Drogas para baixar o colesterol podem aumentar o nível de bactérias benéficas no intestino

Obesos que tomaram estatinas apresentaram menor taxa de micro-organismos associados à inflamação, revela estudo publicado na revista científica Nature

(Foto: Reprodução)
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Por Fábio de Oliveira, da Agência Einstein - Em busca do elo entre obesidade e as bactérias que habitam nosso intestino, pesquisadores do Rega Institute for Medical Research, na Bélgica, chegaram a um achado inusitado: as estatinas, drogas usadas para baixar o colesterol, parecem ter um efeito benéfico na comunidade de micro-organismos residentes no órgão, o chamado microbioma. É o que informa a revista científica Nature, onde o trabalho foi publicado. Os cientistas analisaram informações obtidas pelo estudo MetaCardis, da União Europeia. O projeto reuniu dados sobre a composição daqueles micróbios para avaliar seu papel na doença cardiovascular – isso pode ser feito por meio da análise de amostras das fezes. Para ter uma ideia, foram ponderadas mais de 1,4 mil variáveis na análise, como o tipo de remédio que a pessoa tomava e o índice de massa corpórea, o IMC, que é usado para averiguar se um indivíduo está no peso normal. A iniciativa contou com mais de 2 mil voluntários de diversos países da Europa 

O time liderado pela bióloga Sara Vieira-Silva se deteve numa subcategoria de 900 participantes, cujas informações foram destrinchadas. Os pesquisadores descobriram uma alta prevalência de uma bactéria, o estereótipo Bacteroides 2 (Bact2). Ela foi correlacionada a um maior IMC e obesidade. Mas a população de Bact2 se mostrou significativamente menor nos obesos que tomavam estatinas (5,9% dos envolvidos bem acima do peso) em relação aos que não usavam a droga (17,7%). Essa conexão surpreendente foi confirmada por meio de um dado independente de outro estudo, o Flemish Gut Flora Project, que está sendo levado a cabo na Bélgica.  

A bacteroide 2 contribui para problemas de saúde e ocorrência de inflamação, um dos alvos do medicamento que ajuda a controlar o colesterol na corrente sanguínea. “As estatinas protegem contra a doença cardiovascular em parte porque elas têm uma ação anti-inflamatória”, explica o especialista, Raul Santos que faz parte da Academic Research Organization do Hospital Israelita Albert Einstein (ARO). Elas diminuem a ação de uma proteína, a C-Reativa (PCR), que é um marcador inflamatório. “Além do colesterol alto, hipertensão, tabagismo e diabetes, a inflamação é um dos componentes que levam à aterosclerose.” Ele, que também é professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e presidente da Sociedade Internacional de Aterosclerose (IAS), prossegue: “Estudos mostram que bactérias ligadas à flora intestinal alterada sintetizam substâncias que estariam ligadas a problemas do coração.”  

Uma dessas substâncias é a trimetilamina N-óxido, a TMAO. Ela é formada devido à ingestão de alimentos que contêm colina, um nutriente encontrado em alimentos como a carne vermelha. Bactérias no intestino digerem a colina e, desse processo, surge a trimetilamina (TMA).  No fígado, ela é transformada em TMAO. Altos níveis desse composto no sangue estariam ligados a problemas cardiovasculares e morte prematura por qualquer causa. Em um trabalho publicado no periódico científico Journal of American Medical Association, os pesquisadores chegaram à conclusão de que pessoas com taxas elevadas de TMAO apresentam duas vezes mais risco de infarto e derrame. Outros trabalhos também apontaram um elo entre a TMAO nas alturas e insuficiência cardíaca e doença renal crônica.  

“Indivíduos obesos têm uma inflamação intestinal diferente da de magros. Eles sintetizam substâncias deletérias que aumentam o risco cardiovascular”, revela Santos. Os autores do estudo publicado na Nature reconhecem que é necessário levar em conta se as pessoas que tomavam estatinas tinham melhor acesso à assistência médica ou eram adaptas de outros comportamentos promotores de saúde em comparação às que não consumiam o remédio. Daí a necessidade de uma investigação mais aprofundada. Agora, segundo o cardiologista Raul Santos, é preciso realizar um estudo randomizado, ou seja, com pessoas usando o medicamento e outras à base de placebo (substância inofensiva) para comprovar de fato se a droga tem esse efeito protetor sobre a microbiota intestinal. 

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