Opinião

Brasil na mira: a ofensiva digital de Trump contra as democracias latino-americanas

“A democracia brasileira, apesar de suas fragilidades, tornou-se a principal barreira para a consolidação de um novo projeto autoritário e fascista na América Latina”

Brasil na mira: a ofensiva digital de Trump contra as democracias latino-americanas
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Nova extrema direita ligada ao presidente dos EUA utiliza uma combinação de poder tecnológico, financeiro, ideológico e geopolítico para interferir nas democracias latino-americanas, tendo o Brasil como seu principal alvo nas eleições de 2026

A declaração de Trump de que a eleição do Brasil é o seu próximo desafio na recente rodada de eleições na América Latina coloca enormes responsabilidades para todos os nossos povos e, em especial, para nós, brasileiros.

Mais do que a influência política tradicional, o que se observa é a construção de uma intervenção imperialista da extrema direita americana, em que a desregulação, a vigilância por IA e a disputa de narrativas contra os candidatos e políticos que defendem a democracia e a soberania dos Estados nacionais foram elevadas a outro patamar.

Sob pretexto de combate à influência geopolítica da China, a intervenção direta das plataformas, data centers, think tanks e softwares de inteligência, chantagem financeira e diplomacia hostil, além de todos os demais e conhecidos meios de manipulação de pesquisas e controle das mídias, novos métodos são usados para remodelar e desarticular democracias frágeis e para criar uma extensão dos interesses dos conglomerados americanos na América Latina.

A atuação das IAs, como Anthropic e Grok, e de think tanks americanos como a Heritage Foundation, regada a bilhões de dólares de aliados de Trump, como o bilionário Peter Thiel, e pelo próprio governo Trump, configura uma nova e sofisticada intervenção política na América Latina.

Depois da onda expansionista das “missões evangelistas” promovidas por “bispos businessmen” nas periferias das nossas cidades, propalando a “teologia do enriquecimento”, o culto ao negacionismo e ao ódio; e da ocupação das rádios AM e FM, dos programas de televisão, das concessões de canais de TV a cabo, do recrutamento de militares do Exército e das polícias por movimentos evangélicos afiliados a organizações religiosas americanas, da organizada invasão de candidaturas de missionários e pastores e seus partidos na política e nos Congressos de deputados, regados a desvios bilionários de dízimos, extraídos em cultos de fanatismo e manipulação política da boa-fé do povo, espalhando o medo e o terror demoníaco contra a ciência, a educação pública e o trabalho honesto, assistimos à ocupação das redes sociais por milhões e milhões de postagens falsas, mentirosas, sediciosas, manipuladoras e mobilizadoras do que há de mais reacionário no espírito antissocial.

O desembarque dos “Profetas” da desregulação

O movimento mais evidente dessa nova geopolítica é a aproximação entre o bilionário da tecnologia Peter Thiel e o governo de Javier Milei na Argentina. Cofundador do PayPal e da Palantir Technologies — empresa especializada em mineração de dados e vigilância em massa —, Thiel não é apenas um investidor: ele é um ideólogo e interventor, que há muito declarou que “não acredita mais que a liberdade e a democracia sejam compatíveis”. Sua mudança temporária para Buenos Aires e a compra de uma mansão na capital argentina transcendem o gesto simbólico.

Para Thiel, a Argentina se tornou um “porto seguro”, uma nova “Israel”, um laboratório prático para suas ideias fascistas travestidas de anarcocapitalistas. A conexão ideológica com Milei é imediata: “É um anarcocapitalista que encontra outro anarcocapitalista disposto a levar suas ideias à prática”, celebrou o presidente argentino.

O fascismo com nova roupagem, o “anarcocapitalismo”, mais atraente para os desiludidos e despossuídos, sob a bandeira da plena “liberdade individual”, busca destruir tudo o que é público, tudo o que é conquista social, todas as proteções e direitos conquistados pelos cidadãos. Seus defensores abertamente se declaram inimigos dos direitos humanos.

Nada é mais capitalista e radicalmente pró-sistema do que os fascistas autoproclamados “anarcocapitalistas”.

Essa aliança já produziu frutos concretos, como o anúncio do governo de criar um regime jurídico para “sociedades automatizadas” — empresas geridas inteiramente por inteligência artificial, sem funcionários humanos —, além do programa “Gêmeo Digital Social”, uma plataforma de IA que integrará dados pessoais de cidadãos, incluindo participação em protestos.

