Em um movimento que chama atenção pelo peso político do ator envolvido, o Sindicato dos Bancários de Brasília encaminhou nesta segunda-feira (8) uma carta aos deputados distritais pedindo apoio ao projeto que autoriza o Governo do Distrito Federal a estruturar uma operação financeira destinada a viabilizar o acordo relacionado à crise envolvendo o Banco Master e seus impactos sobre o Banco de Brasília (BRB).
A manifestação ocorre às vésperas da votação da proposta pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) e coloca uma das entidades sindicais mais tradicionais e combativas da capital ao lado da estratégia apresentada pelo governo para evitar um cenário que, segundo o sindicato, poderia comprometer a continuidade operacional do banco público.
Historicamente alinhado a pautas da esquerda e com forte presença nos debates econômicos e financeiros do Distrito Federal, o Sindicato dos Bancários raramente intervém em votações legislativas sem que estejam em jogo empregos, patrimônio público ou a estrutura do sistema financeiro local. Atualmente, a entidade é presidida por Eduardo Araújo, dirigente identificado com o campo progressista e que tem mantido posição crítica em relação a processos de privatização de instituições públicas.
Na carta distribuída aos parlamentares, o sindicato sustenta que o BRB exerce função estratégica para o funcionamento da administração pública distrital e para a economia local.
“O BRB não é apenas um banco. É um instrumento de soberania fiscal do GDF”, afirma o documento.
Segundo a entidade, a instituição financeira é responsável por operações consideradas essenciais para o governo local, incluindo processamento da folha de pagamento de servidores, arrecadação tributária, programas sociais e financiamento imobiliário.
A carta cita dados atribuídos ao Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e ao Banco Central segundo os quais o BRB responde por 12,81% do crédito concedido no Distrito Federal e por 32,15% do financiamento imobiliário da unidade da Federação.
O principal argumento apresentado pelo sindicato é econômico.
De acordo com a entidade, o acordo discutido no âmbito da Ação Cível Originária (ACO) 3755 prevê desembolso de R$ 6,6 bilhões ao longo de até 15 anos, com carência de 18 meses. Considerando os encargos financeiros, o custo total poderia atingir R$ 12,5 bilhões.
Ainda segundo o documento, os pagamentos seriam realizados com dividendos gerados pelo próprio BRB, sem utilização direta de recursos do orçamento distrital. A carta também menciona a possibilidade de redução futura da dívida por meio da recuperação de valores eventualmente identificados nas investigações sobre as operações que deram origem à controvérsia.
O sindicato procura contrapor esse cenário à hipótese de descontinuidade ou ruptura da instituição financeira.
Com base em análise técnica mencionada na correspondência, a entidade afirma que uma eventual quebra do BRB poderia produzir impacto entre R$ 57 bilhões e R$ 58 bilhões para o Distrito Federal, valor que incluiria perdas patrimoniais, depósitos públicos e passivos trabalhistas.
“O cenário oposto é muito mais grave”, sustenta o documento enviado aos deputados.
Mudança no debate político
A entrada do Sindicato dos Bancários no debate pode alterar o ambiente político da votação.
Isso porque a defesa do projeto vinha sendo associada principalmente ao governo distrital e à direção do banco. Agora, um ator tradicionalmente vinculado ao movimento sindical e a setores da oposição passa a sustentar publicamente a necessidade de aprovação da proposta.
Nos bastidores da CLDF, a movimentação é vista como um sinal de preocupação de trabalhadores do sistema financeiro com os efeitos que uma deterioração da situação do BRB poderia provocar sobre empregos, operações bancárias e a própria capacidade do governo de executar serviços financeiros essenciais.
A votação do projeto está prevista para esta semana e deve representar um dos debates econômicos mais relevantes do ano na Câmara Legislativa. O resultado definirá se o governo poderá avançar na estrutura financeira desenhada para sustentar o acordo e preservar a estabilidade do BRB diante da crise desencadeada pelas operações envolvendo o Banco Master.
Pessoalmente, Araújo defende a punição dos responsáveis pela compra de carteiras podres do Banco Master. Porém, a questão que ele coloca é objetiva: deve-se evitar que o Distrito Federal arque com um prejuízo ainda maior e preservar uma instituição considerada estratégica para a economia e para a administração pública local.
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Abaixo, a carta do Sindicato dos Bancários do Distrito Federal:
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