Primeiras reflexões de Wilson Albuquerque sobre “A mais longa duração da juventude”
“A Mais Longa Duração da Juventude” bem poderia ser indicado para compor os estudos sobre memória urbana, política e afetiva do Recife
Caros leitores, compreendam a razão pela qual este colunista cede o lugar para um texto tão verdadeiro e belo. Acompanhem as próximas linhas. A palavra é de Wilson Albuquerque*:
São 318 páginas, iniciei a leitura do romance em 17/03. Mas já estou concluindo o sétimo capítulo. É uma leitura que me faz passear pelo território central do Recife, a cada esquina e bares citados, até onde li no sétimo capítulo, me faz entrar nessa história. Eu me sinto um personagem do livro. Pois também frequentei o Parque 13 de Maio de encontros e refúgio de muita gente. O Bar 13 de Maio também, bebi e petisquei o delicioso arrumadinho. O Bar Savoy de noitadas gigantescas e por onde passavam tantos amigos e amigas das noitadas. Quando são citadas as pensões, o romance me faz estar dentro dessa memória, quando habitei uma pensão na Rua Henrique Dias. Ao ser citada a Praça Chora Menino, me traz à lembrança o apartamento, quase " um aparelho", onde morei na Lins Petit com outros estudantes. Lá tivemos muitos movimentos, encontros que em 1979 desabrocharam no Congresso da UNE em Salvador.
“A Mais Longa Duração da Juventude” bem poderia ser indicado para compor os estudos sobre memória urbana, política e afetiva do Recife. A URB Recife tem um projeto sobre memória urbana do Recife. Penso que o romance poderia compor a biblioteca desse projeto. Mas eu ainda estou no sétimo capítulo, num total de um total de 27 capítulos. Gente, eu ainda nem cheguei ao bar Nova Portuguesa, que acho era o último das noitadas no centro do Recife. E todo esse passeio da memória está recheado de perigos, superação, clandestinidade, sonhos de uma juventude. Imaginem uma líder, comandante de apenas 18 anos, e os mais "idosos" entre 19, 20, 21 anos amando e sonhando por uma revolução que os libertasse de uma ditadura civil-militar já instalada e nos calcanhares da vibrante juventude. Nesse belo romance, o escritor Urariano Mota cita muitos personagens, protagonistas dessa história e eu fico a pensar quem seria cada um deles, já que são nomes de " guerra" ou fictícios. Quando eu concluir a leitura dos 27 capítulos, vou ter que marcar uma cerveja com o autor para saber alguns detalhes e pessoas que ficarão marcadas na minha mente.
São tantas passagens e um passeio na memória de um território do Recife que teve de tudo, até confrontos com agentes da ditadura civil - militar. Não tem como não ficar refletindo durante a leitura: "a crença em nossa imortalidade vem do conceito de atividade, pois se eu me conservo ativo ininterruptamente até a morte, a natureza vê - se obrigada a conceder-me uma nova forma de existência logo que o meu espírito não possa suportar mais a minha atual forma corpórea".
Um grito à rebeldia e à vida. E essa "vida lembra a intensidade de uma canção",' essa me levou para 1972 ao bairro de Casa Amarela, Recife, no apartamento dos compatriotas Ezequias ( trucidado até a morte na tortura), e a sua companheira Guilhermina, que anos depois faleceu num acidente de carro suspeito. Com Ezequias conheci a canção Mamy Blue.
Ele cantarolava e dizia que era a canção de lembrança de Odijas Carvalho, que havia sido assassinado por torturas cruéis em 1971. Portanto, compatriota Urariano, obrigado pela oportunidade de estar lendo esse belo livro. Existem páginas em que paro, reflito e depois volto à leitura. Este é o caso de “A Mais Longa Duração da Juventude”. Gente, logo na primeira página já me emocionei ao ver a dedicatória a Marco Albertim, o nosso querido Marcão, que deixou tantas saudades. Estou lendo, mas já recomendo a leitura para outras pessoas.
Esta leitura do romance “A Mais Longa Duração da Juventude” me faz pensar na crueldade que fizeram com a juventude. Como foi que generais, em sua maioria já eram pais e avós, foram tão perversos na repressão contra a melhor juventude do Brasil na segunda metade do século XX até os anos 26 do século XXI? Generais avós que foram incapazes de compreender os sonhos dessa juventude. Jogaram duros para massacrar com os sonhos de uma juventude que amou o Brasil e deu os seus anos juvenis e a própria vida por amor ao Brasil.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