A presença da Palantir na região e o potencial de contratos com o Estado argentino acendem alertas. A empresa, que fornece software como o Gotham para agências como a CIA e o FBI, permite cruzar bancos de dados de forma a criar perfis de inteligência detalhados. A Argentina se tornou um “espaço de experimentação” para um modelo de vigilância estatal, sob controle privado estrangeiro, que corrói as liberdades civis, exatamente o oposto do que eles dizem ser: “defensores da liberdade individual ou privada”. Na prática, submetem todos ao poder das grandes corporações financeiras, bélicas e digitais dos EUA.

“Se o Estado argentino decidir firmar contratos com a Palantir para vigilância em massa e análise preditiva, estaremos claramente diante de uma situação de deterioração da democracia”, alertava o especialista Sebastián Di Domenica. Isso já aconteceu!

A ofensiva ideológica e financeira do “Project 2025” e a guerra híbrida

Enquanto Thiel atua no campo privado e ideológico, o governo Trump e seus think tanks aliados operam em uma frente governamental e geopolítica, com a América Latina como peça central. O Project 2025, o manual de políticas da Heritage Foundation que guia o segundo mandato de Trump, revela uma estratégia clara de intervenção.

O documento enquadra a América Latina como um campo de batalha crucial na disputa contra a China. Para os conservadores americanos, o avanço chinês na região, via compras, investimentos e empréstimos, é uma ameaça direta à segurança nacional dos EUA.

A resposta proposta não é apenas diplomática, mas uma ofensiva para desestabilizar governos considerados hostis. O Project 2025 defende abertamente que os EUA devem “investir em atores locais para desestabilizar governos de esquerda”.

Os instrumentos para isso são a USAID, think tanks “pró-livre mercado” e universidades. A pauta é clara e alinhada com a agenda conservadora: promover reformas trabalhistas e previdenciárias que reduzam direitos e desregulamentar a economia.

Isso se traduz em apoio a forças políticas locais que defendem o livre mercado e a austeridade, como o próprio Milei, e na criação de uma infraestrutura ideológica que legitime a retirada de direitos como um caminho para a “estabilidade”.

Essa interferência se soma ao histórico documentado de ações do Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) na região, desde o apoio a golpes militares até a atuação no lawfare contra governos progressistas, como na Operação Lava Jato no Brasil.

A atual administração Trump, com sua agenda “America First” e forte conexão ideológica com o bolsonarismo, promove uma nova ofensiva para proteger aliados e enfraquecer instituições que resistem a essa agenda, como o Supremo Tribunal Federal brasileiro.

Máquina de desinformação: IAs e a criação de bolhas

Paralelamente à atuação de think tanks e bilionários, a inteligência artificial generativa tornou-se uma ferramenta poderosa para manipular o debate público e a própria democracia na América Latina.

O salto de 300% nos casos de conteúdos falsos gerados por IA no Brasil entre 2024 e 2025, conforme dados do Observatório Lupa, é um sinal inequívoco de que a tecnologia está sendo usada de forma estratégica e política.

Ferramentas de IA, como a Anthropic e a Grok, embora em tese neutras, operam em um ecossistema em que as Big Techs, com estreitos laços com o governo Trump e a extrema direita americana, têm demonstrado resistência à regulação e à moderação de conteúdo.

Isso cria um ambiente fértil para a disseminação de deepfakes e notícias falsas, capazes de criar bolhas de desinformação que distorcem a percepção da realidade e influenciam o voto de eleitores.

A preocupação é tamanha que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do Brasil alertou para os riscos de manipulação eleitoral com o avanço da IA e a disseminação de “mentiras tecnicamente otimizadas”.

A conjunção desses fatores — a chegada de ideólogos da vigilância, a pressão geopolítica dos EUA e o uso tático da desinformação por IA — cria uma tempestade perfeita.

As democracias latino-americanas, muitas vezes já frágeis e excludentes, tornam-se presa fácil para um projeto que não busca apenas influenciar eleições, mas redefinir o papel do Estado e o próprio conceito de liberdade, alinhando a região aos interesses de uma nova direita tecnológica e geopolítica, a serviço dos multimilionários dos EUA.

Para além da influência ideológica, a atuação da direita estadunidense na América Latina se estrutura por meio de métodos e recursos financeiros concretos, que corrompem os processos políticos da região no contexto da disputa geopolítica conduzida pelos grandes monopólios dos Estados Unidos.

