A polêmica dos testes sorológicos para a Covid-19

OMS alerta que esse tipo de exame, que averigua se a pessoa desenvolveu anticorpos contra o novo coronavírus, não pode ser usado na elaboração de políticas públicas durante a pandemia. Resultado positivo não é garantia de imunidade duradoura para a doença

(Foto: Dado Ruvic / Reuters)
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Por Fábio de Oliveira, da Agência Einstein - O jornal americano The New York Times publicou recentemente que o governador do estado de Nova York, Andrew M. Cuomo, viu como uma boa notícia o fato de uma pesquisa ter mostrado que 1/5 dos novaiorquinos tinham anticorpos para o novo coronavírus. Se tanta gente foi infectada e sobreviveu, raciocinou Cuomo, o vírus pode ser menos letal do que se pensava. Muitos cientistas viram o fato de forma diferente: na verdade, várias pessoas correm o risco de serem contaminadas. Afinal, 20% da população não é um número grande – só para ter uma ideia, o ideal é que 95% das pessoas tenham recebido o imunizante contra o sarampo, por exemplo, para que não haja surtos da doença. Como o diário lembra, ele e vários outros líderes têm esperado que os testes sorológicos, que são usados para checar a resposta imune ao micro-organismo, sejam empregados em larga escala de forma a servir de guia para a decisão de quando reabrir a economia e reintegrar a sociedade. 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou um comunicado alertando contra o uso do método para resoluções políticas. Segundo a OMS, governos de alguns países chegaram a sugerir que a detecção dos anticorpos poderia servir de base para um "passaporte de imunidade" ou "certificado sem risco" que permitiria que indivíduos viajassem ou retornassem ao trabalho, assumindo que estão protegidos contra reinfecções. Mas não há evidências quanto a isso.  

E o que é o teste sorológico? Para entendê-lo, é preciso compreender como nosso corpo reage aos ataques de agentes infecciosos. “O organismo humano tem um sistema imunológico que faz a defesa contra agentes infecciosos, como fungos, bactérias e vírus”, explica o médico Cristóvão Mangueira, diretor médico do Departamento de Patologia Clínica e Anatomia Patológica do Hospital Israelita Albert Einstein. “Depois de um certo tempo, ocorre a produção de anticorpos específicos contra novos invasores.” Trata-se de proteínas chamadas de imunoglobulinas G, que se ligam aos vírus. Elas é que são mensuradas no teste sorológico, que é um marcador de contato com o micro-organismo.  Em algumas infecções, são protetoras. Isso quer dizer que a pessoa está imunizada contra o problema.  

Em relação a outros vírus, essa reação do organismo é rápida e ocorre em cerca de uma semana. Mas, no caso do novo coronavírus, esse processo tem apresentado maior lentidão. Ele começa por volta do sétimo ou do oitavo dia. Ou mais tardiamente ainda, no 25º ou 30º dia. Mas não se sabe se os anticorpos contra o Sars-Cov-2, seu nome científico, garantem proteção prolongada. “Essa resposta ninguém tem”, diz Cristóvão Mangueira. Sem contar que em outros países houve registro de pessoas que tiveram a Covid-19 uma segunda vez. 

Para saber se houve uma ação das defesas, leva-se em conta a data em que o teste sorológico é realizado. “No 14º, 15º dia da infeção, ele apresenta uma sensibilidade de 80%”, revela Mangueira. Dito de outra forma, 80% dos indivíduos que tiveram contato com o vírus apresentam resultado positivo. Mais do que servir como um instrumento para arrefecer o isolamento social, esse tipo de testagem é o mais indicado para o que os especialistas chamam de inquérito epidemiológico, ou seja, para mapear a doença em uma determinada população. 

É o que o Centro para Controle de Doença e Prevenção (CDC), nos Estados Unidos, está conduzindo aleatoriamente em 460 lares da cidade de Atlanta. A imunidade de rebanho, ou seja, quando um grande contingente de pessoas se torna imune a uma doença infecciosa a ponto de oferecer uma proteção indireta para quem não tem essa resistência, só vai ser alcançada com uma vacina contra o novo coronavírus. “Os testes começaram agora”, diz Cristóvão Mangueira. Teremos de esperar até mais de um ano para que haja um imunizante. Até ordem em contrário, o melhor é procurar ficar em casa.  

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