho dele com a Justiça não eram justificativas” para esse tipo de postura.
Em outra passagem, Moro acrescenta: “Um estadista, um homem público, tem o compromisso de dirigir o país pensando no bem-estar geral e não em proteger o filho ou a família da ação da lei e da Justiça”.
As declarações registradas no livro devem ser exploradas por adversários de Moro no Paraná, entre eles Requião Filho (PDT), pré-candidato ao governo estadual.