A estratégia combina a atuação de think tanks, o uso de lobistas e um fluxo de capital privado e estatal, frequentemente opaco, para desmontar Estados e reorientar políticas.

Métodos e mecanismos de atuação

A ação é sistêmica e envolve múltiplas frentes, indo muito além do simples apoio eleitoral.

Plataforma ideológica e manual de ação:

O Project 2025, da Heritage Foundation, é o principal documento-guia. Com mais de 900 páginas, ele serve como um manual para desmontar o “Estado administrativo”, centralizar o poder no executivo e substituir servidores públicos de carreira por nomeações leais à agenda conservadora.

A Argentina de Javier Milei é citada como o primeiro “laboratório” vivo dessas políticas, onde cortes de 30% nos gastos públicos, a eliminação de ministérios (como o da Mulher e da Educação) e a venda de empresas estatais foram implementados rapidamente.

Conexões e lobbies diretos:

A transmissão do manual não é simbólica. O vice-presidente executivo da Heritage Foundation entregou pessoalmente uma cópia do Mandate for Leadership a Javier Milei.

Essa conexão é facilitada por lobistas, como Damián Merlo, da Latin America Advisory Group, que já atua em nome de líderes autoritários na região e intermediou o vínculo entre Milei e a Heritage Foundation.

Guerra híbrida e coerção econômica:

A estratégia transcende a política interna. A dissolução da USAID (Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional) é um movimento calculado para desarticular redes de solidariedade e ONGs progressistas, transferindo a influência para redes privadas.

Paralelamente, a imposição de tarifas punitivas de até 50% sobre produtos estratégicos de países como o Brasil serve como ferramenta de coerção geoeconômica, com o objetivo de desestabilizar governos que não se alinham com a agenda.

A avaliação precisa dos recursos financeiros mobilizados para a guerra híbrida é complexa devido à opacidade do sistema, mas é possível mapear suas principais fontes e magnitudes.

Capital privado de bilionários:

A atuação é financiada por uma constelação de bilionários e fundações, como Peter Thiel, Rebekah Mercer e Charles Koch. Eles utilizam suas fundações, super PACs (como o Club for Growth and Save America PAC) e empresas (como a Palantir, de Thiel) como instrumentos diretos de influência e “guerra híbrida”, muitas vezes com menos transparência do que a antiga atuação estatal.

Redirecionamento de fundos públicos:

O desmonte da USAID não significa o fim do financiamento, mas sim uma reconfiguração. Em vez de serem canalizados por agências estatais, os recursos e a influência são transferidos para “redes privadas de influência ligadas ao Vale do Silício, aos think tanks ultraconservadores e às corporações financeiras”.

Custos e impactos da implementação:

Os recursos “disponibilizados” para essa agenda também podem ser medidos pelos custos sociais e econômicos nos países-alvo. Na Argentina, em menos de um ano, os cortes de gastos geraram um aumento de 11 pontos percentuais na pobreza, enquanto o índice de ações (S&P Merval) batia recordes, evidenciando o caráter regressivo da medida e seus beneficiários diretos.

A atuação na América Latina não é um subproduto, mas um eixo central da estratégia da nova direita americana. Ela se vale de um arsenal de métodos que vão desde a captura ideológica por think tanks até a coerção econômica e a interferência direta em políticas domésticas. O financiamento para essa operação combina capital privado de bilionários, que veem na desregulação um nicho de lucro, com o redirecionamento de fundos estatais americanos, criando uma maquinaria de influência opaca e poderosa.

O resultado é a construção de uma nova arquitetura de poder na região, onde a soberania popular é submetida aos interesses de uma elite tecnológica e conservadora transnacional.

Brasil: o último baluarte da democracia na América Latina?

O cerco à democracia na América Latina se intensifica.

Uma a uma, as nações foram capturadas por uma ofensiva do que podemos chamar de Capitalismo Digital — uma aliança entre bilionários da tecnologia, think tanks conservadores americanos e títeres da extrema direita alinhados a Trump. Nesse contexto, o Brasil emerge como a última grande esperança de resistência, posição que torna o país o principal alvo da próxima ofensiva.

O avanço da direita fascista e radical é uma tendência inegável e documentada. Atualmente, governos de direita, em suas variadas formas, estão no poder em 12 dos 16 países da América Latina que realizaram eleições recentes. O que se vê é uma nova direita, muito distinta da liberal dos anos 2000.

