247 – A Polícia Federal concluiu que a compra e venda do imóvel utilizada pelo deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) para justificar os R$ 468 mil apreendidos em sua residência, em dezembro de 2025, não teve a origem dos recursos devidamente comprovada. A corporação identificou “inconsistências financeiras” e “ausência de lastro bancário” na operação imobiliária apresentada pelo parlamentar.
As conclusões constam da representação da PF que embasou a terceira fase da Operação Rent a Car, deflagrada nesta quarta-feira (1º) com autorização do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). A nova etapa da investigação teve como alvo pessoas e empresas ligadas ao líder do PL na Câmara dos Deputados, incluindo o advogado Thiago Ferreira de Paula e seu escritório.
De acordo com a Polícia Federal, a análise de quebras de sigilo bancário e de relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelou que não há comprovação da origem dos recursos utilizados na transação imobiliária. Além disso, os investigadores identificaram “movimentações incompatíveis com a renda ostensiva do suposto comprador”.
A residência do advogado Thiago Ferreira de Paula havia sido apontada por Sóstenes como a origem do dinheiro em espécie encontrado durante a operação realizada no fim do ano passado.
Escritura foi registrada após apreensão do dinheiro
A investigação também destaca uma sequência temporal considerada suspeita pelos investigadores. A escritura pública da venda do imóvel localizado em Ituiutaba (MG) foi registrada apenas em 30 de dezembro de 2025, onze dias depois de a Polícia Federal apreender os R$ 468 mil, em 19 de dezembro.
Na avaliação da corporação, o documento cartorial faz “referência a um suposto ajuste pretérito, segundo o qual o pagamento em espécie teria ocorrido em 24/11/2025”. Para a PF, o registro posterior indica que “os interessados somente levaram a registro cartorário após a apreensão do numerário, uma narrativa documental destinada a conferir lastro formal a uma alegada transação pretérita”.
Os investigadores também afirmam que o relatório do Coaf não identificou saques compatíveis com a data informada para a compra do imóvel. Segundo a PF, o órgão registrou expressamente que “não foi identificado saque de valores contemporâneos à data da compra, por parte de Thiago de Paula”.
Ainda de acordo com a investigação, a análise financeira apontou um padrão considerado incompatível com a renda declarada do advogado. Conforme reproduzido pela Polícia Federal, o Coaf concluiu que “o total movimentado a crédito representa cerca de 17,76 vezes o valor da renda cadastrada”, superando em aproximadamente R$ 608,7 mil a capacidade financeira declarada, além de destacar que não foram apresentados documentos capazes de justificar as movimentações bancárias.
Nova fase da Operação Rent a Car
A operação desta quarta-feira representa a terceira fase da Operação Rent a Car, que apura suspeitas de desvios de recursos públicos provenientes da cota parlamentar da Câmara dos Deputados.
Na ação, foram cumpridos cinco mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, em Goiás e em Minas Gerais. Segundo a Polícia Federal, foram apreendidos aproximadamente R$ 160 mil e US$ 502 em espécie, além de celulares, um notebook e relógios de luxo.
Em dois dos endereços alvos da operação no Distrito Federal, os investigadores encontraram dinheiro escondido dentro de livros falsos.
A atual etapa busca aprofundar as investigações sobre a movimentação e a destinação dos recursos supostamente desviados por meio da cota parlamentar. Os investigadores apuram possíveis crimes de peculato, lavagem de dinheiro, fraude processual e organização criminosa.
A cota parlamentar é destinada ao custeio de despesas relacionadas ao exercício do mandato, como aluguel de escritório, passagens aéreas e locação de veículos. Segundo a investigação iniciada no ano passado, uma empresa de locação de automóveis contratada por parlamentares continuou recebendo recursos da cota mesmo após ter sido dissolvida de forma irregular.
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