Opinião

A crise da masculinidade

“Não é fácil para um corpo construído para ser o centro do mundo, aprender a agir de igual para igual”, diz a colunista Márcia Tiburi

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A ideia de crise da masculinidade refere-se à perda do lugar habitual que homens têm na sociedade patriarcal. Esse lugar é o do privilégio organizado em um sistema no qual homens ocupam o centro. Nele, os homens não precisam dividir #poder e dinheiro com as mulheres, pois elas existem para eles. Simone de Beauvoir disse que os homens sempre tiveram um lugar essencial no patriarcado, enquanto as mulheres foram condenadas a um lugar inessencial. Escondidas e silenciadas, elas garantem que o mundo dos homens esteja em pé para eles. Em casa, a esperar maridos ou amantes, pais ou filhos, como empregadas não pagas, elas formam uma classe social em si mesma. Cozinhar, lavar e limpar, gestar, parir e cuidar, sem falar no trabalho sexual, são trabalhos naturalizados e garantidos pela ideologia de gênero que o patriarcado sempre foi. Além de tudo, com a constante cultural da violência, as mulheres devem estar sempre prontas a ser saco de pancadas das frustrações dos machos que, lá fora, regozijam-se em seus jogos de poder. 

No sistema de privilégios, não deve haver mulheres para atrapalhar o paraíso público onde machos brincam de ser machos na forma de espantalhos de si mesmos. 

Posicionadas a serviço dos homens, as mulheres não são ameaça. Se uma mulher questiona a violência sempre pode ser eliminada para parar de incomodar. 

Não é fácil para um corpo construído para ser o centro do mundo, aprender a agir de igual para igual. Não é fácil aprender a servir para quem nasceu sendo servido. 

O respeito à alteridade não faz parte da masculinidade tradicional. 

Deu-se o nome de masculinidade tóxica àquela que envenena os próprios portadores e o mundo ao seu redor. Dela faz parte a performance do macho limítrofe que é uma tecnologia política. Ela garante o show de horrores no espernear performático ao estilo de meninos mimados no congresso nacional diante de mulheres eleitas, na derrota eleitoral, mas também quando se mata uma mulher apenas porque, ofendido, um homem se sente no direito de matar. 

É preciso superar esse sistema se quisermos um mundo melhor para viver. E para isso os homens terão que analisar o ressentimento que os liga às mulheres hoje. 

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Cortes 247

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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