– Abaixa esse som, menino. Essa música é muito ruim!
– Não é menino, vô! É menina. Sou sua neta, a Olívia.
– Oi, Olívia, desculpe. Não imaginei que você gostasse desse tipo de música…sempre soube que você gostava de sertanejo.
– Quem gosta de sertanejo é a Paula, vô. Gosto de rock…e essa aqui é a sua banda tocando em Arembepe…lembra? 1969?
– Arembepe…? lembro vagamente, mas eu era muito jovem.
– Que bom, né vô. O som era maneiro.
O avô faz uma expressão de muxoxo, aliás, expressão bem antiga, e tenta diminuir o volume.
– Pode acordar seu irmãozinho..
– Qual deles?
– Qualquer um…são tantos netos, sei lá, o Fred.
– O Fred tá no Amazonas com a mamãe. Lembra?
O avô faz uma cara de quem não lembra?
– Pô, vô, tá ficando esquecido? Foi com a mãe no seminário da terra, lá na tribo onde ela trabalha.
– Ah, agora lembro…é que são tantos filhos que nem lembro… Quantos são mesmo?
– Sei lá vô. Meus tios?
Ela faz as contas.
– Tios homens são 7 e mulheres 4…Pô vô, quando é que você tocava? Só fazia filho…
– Também não lembro…sei que ia nascendo…
– Mas você sabe que pra engravidar tem que transar?
– Claro que sei, só não lembro. Devia ser bom…fiz tantos.
– O senhor está com a memória muito comprometida. Se drogou muito na juventude, vovô?
– Só coisa leve…agora na velhice é que tenho me entupido de drogas pesadas, remédios comprados na farmácia…tudo veneno. Tomo um para curar uma doença e acabo criando outra doença…
– Sei como é…melhor fazer acupuntura e tomar fitoterápicos…
– Fala baixo, menina. Não sabe com foram proibidos?
– Tá confundindo, vô. O canabidiol é que foi liberado, é isso.
– É essa música alta…coloca um Miles Davis ai pra acalmar.
– Miles Davis é maneiro também. Meio devagar mas dá a maior onda…uma coisa assim meio espiritual, meio louca.
– Menina, depois que eu passei um ano na Índia nada é mais espiritual que o som daquela cítara, a comida, o rio Ganges, aquela paisagem, os passarinhos…muito doido.
-Adoro quando você me conta essas histórias do seu tempo de roqueiro. Não sei como vocês viviam sem internet.
– Pois é, a gente vivia, escrevia cartas, a terra era redonda, o clima bem melhor, a comida mais saudável, o sexo…bem o sexo eu não me lembro.
– Tenho que ir para o curso de informática. vô. Deixo o som ligado?
– Deixa, deixa, mas coloca uma coisa suave…
– Sepultura?
– Mais suave…
– Gustav Mahler?
– Isso. Esse era bem doidão. Mas coloca baixo. O vizinho é milico é pode não gostar.
– O vizinho é pastor, vô. Milico era o anterior…foi embora antes de eu nascer.
– Sei lá, é tudo igual… Dá um beijo aqui no vô.
Ela se aproxima do rosto do avô.
– Afasta essa juba…Dou em cima da tatuagem do Che Guevara?
– Não é o Che, é Jesus, minha neta. Não reconhece?
– É tudo igual.
Ela sai e deixa o avô, velho roqueiro, protagonista de histórias muito loucas de espiritualidade, paternidade, defesa do meio ambiente que escandalizaram sua época, envolvido nas memórias enfumaçadas e lisérgicas que nenhuma droga seria capaz de imitar.
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