Opinião

O nacional-entreguismo de Flávio Bolsonaro para Trump

Candidato da extrema direita se perde na contradição de querer o Palácio do Planalto para entregar à Casa Branca

Flávio Bolsonaro, o garçom de Trump
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Flávio Bolsonaro está perdido nas contradições de seu próprio discurso. Nitidamente, a onda verde-amarela que se ergue entre a população, em razão do desempenho da equipe nacional na Copa do Mundo, apanhou o candidato da extrema direita de surpresa. A mobilização em torno do símbolo nacional representado pela seleção de futebol tem impressionado pelo volume e pelo entusiasmo. Se havia dúvidas, está claro que os brasileiros continuam amando o Brasil.

O que poderia, em tese, ajudar Flávio e seu perfil fake de patriota está se voltando contra ele. O transe coletivo de nacionalismo está em alta justo quando Flávio mais pregava a subordinação dos interesses brasileiros aos desejos do governo de Donald Trump. Às pressas, o pré-candidato da extrema direita, que foi o primeiro a defender as penalizações comerciais impostas pelos EUA ao Brasil, tenta tornar-se, agora, um defensor do Pix. Não cola.

Inscrito à última hora, Flávio estará na audiência marcada pelo USTR, o Departamento de Comércio americano, para a próxima semana, na capital dos EUA, no contexto das investigações dos americanos sobre o Pix. Sua participação em defesa do sistema de pagamentos brasileiro será jogo de cena. Nos bastidores, como mostram as mensagens trocadas entre ele e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, Flávio já deu garantias de que o governo americano terá, com ele no poder, um Palácio do Planalto escancarado aos desígnios de Washington. Do próprio Pix à exploração das terras raras do país, com Flávio vai ser como os Estados Unidos quiserem que seja.

O verdadeiro fetiche de Flávio por Donald Trump não está ajudando em nada a sua candidatura neste momento. Todo aquele esforço para aparecer ao lado do presidente americano após a viagem oficial do presidente Lula, em maio, foi correspondido por uma série de retaliações econômicas do governo dos EUA contra o Brasil. Flávio promoveu, em seus contatos de bastidores com a cúpula trumpista, prejuízos às empresas e aos trabalhadores brasileiros. Não há como não atribuir ao incentivo de Flávio o retrocesso nas relações bilaterais entre os dois países.

O público está tomando ciência do paradoxo de Flávio Bolsonaro. Quem se diz nacionalista, como ele afirma ser, não pode, na mesma medida, também ser entreguista. Para Donald Trump, tanto faz como tanto fez. O senhor da guerra que preside os Estados Unidos já foi bolsonarista, recuou, retomou a parceria, aproximou-se de Lula e, agora, afasta-se do presidente brasileiro, reaproximando-se do radical de direita. Essa é, afinal, a sua praia preferida.

Trump é um franco-atirador com a arma apontada para diferentes alvos. O Brasil entra em suas prioridades em razão da proximidade da eleição. Ele está fazendo e irá tentar de tudo para interferir no jogo eleitoral. Até mesmo iniciativas para a transferência de recursos do governo americano para ONGs brasileiras em posição de influência política estão nos planos de ingerência imediata. Outra vez, no entanto, os disparos podem sair pela culatra. Quanto mais os EUA fustigarem o Brasil, menos Flávio terá argumentos para sustentar o nacionalismo que os bolsonaristas dizem apreciar. O filho de Jair está, por essa ótica, afastando-se rapidamente de suas bases, rumo ao isolamento.

Os esforços de Flávio pela interferência direta dos EUA sobre a eleição brasileira são muitos e muito claros.

O público não é burro. Todos sabemos que estamos elegendo o presidente do Brasil — e não o embaixador dos EUA no Brasil. Flávio está tonto em sua gangorra de idas e vindas ao colo do governo americano. Michelle Bolsonaro, que tem contribuído para os sobressaltos desse balanço, parece estar certa quando divulga que a candidatura do enteado está se esfarelando. O nacional-entreguismo que o 01 tenta construir é incoerente. Ou se está a favor do Brasil, ou a favor dos EUA. É desse muro que Flávio está caindo.

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