Um novo perfil:

Essa direita é menos liberal e mais focada em guerras culturais, pautas de segurança e ataques a minorias. Seus líderes, como Javier Milei (Argentina), Nayib Bukele (El Salvador) e Abelardo de la Espriella (Colômbia), são admiradores declarados de Trump e adotam discursos personalistas, antissistema e de “lei e ordem”.

Casos concretos:

A vitória de De la Espriella na Colômbia, revertendo o governo de esquerda de Gustavo Petro, e de Keiko Fujimori no Peru, são exemplos recentes desse avanço.

Na Argentina, Milei se tornou o “laboratório” vivo das políticas ultraconservadoras, marcadas pela utilização do aparato repressivo contra a população que resiste à perda de direitos, por meio de cortes drásticos nos gastos públicos e de uma aliança explícita com Trump, o bilionário-interventor Peter Thiel e a Heritage Foundation.

O Brasil é o alvo central

A eleição de Lula em 2022 foi um freio nessa onda, mas o bolsonarismo, com apoio internacional, nunca deixou de atuar para retomar o poder. O segundo turno de 2022 representou a primeira grande derrota dessa ofensiva, mas a batalha está longe de acabar.

Pressão externa:

O governo Trump impõe desafios diretos ao Brasil para enfraquecer o governo Lula. Isso inclui tarifas protecionistas que afetam a indústria brasileira, a preferência por uma aliança com a Argentina em detrimento do Mercosul, e a nomeação de um secretário de Estado linha-dura, que já chamou Lula de “líder de extrema-esquerda”.

Resistência digital brasileira

Enquanto o Capital Digital avança, o Brasil não apenas resiste politicamente, mas também desenvolve respostas próprias no campo da tecnologia e da soberania digital, que são fundamentais para a luta.

Tecnopolíticas dissidentes:

Existe um debate ativo na academia e na sociedade civil sobre “tecnopolíticas dissidentes” que desafiam o controle algorítmico e a colonialidade digital. Eventos como o Simpósio Internacional da LAVITS (Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade) no Rio de Janeiro, em 2026, mostram que o Brasil é um polo de discussão sobre alternativas à hegemonia tecnológica.

Resistência algorítmica:

A produção artística e intelectual brasileira também se manifesta contra a captura digital. Exposições como ANTAGONISTAS: resistências algorítmicas, realizada no MAC USP, traçam uma linha histórica de resistência às tecnologias hegemônicas, desde os anos 1960 até projetos contemporâneos de vigilância algorítmica e valorização dos saberes indígenas, demonstrando que sempre houve outras formas de imaginar e construir o futuro tecnológico.

Alternativas concretas:

Coletivos como o MariaLab, o Núcleo de Tecnologia do MTST e as Señoritas Courier estão, na prática, construindo infraestruturas digitais autônomas e alternativas ao capitalismo de dados. Eles reconfiguram o campo tecnológico ao introduzir práticas de cuidado, segurança integral e soberania digital, disputando os rumos das tecnologias contemporâneas a partir do território e da cooperação.

O Brasil como fronteira

A democracia brasileira, apesar de suas fragilidades, tornou-se a principal barreira para a consolidação de um novo projeto autoritário e fascista na América Latina.

A derrota do bolsonarismo em 2022 não foi apenas uma vitória doméstica, mas um revés estratégico para um movimento que conta com o apoio explícito da extrema direita americana e de seus aliados bilionários no setor de tecnologia.

O cerco se fecha, e a eleição de 2026 será o campo de batalha decisivo.

De um lado, uma ofensiva orquestrada, com recursos financeiros e ideológicos gigantescos, que vê no Brasil a última peça a ser dominada. Do outro, o governo brasileiro e os defensores da democracia, que precisam não apenas resistir, mas também se reinventar, fortalecendo suas instituições, construindo alianças amplas, desenvolvendo alternativas tecnológicas autônomas e estabelecendo pontes com outros focos de resistência na região.

Texto publicado originalmente em Fundação Maurício Grabois 

Miguel Manso é pesquisador do Grupo de Pesquisa Desenvolvimento Nacional e Socialismo da Fundação Maurício Grabois. Engenheiro eletrônico formado pela USP, com especialização em Telecomunicações pela Unicamp e em Inteligência Artificial pela UFV. É diretor de Políticas Públicas da EngD – Engenharia pela Democracia.

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