Tragédias de Jessica e PC impõem responsabilidade nas redes, mas sem censura
Os velhos meios monopolistas em crise no seu modelo de negócios querem submeter as plataformas a um cabresto e, por meio deste, eliminar a pluralidade nas redes
A morte por suicídio do youtuber PC Siqueira expõe o clímax de uma tragédia. Desde 2020, o influenciador era perseguido nas redes, em plataformas de comunicação, por acusações falsas de pedofilia que lhe causaram um inferno emocional logo agravado por problemas financeiros.
PC Siqueira foi investigado pela polícia, que concluiu por sua inocência, mas o tormento não cessou. "Notícias", compartilhamentos, comentários torturantes destroem a imagem pública e a intimidade de quem, como ele; se viu sugado pelo redemoinho de falsidades e lançado a uma nova celebridade, agora criminosa.
Deprimido, ele já havia tentado se suicidar ao menos uma vez antes deste episódio definitivo.
Cinco dias antes do desfecho de Siqueira, foi Jessica Vitoria, de 22 anos, quem se matou em função da difusão, pela página de fofocas Choquei, de uma informação falsa sobre um romance, inexistente, com o influenciador e humorista Whindersson Nunes.
Jessica desmentiu as falsas informações, Whindersson também. Isso não impediu, contudo, que ela fosse submetida a uma avalanche de comentários, críticas e ameaças multiplicadas e compartilhadas em aplicativos e redes sociais.
Dias antes do suicídio, ocorrido em 22 de dezembro, a mãe de Jéssica apelara de público que se interrompessem essas publicações, sem sucesso.
Os episódios suscitaram clamores para culpar plataformas e aplicativos pelos conteúdos que circulam entre seus usuários. As acusações atingiram não apenas os autores da desinformação, mas deram relevo especificamente à responsabilidade dos aplicativos por impulsionar conteúdos falsos e caluniosos.
O caso deve ensejar sério exame e debate por parte da sociedade. É preciso aprofundar quais providências seria adequado adotar para restringir as chances de episódios como esse se disseminarem sem limite.
O tema,intrincado, ganha mais complexidade porque o combate aos excessos potencialmente impactaria outras áreas só aparentemente não relacionadas, como o direito à liberdade de comunicação. Eventualmente isso pode acarretar restrições ao acesso da sociedade à livre pluralidade de difusão de informações.
Impor amplo controle sobre os conteúdos que circulam nas redes pode ensejar o controle político sobre as informações e enfoques que, com o advento das plataformas, tiveram espaço para circular de forma nunca vista.
Há veículos interessados em usar eventos traumáticos como os de Jessica e PC Siqueira para avançar uma agenda que, por meio da censura às plataformas, não apenas as enfraqueça como as façam inviabilizar as fontes de informação independentes que hoje disputam de forma inédita o estratégico controle da informação.
Os velhos meios monopolistas em crise no seu modelo de negócios querem submeter as plataformas a um cabresto e, por meio deste, eliminar a pluralidade nas redes. Têm nostalgia de uma época em que gozavam do monopólio sobre os fatos e versões. Vale recordar que esses mesmos meios, antes do surgimento das plataformas, foram pioneiros na criação de escândalos com notícias falsas arruinando a vida de pessoas, instituições e governos.
Quem não se lembra do espetáculo de manipulação informativa montado pela TV Globo em torno do episódio da Escola Base, responsável por arruinar a vida de inocentes? Ou o da publicação pela Folha de S.Paulo de uma ficha falsa da ex-presidenta Dilma Rousseff incriminando-a com atividades terroristas. O jornal até hoje não admitiu com clareza a falsidade cometida.
Isso para não falar das falsidades que deram impulso ao mensalão, à Lava-Jato e ao golpe contra Dilma Rousseff.
Providências censórias e discriminatórias, além de serem em geral inócuas, embutem interesses dos velhos meios nostálgicos do monopólio absoluto da informação.
Existem no Brasil leis contra a calúnia, injúria e difamação. Há restrições legais ao incentivo ao crime. Estatutos protegem crianças e adolescentes de exposição pública. Ao arrepio da Constituição, juízes têm imposto censura e aplicado multas vultosas contra o direito à informação, à opinião e à crítica. Exemplo disso são aa graves decisões judiciais visando calar o jornalista Breno Altman, diretor do site Opera Mundi, em sua cruzada para desmascarar o genocídio na Palestina provocado pelo racismo sionista.
A internet precisa sim de mais responsabilidade por todos que se utilizam dela, mas nunca de censura.
