Nesta terça-feira, as ruas de várias cidades do País foram tomadas por milhares de pessoas – não para comemorar a classificação do Brasil sobre o Japão no dia anterior, mas para se manifestar contra a jornada de trabalho 6×1 que ainda persiste por aqui. Ironicamente, os próprios japoneses já a superaram: na região de Tóquio, avança uma transição para o modelo 4×3.
No Senado, para onde a proposta foi enviada após aprovação pela Câmara dos Deputados, o presidente da Casa, senador Davi Alcolumbre, do Amapá, segura a tramitação. O tema virou moeda de troca: aceno a grandes financiadores de campanha de outrora, de um lado; pressão sobre o governo, do outro.
O debate, que ganhou corpo na sociedade brasileira a partir da iniciativa de Rick Azevedo – ex-balconista de farmácia e hoje vereador pelo PSOL no Rio de Janeiro, idealizador do movimento VAT (Vida Além do Trabalho) -, também estimulou uma série de produções teóricas sobre o tema. Artigos circulam na imprensa, especialmente na não corporativa, e em publicações voltadas ao mundo do trabalho, aprofundando a discussão sob as óticas da militância, da academia, da gestão pública e da saúde.
Uma dessas iniciativas merece destaque especial. Há pouco menos de um mês, foi lançada em Santa Catarina a obra O fim da escala 6×1 e o futuro do trabalho no Brasil, organizada por Paulo Eccel, jurista, professor e ex-Superintendente do Ministério do Trabalho no Estado. O livro reúne textos de importantes pensadores comprometidos com a defesa de um mundo do trabalho decente.
Além do próprio Eccel – com o artigo Vida além do trabalho: por que o fim da escala 6×1 é um passo necessário para o Brasil -, contribuem o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho; a deputada Ana Paula Lima; Anna Julia Rodrigues, presidenta da CUT de Santa Catarina; Crystiane Leandro Peres, do DIEESE; Décio Lima, ex-presidente nacional do SEBRAE; advogados trabalhistas; Izaias Otaviano, liderança sindical do Estado; Luciana Teles Gomes, Procuradora do Ministério Público do Trabalho; e Mateus Graosque Mendes, presidente da CTTB catarinense.
Merecem destaque dois textos em particular. O do médico do trabalho Roberto Ruiz, escrito com vários colaboradores, que oferece uma abordagem rigorosa sobre os impactos da jornada na saúde dos trabalhadores. Já o de Vanessa Brasil, militante feminista e coordenadora do VAT em Santa Catarina, lança um verdadeiro manifesto contra o tempo roubado de trabalhadores e trabalhadoras.
Outros sindicalistas, sociólogos e advogados também emprestam sua voz a esta obra que, como bem dizem os organizadores na quarta capa, “reúne reflexões sobre um dos debates mais urgentes do nosso tempo: o equilíbrio entre trabalho e vida.” A conclusão aponta que a “escala 6×1, ainda presente na rotina de milhões de brasileiros, expõe os limites de um modelo que já não responde às necessidades da sociedade contemporânea” – um debate que resume, no fundo, o tipo de país e de sociedade que queremos deixar para as gerações de hoje e de amanhã.
Vale, sem dúvida, a leitura.
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