"Doença da urina preta": o que já se sabe sobre a condição no Brasil?

Até novembro, país registrou 74 casos da doença de Haff e quatro mortes, em 2021

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(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)


Por Alexandre Raith, da Agência Einstein - Apesar de ser relatada desde 1924 em comunidades da região do Mar Báltico, a doença de Haff, também conhecida como “doença da urina preta”, até hoje intriga os pesquisadores sobre qual seria o agente causador. A associação mais citada — mas ainda em estudos — é a contaminação via a ingestão de pescados e mariscos. 

“Até a presente data não existe consenso”, explica Marcos Mota, pesquisador em Saúde Pública da seção de Meio Ambiente do Instituto Evandro Chagas. “Vários estudos laboratoriais relacionados com vírus, bactérias e parasitas não confirmam o quadro da doença de Haff. Existe uma linha de pesquisa sendo desenvolvida no sentido de atribuir a uma toxina como agente principal de contaminação”, detalha. 

Os sintomas característicos se assemelham a outra condição: rabdomiólise, ou a lesão das células musculares esqueléticas. Nos dois casos, os pacientes podem apresentar rigidez súbita e dores musculares, além da urina escura. 

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Porém, não há relatos de rabdomiólise ligados à ingestão de peixes — o que suscita ainda mais dúvidas sobre a doença de Haff. Não há também tratamento específico, sendo a hidratação venosa a medida mais aplicada para evitar o comprometimento da função renal.

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No Brasil, dados do Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, indicam 74 casos da doença, concentrados nos estados: Alagoas, Bahia, Ceará, Amazonas, Pará, Pernambuco, Amapá e São Paulo. Neste ano, até novembro, foram registradas quatro mortes. 

Saiba mais sobre a doença de Haff, de acordo com informações de Mota:

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A Doença de Haff é associada à ingestão de peixes e mariscos. Mas já se imagina quais podem ser as reais causas?

A doença de Haff é considerada inusitada e com necessidade de notificação. É descrita desde 1924 em comunidades da região do Mar Báltico, sendo desde então sugerida a associação de ingestão de pescado e de mariscos pelos pacientes. Atualmente, várias iniciativas de estudos estão sendo conduzidas para o esclarecimento do agente causador. Até a presente data não existe consenso. Vários estudos laboratoriais relacionados com vírus, bactérias e parasitas não confirmam o quadro da doença de Haff. Existe uma linha de pesquisa sendo desenvolvida no sentido de atribuir a uma toxina como agente principal de contaminação.

Existem fatores de risco para desenvolver a condição?

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Há necessidade de estudos epidemiológicos para estabelecer esses fatores de risco. A doença parece obedecer a períodos ou sazonalidade e alguns territórios onde existem populações em íntimo contato com rios e mares, como comunidades de pescadores e ribeirinhos. A doença de Haff parece agravar em pacientes portadores de comorbidades relacionadas com os rins - fato que pode levar ao óbito. A evolução do paciente vai depender de suas comorbidades e diagnóstico, além da implementação de hidratação venosa precocemente. Atualmente, no estado do Pará, estamos com 25 casos suspeitos e somente um óbito.

Quais são os sintomas mais comuns registrados? Eles mudam conforme o perfil do paciente?

Os principais sintomas estão relacionados com o sistema muscular esquelético, através da ocorrência de mialgia [dor muscular] generalizada, que se caracteriza por dores de leve a elevada intensidade, acompanhada de fraqueza muscular. As dores, em alguns pacientes, se localizam na região posterior do pescoço. Em outros, nos membros superiores e inferiores. Tenho paciente que evoluiu somente com a ocorrência de câimbras no abdome e região do tórax. A febre não está presente e, aparentemente, não apresenta sinais de toxemia [intoxicação pelo acúmulo de toxinas no sangue] ou infecções. Alguns pacientes relatam náuseas, vômitos, cefaleia [dor de cabeça] e mal-estar geral. Outros citam falta de ar, provavelmente pelo comprometimento dos músculos auxiliares da respiração. Todo esse quadro clínico bastante agudo, com evolução aproximadamente de seis a 12 horas, ocorre após a ingestão de pescado e a ocorrência de urina de cor escura. Ele lembra um quadro já bem descrito na medicina, que é o da rabdomiólise, cuja causa é conhecida pela exaustão muscular, restrição de movimentos, uso de alguns medicamentos e até comorbidades crônicas. Porém, nunca relatado com a ingestão de peixes.

Apesar do agente causador desconhecido, quais tratamentos estão sendo usados?

Até a presente data não existe tratamento específico, sendo feito somente hidratação venosa precoce, desde quando houver a suspeita de doença de Haff, e acompanhamento dos sinais vitais do paciente. Não existe indicação de uso de antibióticos nem de anti-inflamatórios.

A doença deixa sequelas?

Há necessidade de hidratação venosa precoce para evitar o comprometimento da função renal, o que pode ocorrer pela insuficiência renal aguda.

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