Tarso Genro alerta para "destruição sem precedentes" do meio ambiente: Salles é um antiambientalista

Em entrevista a Marilza de Melo Foucher, o ex-ministro Tarso Genro afirmou que Ricardo Salles "é um antiambientalista e, na verdade, é um articulador de agressões jamais vistas aos territórios das comunidades originárias, estimulando o garimpo ilegal e os incêndios florestais, pois ele é simpático às queimadas no território amazônico"

Tarso Genro
Tarso Genro (Foto: Divulgação)
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Marilza de Melo Foucher, especial para o 247 - Tarso Herz Genro é um polivalente, formado em Direito, doutor honoris causa de duas universidades brasileiras, especializado em direito trabalhista, colunista colaborador de jornais e blogs no Brasil e no exterior, professor convidado de distintas Universidades no Brasil e no exterior, ensaísta nas áreas da teoria do direito e teoria política e homem político. Tem inúmeros livros publicados na área de Direito, Política e Literatura. Como político, exerceu vários mandatos foi eleito pela primeira vez como vereador em Santa Maria-RG, integra o Partido dos trabalhadores-PT e em 1989 foi eleito Vice-Prefeito de Porto Alegre, depois foi deputado federal, Prefeito de Porto Alegre, depois Governador do Estado. Com a ascensão de Lula à Presidência e sua reeleição, assumiu o comando do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e exerceu mandatos como Ministro da Educação, Ministro de Relações Institucionais e Justiça. Foi também Presidente do Partido dos Trabalhadores-PT.

O filosofo francês Paul-Michel Foucault dizia que todo lugar de exercício do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação do saber. 

Como homem político de esquerda, que aprendizado você tirou do exercício do poder e de suas relações? 

Todas as lições e todos os aprendizados possíveis. No exercício de funções parlamentares e nas funções executivas é que você realmente testa a sua visão de mundo e de humanidade. E da moralidade superior aprendida na clandestinidade da luta social e política adquirida, por exemplo, nas lutas contra uma ditadura. 

Você acha que todos os políticos deveriam se educar para o exercício do poder?

Não existe um tipo político único. De uma maneira muito precária, mas que não deixa de ser uma síntese adequada, pode-se dizer que alguns políticos querem chegar ao poder para matar, prossigo, dando talvez, exemplos-limites desta afirmativa: como exemplos de políticos, lembro aqueles que, como Trump e Bolsonaro,  são negacionistas da ciência, anti-ambientalistas e racistas, cuja visão do ser humano é uma visão meramente instrumental para acumulação capitalista. A sua desconsideração pela vida está inscrita em todas as atitudes públicas e nas suas principais práticas de estado.

Existem também aqueles que vem para fazer carreira e para "tirar" proveito das circunstâncias, estes são os políticos tradicionais que, conforme as alianças que estabelecem, podem ser úteis à luta emancipacionista ou podem ser ajudantes da direita ou da extrema direita, com seus programas de ódio e cada vez maior elitização da renda, cujas  atitudes são identificadas, normalmente, pela "grande mídia" como características dos políticos "normais" no regime democrático-representativo. Assim como, existem outros políticos que fazem uso do poder para lutar pela vida, contra as guerras, pela emancipação, pela igualdade, pelo respeito aos direitos humanos -nas distintas correntes de opinião dos partidos-democráticos- sabem ser pragmáticos, para poder governar, sem dissolver seus princípios. Estes, definem com precisão seus aliados, adversários e inimigos, para poder produzir políticas de Estado que vão no sentido da liberdade e da igualdade, respeitando os espaços constitucionais conquistados no Estado Social de Direito.

O que eu aprendi no "poder", ou melhor, como governante dentro do Estado Social de Direito, é que é possível ser coerente -como dirigente político de esquerda- tanto na oposição como governando. Este talvez tenha sido o meu mais o meu mais importante aprendizado com o exercício do poder. 

Todavia, eu penso que cada “político” busca preparar-se consciente ou inconscientemente para o que ele quer fazer no poder, segundo a sua visão de mundo e de humanidade.

Sabe-se que a hegemonia do capitalismo financeiro, só poderia ser alcançada pela via política, mediante o manejo oportuno de recursos de poder.

Por que a esquerda se focou mais sobre o neoliberalismo do ponto de vista econômico e não de sua ideologia?

