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Luiz Azevedo

Luiz Azevedo é autor, pedagogo e mestre em Sociologia pela UFSC, com trajetória no serviço público e no movimento sindical. Foi dirigente da CUT, deputado estadual em São Paulo e ocupou cargos estratégicos nos governos Lula e Dilma. Atualmente é consultor e sócio da Veredas Inteligência Estratégica.

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Irã, Sartre, Habermas e Araújo

A pergunta que a filosofia continua fazendo não é apenas "quem tem razão?", mas "quem você escolhe ser diante do conflito?".

Morre Jürgen Habermas, um dos maiores filósofos do século XX (Foto: REUTERS/Odd Andersen/Pool/File)

O falecimento de Jürgen Habermas, em 14, e a publicação do artigo de Washington Araújo, em 15, ambos em março de 2026, recolocam a filosofia existencialista no centro do debate sobre o massacre que Israel e EUA fizeram contra os palestinos e os ataques que desferiram contra o Irã, ao assassinar o principal líder do país e sua família. Por certo, uma reação à altura era esperada dos persas e não poderia ser diferente.

Ambos exigem que alguma racionalidade pública seja colocada no centro do debate e das decisões em tempos de guerra. O desafio é como encontrar alguma racionalidade em decisões marcadas por objetivos que divagam da busca por apoio popular, em uma crise interna sem precedentes nos EUA, às pretensões israelenses de domínio imperial em todo o mundo árabe. Como acentua Sartre, trata-se de escolhas que devem ser assumidas. Mas que opção teria o Irã quando o líder supremo Ali Khamenei e sua família foram mortos em um ataque coordenado por Israel e pelos EUA em 28 de fevereiro de 2026?

Washington Araújo, ao dialogar com a provocação de Slavoj Žižek, nos conduz ao coração de um conflito que, embora se manifeste em drones e estatísticas, está marcado por batalhas travadas no campo das ideias e ideologias. Enquanto Habermas buscava a clareza do entendimento e Žižek o limite do paradoxo, a filosofia de Jean-Paul Sartre nos oferece a terceira via necessária: a via da responsabilidade radical.

Habermas acreditava na política como o espaço onde argumentos competem sem coerção. Sartre, no entanto, olharia para o cenário atual — de Washington a Teerã — e veria o que chamou de "má-fé" (mauvaise foi). Quando líderes citam Kant ou Heidegger para justificar o lançamento de mísseis, eles ocultam o essencial: sua liberdade de escolha está orientada por interesses geopolíticos e econômicos que não confessam.

Para o existencialismo, a erudição não é um escudo ético. Como bem nota Araújo, um dirigente pode ler a Crítica da Razão Prática e ainda assim operar uma engrenagem autoritária. Para Sartre, isso ocorre porque o ser humano é "o que ele faz". Se um intelectual utiliza a filosofia para organizar a violência, ele escolheu essa violência. O saber não ilumina a consciência por osmose; ele é uma ferramenta empunhada por um sujeito que, a cada instante, decide o que o mundo deve ser, na maioria das vezes, como é o caso, segundo seus interesses e em determinadas circunstâncias.

O artigo de Araújo recupera a lição de Hannah Arendt sobre Eichmann para desmascarar o esconderijo moral do dever. Sartre levaria essa crítica ao limite existencial: não há ordens que nos desobriguem da escolha. O presidente dos EUA e o primeiro-ministro de Israel fizeram suas escolhas, e ao líder supremo do Irã não restou outra alternativa senão responder à altura.

No front, o soldado que diz "apenas cumpri ordens" ou o burocrata que afirma "fiz o que era necessário" está caindo no que Sartre define como a mentira de se tratar como uma "coisa" (en-soi), um objeto sem vontade. A existência precede a essência. Não nascemos para ser soldados ou generais; nós nos tornamos isso por meio de atos contínuos. O peso de responder pelos próprios atos, que a filosofia devolve ao indivíduo, é o que Sartre chama de "angústia". No caso, ao Benjamin Netanyahu e Trump escolherem a guerra, fizeram-no não apenas para si, mas envolveram grande parte da humanidade, com o risco de impor a toda a civilização humana mais um período de terror: a terceira guerra mundial.

Žižek e Araújo concordam que as guerras são batalhas por sentido. Sartre diria que o mundo não tem sentido inerente; ele é um vazio que nós preenchemos com nossos projetos. Quando a "razão pública" de Habermas se contrai sob o impacto dos mísseis, o que resta não é o silêncio, mas o grito da liberdade humana sendo mal utilizada.

A luta entre soberania, legitimidade e dever não é uma disputa entre conceitos abstratos em uma biblioteca, mas uma disputa entre projetos de mundo. Se a política perde o terreno onde deveria se justificar, é porque os sujeitos políticos desistiram de ser "para-si" (pour-soi) — seres conscientes e responsáveis — para se tornarem peças de uma engrenagem que eles mesmos criaram, mas da qual fingem ser vítimas.

A morte de Habermas nos deixa órfãos de um mestre da deliberação, quarenta e seis anos após termos perdido Sartre, que nos lembraria que, mesmo no silêncio da comunicação rompida, a escolha permanece. A pergunta que a filosofia continua fazendo não é apenas "quem tem razão?", mas "quem você escolhe ser diante do conflito?".

Nenhuma potência militar ou aliança escapa da consciência pública porque, no final, a "consciência pública" nada mais é do que a soma das liberdades individuais que decidem consentir ou resistir. O conflito atual contra o Irã não é apenas uma geopolítica de mapas; é a manifestação trágica de homens que, dotados de inteligência e história, escolhem o massacre em vez da invenção de um novo sentido para a convivência.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.