Cultura do cancelamento é apontada por Wilson Gomes como violência política que enfraquece o debate democrático
O cancelamento foi descrito como uma forma de violência política pelo professor Wilson Gomes, titular da Universidade Federal da Bahia (UFBA)
247 - O cancelamento, fenômeno amplificado pelas redes sociais e muitas vezes confundido com cobrança legítima por responsabilidade, foi descrito como uma forma de violência política pelo professor Wilson Gomes, titular da Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Filosofia e autor de “Transformações da Política na Era Digital”. A análise foi publicada originalmente em sua coluna na Folha de S.Paulo, em 23 de dezembro de 2025.
No artigo, Gomes afirma que “cancelamento não é militância, crítica ou modo de chamar à responsabilidade quem supostamente cometeu um erro”, mas sim “forma de violência política”. Ele argumenta que essa prática combina elementos de bullying, linchamento moral e difamação, sempre sustentada pela convicção de superioridade moral por parte de quem a pratica.
Segundo ele, o cancelamento não confronta ideias, mas atinge diretamente indivíduos. Assim como no bullying, busca humilhar; como no linchamento, alimenta-se da emoção coletiva da multidão; e, como na difamação, age para destruir reputações, redes profissionais e vínculos afetivos. Por isso, o professor classifica o fenômeno como “sádico” e “covarde”, um ataque que opera em bando e extrai prazer da degradação pública.
Um dos argumentos centrais de Gomes é que o cancelamento funciona, sobretudo, como violência intragrupal — especialmente dentro do campo progressista. Enquanto ataques a adversários externos produzem pouco efeito político, dissidentes internos — os que erram, divergem ou apresentam nuances mal interpretadas — podem perder sustento, pertencimento e estabilidade emocional.
Gomes compara a dinâmica com práticas observadas na direita, que também utiliza linchamentos simbólicos e difamação. Porém, segundo o professor, esses ataques são usualmente direcionados a oponentes ideológicos, e não a membros do próprio grupo. No progressismo, ao contrário, a punição tende a se voltar contra aliados, configurando o que ele descreve como “pedagogia do medo”, destinada a impor disciplina e ortodoxia discursiva.
Essa cultura de vigilância, escreve o autor, contribui para consolidar uma lógica de pureza moral, na qual qualquer desvio, hesitação ou nuance pode ser castigado. Como consequência, instala-se uma ampla autocensura: pessoas deixam de emitir opiniões não por concordarem com o consenso, mas porque avaliam que o custo social da discordância é alto demais.
Para Gomes, esse estreitamento do espaço público torna certos temas impronunciáveis, transforma perguntas em suspeitas e congela posições divergentes sob o rótulo de imoralidade. O resultado é um ambiente intelectual empobrecido, onde ideias não são testadas, diagnósticos não são revisados e a política se converte em reafirmação identitária.
As implicações desse processo, argumenta o professor, atingem diretamente a democracia. O cancelamento normaliza punições sem qualquer forma de processo, incentiva comportamentos autoritários e treina disposições sociais voltadas à criminalização informal do dissenso. Minimizar o fenômeno, conclui Gomes, é abdicar da responsabilidade democrática diante de “uma prática cruel, covarde e autodestrutiva — para as pessoas que ela esmaga, para o campo progressista que ela devora e para a democracia que ela corrói”.
Recentemente, as Editoras Contracorrente e 247 lançaram o livro Crítica do Cancelamento, do professor Alysson Mascaro, que foi vítima deste processo. Compre, neste link, o livro de Mascaro.