Acho que a esquerda, como conjunto, analisamos predominantemente o processo dito “neoliberal”, como se ele fosse apenas instruir mais uma etapa do desenvolvimento do capitalismo industrial clássico, não uma barbárie mais completa, onde a força normativa do capital financeiro expressasse -como fez- uma capacidade de destruir, tanto a cultura política iluminista, como seus estados-de-bem-estar, nos seus aspectos econômicos mais positivos. Isso nos fragilizou globalmente para preservar nossos valores de esquerda e afirmar nossas diferenças ideológicas. Mèszaros e Baumann, de distintas formas, perceberam esta limitação e escreveram muito sobre ela. Para quem não os leu ainda eu recomendo a leitura. O filosofo húngaro Mészáros esclarece na sua obra sobre Filosofia, ideologia e ciência social, o poder da ideologia e de seu papel no processo dos ajustes estruturais. Enquanto Baumann em seu livro “Vida líquida” descreve nossas sociedades contemporâneas como um universo sem marcos onde emergem o individualismo e a efemeridade das relações ... Vivemos em uma era líquida. Nada foi feito para durar. 

Para a esquerda, a superação da ideologia neoliberal é um dos maiores desafios para construir um novo projeto de sociedade. Neste período de pandemia, a ideologia neoliberal tirou sua máscara, como você escreveu em seu artigo no Mediapart. https://blogs.mediapart.fr/marilza-de-melo-foucher/blog/180320/le-coronavirus-enleve-le-masque-de-lideologie-neoliberale

Como pensar em emancipação humana, na dignidade humana, na justiça social e uma sociedade mais fraterna quando a democracia é refém desta ideologia?

Penso que devemos recuperar, com categorias políticas e filosóficas adequadas a este período histórico, o debate que se deu entre social democracia e bolchevismo no início do Século passado, para verificar se o caminho composto por estas duas correntes do pensamento político marxista, foi o mais adequado para a emancipação humana, já que ambos -embora com avanços sociais notáveis para os “ de baixo”- num curto período histórico acabaram se esgotando como “modelos” de sociedades tendentes à eliminação das desigualdades e opressões tipicamente classistas.

Como a esquerda brasileira se prepara para definir novos paradigmas de desenvolvimento com inclusão social, econômica, cultural que leva em conta os ecossistemas ameaçados e sua biodiversidade?

O Brasil deixou de se preparar para enfrentar estas questões sociais e eco-ambientais, a partir do golpe parlamentar encetado contra Presidenta Dilma. No entanto, todos os governos anteriores desde a Constituição de 1988, em maior ou menor grau, desenvolveram algumas políticas significativas nessa matéria, que alcançaram seu ponto mais elevado nos Governos do Presidente Lula - continuados nos Governos Dilma -. Durante estes períodos, houve uma política de desenvolvimento com inclusão social muito mais atenta às questões socioambientais do que as anteriores, em particular nas administrações da Ministra Marina Silva e Carlos Minc, no Ministério do Meio Ambiente.

Na gestão atual, o Presidente Bolsonaro colocou no Ministério do Meio Ambiente uma pessoa que, na verdade, é um anti ambientalista e, na verdade, é um articulador de agressões jamais vistas aos territórios das comunidades originárias, estimulando o garimpo ilegal e os incêndios florestais, pois ele é simpático às "queimadas" no território amazônico, que tem um dos ecossistemas mais ricos e ao mesmo tempo delicados do planeta. Atualmente há um processo de destruição sem precedentes, quanto ao caráter predatório das políticas de Bolsonaro, em relação aos ecossistemas da Amazônia e do Pantanal Matogrossense. Veja a situação que nos encontramos: numa reunião Ministerial gravada, divulgada portanto em escala nacional por algumas TVs, o Ministro Ricardo Salles disse - com todas as letras - que o Governo deveria aproveitar a atenção da grande imprensa aos problemas causados pela Pandemia, para "passar a boiada na Amazonia", ou seja permitir e estimular as incursões ilegais dos criadores de gado e garimpeiros ilegais na região, que se caracterizam por provocar "queimadas" das florestas, para produzir  "pasto" e abrir os territórios ao garimpo. Portanto, há uma ruptura na continuidade das políticas eco-ambientais no país, de uma maneira criminosa e com estímulos do próprio Presidente da República. 

A esquerda embora hoje dispersa e fragmentária, ela deve levar em conta sua experiência passada de governabilidade para redefinir face a catástrofe ambiental do atual governo, uma política socioambiental mais ousada e que respondam aos novos desafios.

O último discurso de Lula no dia 7 de setembro teve uma boa repercussão mundial. Como você interpretou este discurso?

A fala de Lula no dia que se festeja a independência do Brasil foi bem mais do que a demonstração da sua superioridade política e moral em relação ao atual Presidente. Foi também uma resposta aos que lhe perseguiram através da manipulação dos processos judiciais, assim como do seu julgamento prévio feito pela mídia oligopolizada. Esta omitia os argumentos de defesa dos advogados de Lula, as razões da sua defesa durante todos os momentos dos procedimentos judiciais e policiais, sem contar o apoio dado aos golpistas que nos trouxe ao abismo: carestia, medo do incerto e volta da escancarada miséria absoluta, o novo genocídio das esquinas da miséria e do desemprego.

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