Piratas do Planalto

(Foto: Alex Solnik)


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Este foi o ano em que piratas do Planalto tentaram dar um golpe parlamentar disfarçado de impeachment.

O objetivo era claro: derrubar o governo para dar um novo rumo às investigações da Polícia Federal e à Operação Lava Jato na qual grande parte dos piratas está implicada.

Aproveitando-se de uma base governista frouxa e desnorteada, o plano consistia em atravessar o ano fazendo todo o possível para não deixar o governo governar, enfraquecê-lo e então dar-lhe a punhalada final com a aprovação do impeachment.

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O maior interessado em tomar o poder de Dilma foi, desde o início o presidente da Câmara Eduardo Cunha, atolado no pântano da Lava Jato. Foi o primeiro a trair a aliança do seu partido com o governo que acabava de assumir, um mês depois das eleições.

Convencido de que a Operação Lava Jato obedecia a ordens do Planalto, o que não condizia com a realidade, ele pintou-se para a guerra tendo por divisa "destruir o governo antes que ele me destrua".

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O plano teve um início promissor, apoiado no fato de que grande parte dos deputados, pendurada em processos no STF precisava da ajuda de alguém e, como o governo não podia atender a todos, Cunha se prestou ao papel. "Vocês me ajudam e eu ajudo vocês".

Obstinado, audacioso, belicoso empenhou-se em dilapidar a base do governo, derrotando-o seguidamente nas votações mais delicadas, não importando se as consequências fossem nefastas para o país como um todo. Importava destruir o país, deixar o governo no chão.

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Cunha contou com a inestimável colaboração de Aécio Neves. Ele foi o primeiro a pedir o impeachment da presidente que mal assumira o segundo mandato, ignorando até mesmo as regras do jogo que não permitem processar o presidente a não ser pelo mandato que vigora. E como alguém pode ter cometido crime de responsabilidade em apenas alguns dias no poder?

Indiferentes a esses detalhes, Cunha e Aécio, cada um com a sua respectiva tropa obtiveram vitórias cujo efeito ajudou a paralisar a economia devido à incerteza acerca do futuro, rebaixar a nota do país e prometer o caos.

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Também embarcaram no navio pirata três personagens arrebanhados por Aécio: um ex-procurador da Justiça de 93 anos, há muito tempo aposentado e cujo principal feito foi, nos anos 70, processar o Esquadrão da Morte de São Paulo, chamado Hélio Bicudo, desafeto de Lula e do PT; um advogado de perfil tucano chamado Miguel Reale Jr., portanto anti-petista de carteirinha e uma novata chamada Janaína Pascoal, sem história na advocacia brasileira, que em debates costuma justificar o impeachment com o fato de a presidente ter sido presidente do conselho da Petrobrás, como todo mundo viu no mais recente Roda Viva, da TV Cultura.

Tanto os juristas não tinham elementos concretos para sustentar o pedido que refizeram o primeiro documento sob orientação – pasmem – do próprio Cunha que parece ter mais conhecimento jurídico que eles. Por isso mesmo ele sabia que não havia fundamento jurídico, mas era o único pedido assinado por duas grifes, o que era o seu trunfo, supunha ele. E blefou mais uma vez, dando o pontapé inicial no golpe cujo biombo era o impeachment.

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Quando o governo parecia já estar de joelhos e a vitória dos piratas se desenhava no horizonte saiu da moita do Jaburu o vice-presidente da República. Ele que fora eleito com os votos da presidente e jurou governar com ela esqueceu-se da lealdade que lhe devia e surgiu como o improvável construtor de uma "ponte para o futuro" que na verdade escondia um trampolim de onde a presidente seria jogada ao mar.

Serra, também embarcado com os piratas, terminou o ano melancolicamente, à direita da ruralista Kátia Abreu. Melhor assim. Quando ficaram cara a cara sobrou para ele.

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O golpe afundou porque seu principal interessado, mentor e motor foi desmascarado pelos fatos, pela opinião pública, por Rodrigo Janot e pelo Supremo Tribunal Federal, apesar das infelizes participações dos ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes, derrotados na sua pretensão de facilitar a vida dos golpistas.

Não há mal que sempre dure. Durou um ano.

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