Jovens solitários: estudo mostra que solidão é mais forte aos 20 anos, e menor depois dos 60

Estresse, pressões profissionais e necessidade de encontrar um parceiro fazem com que jovens se sintam mais isolados, segundo cientistas

(Foto: Reprodução)
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Por Frederico Cursino, da Agência Einstein - A solidão pode ser considerada uma questão de saúde pública prevalente, com impactos no bem-estar e na longevidade. Um estudo da universidade norte-americana Florida State University College of Medicine, publicado em 2017, mostrou que a solidão pode aumentar em 40% o risco de demência, além de tornar a pessoa isolada mais vulnerável a doenças neurodegenerativas, como depressão, hipertensão e diabetes. Já pesquisadores da Universidade de Chicago alertaram, em 2018, que a falta de experiências sociais pode ser tão nociva quanto o cigarro. O tema tem gerado tamanha preocupação nos últimos anos, ao ponto de o governo britânico criar um gabinete especialmente voltado a estratégias para enfrentar o problema. 

Agora, cientistas da Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos, afirmam que a solidão seria mais intensa entre os jovens. Segundo o estudo, lançado neste mês pelo The Journal of Clinical Psychiatry, entre os 20 e 29 anos, a solidão atinge o seu pico durante a vida. Por outro lado, após os 60 anos é que as pessoas se sentem menos atingidas por ela.   

As conclusões vieram de uma análise com mais de 2.800 participantes, todos norte-americanos, com idade entre 20 e 69 anos. Nela, os pesquisadores identificaram os fatores psicológicos e sociais que levam a padrões de solidão em diferentes faixas etárias. Em seguida, encontraram uma série de preditores de solidão ao longo da vida. 

Por exemplo, foi observado que, em todas as idades, pessoas com níveis mais baixos de empatia, compaixão, relações sociais, sem parceiros conjugais e maiores distúrbios de sono também são mais predispostas a se sentirem solitárias. Já fatores como baixa autoconfiança social e maior ansiedade foram associados à piora na solidão em todas as décadas de idade, exceto após os 60 anos. Outro motivo para os sexagenários serem menos tocados pelo isolamento seria explicado pela associação inversa entre solidão e sabedoria, que tende a ser maior entre as pessoas mais velhas. Para esse grupo, a educação e as queixas de memória são fatores de maior influência para esse sentimento.  

De acordo com a autora principal do estudo, Tanya Nguyen, a sensação exacerbada de solidão aos 20 anos pode ser atribuída ao fato de, nesta idade, os jovens precisarem conciliar momentos de grande estresse e pressões para estabelecer uma carreira profissional e encontrar um parceiro para a vida. “Muitas pessoas nessa década também estão constantemente se comparando nas redes sociais, e estão preocupadas com quantas curtidas ou seguidores eles têm”, afirma Tanya, que é professora clínica assistente no Departamento de Psiquiatria da UC Escola de Medicina de San Diego. Além disso, ela diz que o nível de autoconfiança é mais baixo entre esses jovens, o que aumentaria o nível de solidão.  

Nova crise aos 40 anos 

O estudo também detectou que, aos 40 anos, as pessoas vivem um novo pico de solidão. Isso porque, nessa fase, é preciso enfrentar novos desafios físicos e problemas de saúde, como hipertensão e diabetes. “As pessoas podem começar a perder entes queridos próximos a elas, ao mesmo tempo em que seus filhos estão crescendo e se tornando mais independentes. Isso tem um grande impacto sobre o seu propósito e pode causar uma mudança na autoidentificação, resultando em maior solidão”, acrescenta Tanya. 

Os pesquisadores mostraram ainda que a empatia e a compaixão atuam como componentes de comportamentos pró-sociais, portanto, seriam bons aliados no combate à solidão: “A compaixão parece reduzir o nível de solidão em todas as idades, provavelmente permitindo que os indivíduos percebam e interpretem com precisão as emoções dos outros juntamente com o comportamento útil para com os outros, aumentando assim sua própria autoeficácia social e redes sociais”, afirma o autor correspondente do estudo, Dilip V. Jeste, que é reitor associado sênior de da Escola de Medicina da UC San Diego. 

Jeste diz que os preditores variados ao longo das décadas sugerem a necessidade de uma priorização personalizada de metas de prevenção e intervenção. “Queremos entender quais estratégias podem ser eficazes na redução da solidão durante este momento desafiador”. 

Para o neuropsiquiatra, essas descobertas são especialmente relevantes durante a pandemia global da Covid-19. “A solidão é agravada pelo distanciamento físico necessário para impedir a propagação da pandemia.”

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