Pesquisadores iniciam estudo para identificar abusos contra crianças deficientes

Financiado por entidade de proteção às crianças e adolescentes, pesquisa culminará em propostas de proteção infantil

(Foto: Reprodução)
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Cristiane Bomfim, da Agência Einstein - Crianças com qualquer tipo de deficiência têm quatro vezes mais chances de sofrer algum tipo de violência e abuso do que as crianças sem deficiência. No entanto, os números são praticamente invisíveis nas pesquisas gerais sobre proteção infantil. Para entender como proteger melhor crianças e adolescentes de situações de abuso, pesquisadores das universidades de Portsmouth, East Anglia, Nottingham Trent e Ann Craft Trust, todas no Reino Unido, estão trabalhando em parceria para avaliar a natureza e a qualidade das evidências já existentes sobre o assunto. 

De acordo com a pediatra do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, Ana Cláudia Brandão, muitos fatores contribuem para o aumento do abuso e violência contra as crianças com a deficiência. “O principal deles é a dificuldade de uma criança saber que está sendo vítima de algum tipo de violência, especialmente porque na maioria dos casos, o abuso vem de quem cuida ou de uma pessoa muito próxima”, explica a médica.  

Financiado pelo What Works For Children’s Social Care, iniciativa que busca respostas para ajudar profissionais e a sociedade ao melhor atendimento de crianças e adolescentes, o estudo tem objetivo de identificar os abusos sofridos por crianças com deficiência e os procedimentos das famílias na proteção infantil. Como resultado, será elaborada uma recomendação para criar respostas eficazes no atendimento desse público. “É fundamental entender melhor as evidências sobre o aumento do risco de abuso e negligência para crianças com deficiência. Até agora, as evidências sugerem que, apesar do risco aumentado de sofrer abusos, o acesso de crianças com deficiência à proteção é frequentemente problemático e o apoio em todas as fases do sistema de proteção infantil é, na melhor das hipóteses, inconsistente”, afirma Anita Franklin, pesquisadora principal do projeto e professora de Estudos da Infância da Universidade de Portsmouth.  

"As crianças com deficiência enfrentam um risco desproporcionalmente maior de abuso, incluindo ameaças emergentes de exploração sexual infantil. Isso torna esta revisão urgente e oportuna para ajudar a orientar os profissionais a identificar, ouvir e proteger mais efetivamente crianças deficientes em risco de abuso”, complementa Jane Hernon, professora de Serviço Social da Universidade de East Anglia. 

Enquanto a revisão científica não fica pronta, a médica do Einstein recomenda: estar sempre alerta a todos os sinais, ensinar sobre proteção do corpo e não subestimar a capacidade de entendimento de uma criança. “Não podemos menosprezar o ambiente, achar que quem conhece a criança vai cuidar porque sabemos que não é sempre assim. Nosso dever é garantir a segurança dessas crianças.”  

Todas as crianças, especialmente as que têm dificuldade de se comunicar, precisam ser ensinadas sobre proteção do próprio corpo desde muito pequenas. “Elas precisam saber os nomes das partes intimas e onde está cada uma delas, como protegê-las e quem pode ver ou tocar nelas. É importante que elas saibam reconhecer uma violência e serem ensinadas que não pode ter ameaça ou sedução por troca, que tocar no corpo de alguém sem consentimento não é brincadeira”, diz Ana Claudia. Este entendimento é valido para todos os tipos de violência e todos os tipos de deficiência.  

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a violência contra as crianças está classificada em seis principais tipos: 

  • Maus tratos: Envolvem violência física – incluindo punição –, sexual e psicológica, além da negligência de bebês, crianças e adolescentes por pais, cuidadores e outras figuras de autoridade. É mais frequente em casa, mas ocorre também em ambientes como escolas e orfanatos;
  • Bullying e cyber-bullying: Comportamento agressivo indesejado de outra criança ou grupo de crianças que não são irmãos nem têm um relacionamento amoroso com a vítima. Envolve danos físicos, psicológicos ou sociais repetidos e geralmente ocorre em escolas e outros ambientes onde as crianças se reúnem e online;
  • Violência juvenil: Está concentrada entre crianças e jovens adultos de 10 a 29 anos, ocorre mais frequentemente em ambientes comunitários entre conhecidos e estranhos, inclui bullying e agressão física com ou sem armas (como revólveres e facas) e pode envolver violência de gangues; 
  • Violência doméstica: Envolve violência física, sexual e emocional por familiar, parceiro íntimo ou ex-parceiro. Embora os homens também possam ser vítimas, a violência praticada pelo parceiro íntimo afeta desproporcionalmente as mulheres. Geralmente ocorre contra meninas em casamentos infantis e casamentos precoces e forçados. Entre adolescentes envolvidos romanticamente, mas solteiros, às vezes é chamada de “violência no namoro”;
  • Violência sexual: Inclui a tentativa ou conclusão de contato sexual não consensual e atos de natureza sexual que não envolvam contato (como voyeurismo ou assédio sexual); atos de tráfico sexual cometidos contra alguém que é incapaz de consentir ou recusar; e exploração online; 
  • Violência emocional ou psicológica: inclui a restrição dos movimentos de uma criança, difamação, ridicularização, ameaças e intimidação, discriminação, rejeição e outras formas não físicas de tratamento hostil.

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