No coração do continente, a 165 metros de altitude, existe uma cidade que sintetiza três séculos da expansão brasileira para o oeste. Cuiabá nasceu em 8 de abril de 1719 a partir de uma descoberta de ouro do bandeirante Pascoal Moreira Cabral, virou capital do Mato Grosso em 1818 e desde 1909 carrega o título de centro geodésico da América do Sul, calculado pelo Marechal Cândido Rondon. A Cidade Verde também lidera ano após ano o ranking das capitais mais quentes do Brasil, com máximas médias próximas dos 34°C e picos que ultrapassam os 40°C.
Como o ouro deu origem à capital mato-grossense
A história oficial começa às margens do rio Coxipó, onde os primeiros bandeirantes paulistas chegaram em busca de escravização indígena. Pascoal Moreira Cabral, natural de Sorocaba, viu sua expedição ser derrotada pelos índios coxiponés em 1718, mas encontrou ouro no caminho de volta. Em 8 de abril de 1719, ele assinou a ata de fundação no local conhecido como Forquilha, segundo registro da Biblioteca do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O ouro mudou a geografia do Brasil colonial. Em 1722, a descoberta de novas jazidas no córrego da Prainha por Miguel Sutil formou as chamadas Lavras do Sutil, consideradas uma das maiores fontes de ouro do país no século XVIII. Cuiabá foi elevada a vila em 1727 com o nome de Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, virou cidade em 1818 e capital da província em 1835.

O marco que faz de Cuiabá o centro da América do Sul
Em 1909, o Marechal Cândido Rondon determinou as coordenadas exatas do ponto central do continente: 15° 35′ 56″ de latitude sul e 56° 06′ 05″ de longitude oeste. O cálculo deu à cidade um título único entre as capitais brasileiras. O ponto foi contestado ao longo do século XX, mas o Exército Brasileiro confirmou os cálculos do marechal, conforme registra o iPatrimônio.
O Marco Simbólico do Centro Geodésico foi erguido no mesmo ano de 1909 pelo artesão Júlio Caetano, na atual Praça Pascoal Moreira Cabral. Anos depois, um obelisco de cerca de 20 metros foi construído sobre o marco original. A estrutura foi tombada pela Secretaria de Estado de Cultura do Mato Grosso pela Portaria 045/2009 e virou um dos símbolos mais reproduzidos da cidade, estampando a bandeira de Cuiabá e o escudo do Cuiabá Esporte Clube.

Por que essa capital lidera o ranking das mais quentes do país
O calor é parte da identidade local. Em 2024, ano mais quente da história do Brasil, Cuiabá liderou o ranking das capitais com média de 37°C, segundo o projeto Brasil em Mapas a partir de dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). No domingo de 22 de setembro daquele ano, os termômetros chegaram a 43°C, conforme registrou a CNN Brasil com base nas medições oficiais.
O fenômeno tem explicação geográfica. A cidade fica em uma planície baixa, cercada pela Chapada dos Guimarães de um lado e pela planície pantaneira de outro, o que dificulta a circulação de ar fresco. Em pelo menos 35 dias de 2023, a capital ultrapassou os 40°C, todos no segundo semestre. As projeções do projeto Brasil em Mapas indicam que Cuiabá deve alcançar média de 38,8°C até 2030.

Leia também: A única capital do Nordeste a 366 km do mar foi a primeira do Brasil planejada como tabuleiro de xadrez
O que fazer em Cuiabá entre o calor e o patrimônio histórico
A capital mato-grossense funciona como base para explorar dois dos biomas mais ricos do país. As paradas mais procuradas combinam patrimônio urbano e ecoturismo a poucos quilômetros do centro:
- Marco do Centro Geodésico da América do Sul: o obelisco de 20 metros na Praça Pascoal Moreira Cabral marca o ponto central do continente determinado por Rondon em 1909.
- Parque Nacional da Chapada dos Guimarães: a 60 km do centro, abriga a Cachoeira Véu de Noiva, com 86 metros de queda, e os paredões de arenito que dão fama ao parque.
- Pantanal mato-grossense: a Transpantaneira começa a cerca de 100 km de Cuiabá e leva ao maior santuário de fauna do continente.
- Parque Mãe Bonifácia: 77 hectares de mata urbana no centro da cidade, batizado em homenagem a uma curandeira que liderava um quilombo no século XIX.
- Centro Histórico: ruas coloniais com a Catedral Basílica do Senhor Bom Jesus, o Museu de Arte Sacra e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, uma das mais antigas da cidade.
- Arena Pantanal: estádio construído para a Copa do Mundo de 2014, casa do Cuiabá Esporte Clube.
A culinária cuiabana mistura ingredientes da pesca pantaneira com técnicas indígenas e portuguesas. Estes são os pratos imperdíveis:
- Pacu assado e pintado na brasa: peixes do rio Cuiabá servidos em quase todos os restaurantes regionais.
- Arroz Maria Isabel: arroz preparado com carne-seca desfiada, prato típico das fazendas mato-grossenses.
- Mojica de pintado: caldo grosso de peixe com mandioca, herança das comunidades ribeirinhas.
- Farofa de banana: acompanhamento clássico servido com peixes assados em folha de bananeira.
- Furrundu: doce típico feito de mamão verde com rapadura e cravo, sobremesa tradicional cuiabana.
Quem deseja conhecer os encantos e a história da capital mato-grossense, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Viajantes de Estação em Estação • S2Station, que conta com mais de 50 mil visualizações, onde Igor e Alan mostram 15 pontos turísticos imperdíveis em Cuiabá, Mato Grosso:
Quando o clima ajuda a aproveitar a Cidade Verde
A capital tem duas estações bem marcadas: a chuvosa, entre outubro e março, e a seca, entre abril e setembro. O calor é constante o ano inteiro, mas a melhor janela para conhecer Cuiabá e a Chapada coincide com o inverno seco e ensolarado:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Conheça a cidade que está no centro de tudo
Cuiabá é a única capital brasileira que carrega ao mesmo tempo a herança do ciclo do ouro, um marco geodésico de mais de um século e a fama de termômetro nacional. A poucos quilômetros do centro, a Chapada dos Guimarães e o Pantanal completam um pacote raro de encontrar em uma única viagem.
Você precisa pisar no marco da Praça Pascoal Moreira Cabral, sentir o calor do meio-dia mato-grossense e atravessar a serra até a Cachoeira Véu de Noiva para entender por que essa cidade está no centro geográfico e simbólico da América do Sul.




