Milei amplia exportações aos EUA e argentinos pagam mais caro na carne

Exportações de carne argentina aos EUA disparam após acordo com Trump, reduzem a oferta local e pressionam preços no governo Milei

Presidente da Argentina, Javier Milei, discursa no Congresso
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247 – As exportações de carne argentina aos Estados Unidos avançaram com força após um acordo comercial entre Donald Trump e Javier Milei, elevando a pressão sobre os preços internos e reduzindo o consumo em um dos países mais associados ao churrasco no mundo, segundo reportagem da Bloomberg.

A iniciativa ocorreu depois que Trump passou a buscar alternativas para conter a alta da carne bovina nos Estados Unidos, em meio à preocupação com a inflação antes das eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para novembro. A Argentina respondeu rapidamente à demanda norte-americana e passou a embarcar volumes recordes para o mercado dos EUA.

O movimento favorece consumidores e empresas americanas, mas tem efeitos sensíveis na Argentina. Com compradores dos Estados Unidos dispostos a pagar mais do que importadores chineses, exportadores argentinos passaram a priorizar o mercado norte-americano. O resultado é uma oferta doméstica mais pressionada e preços em alta nos açougues argentinos.

Nos seis meses encerrados em março, a inflação da carne bovina na Argentina chegou a 50%, enquanto os salários acumularam alta de apenas 15% no mesmo período. A diferença entre preços e renda ajudou a derrubar o consumo interno para o menor patamar em duas décadas.

Nos 12 meses encerrados em maio, o consumo médio de carne bovina no país foi de 47,5 quilos por pessoa, segundo a câmara setorial Ciccra. Embora o número ainda mantenha os argentinos entre os maiores consumidores de carne vermelha do mundo, ao lado dos uruguaios, o recuo marca uma mudança expressiva nos hábitos de consumo.

A Ciccra atribui a queda recente de 6,1% em relação ao mesmo período do ano anterior ao avanço dos preços acima do poder de compra da população. Em um país onde o churrasco semanal, o tradicional asado, é parte central da cultura alimentar, o encarecimento da carne bovina passou a pesar no cotidiano das famílias.

O economista Emmanuel Álvarez Agis, diretor da consultoria PxQ, de Buenos Aires, afirmou que a abertura de um mercado mais rentável intensifica a pressão sobre os preços locais. “O acesso a um mercado de alta renda como o dos Estados Unidos aumenta a pressão, já que os preços internos começam imediatamente a convergir para os valores praticados nas exportações”, disse Álvarez Agis.

Segundo ele, o próprio ciclo pecuário também contribui para a restrição da oferta. Em períodos de recomposição de rebanho, produtores tendem a reter mais vacas para reprodução, em vez de destiná-las ao abate, o que reduz a quantidade de carne disponível no curto prazo.

O acordo entre Trump e Milei elevou de 20 mil para 100 mil toneladas a cota anual de carne bovina argentina que pode entrar nos Estados Unidos sem tarifa. A mudança ampliou a competitividade dos frigoríficos argentinos e abriu espaço para embarques em escala maior.

Um dos beneficiados é Pablo Rivero, dono da Don Julio, uma das churrascarias mais conhecidas de Buenos Aires. Ele prepara a abertura do bistrô Graciela, no bairro de West Village, em Nova York, e fechou acordo para levar aos Estados Unidos cortes produzidos nos pampas argentinos.

“Todas as decisões que você toma quando se trata de um grande e importante negócio são formadas por vários pequenos sinais positivos”, afirmou Rivero, em entrevista por telefone a partir de Nova York.

“Um desses sinais foi justamente o aumento da cota, que garante que poderemos importar carne da nossa própria qualidade, fornecida pelo nosso parceiro”, acrescentou.

A carne argentina costuma ser criada a pasto durante boa parte da vida do animal, enquanto o modelo predominante nos Estados Unidos envolve mais tempo em confinamento e alimentação à base de grãos. Para Rivero, essa diferença aparece no sabor e na textura dos cortes.

“A carne americana costuma ser um pouco mais adocicada, enquanto a nossa tem um sabor mais profundo e intenso, além de apresentar mais colágeno em cortes como ancho, costela e fraldinha”, disse o empresário.

A expansão da cota, porém, não beneficia apenas cortes nobres destinados a restaurantes sofisticados. A ampliação também permitiu que frigoríficos argentinos aumentassem as exportações de carnes de menor valor, usadas na produção de hambúrgueres e salsichas — exatamente o tipo de produto que interessa ao mercado americano em um momento de alta nos preços ao consumidor.

As vendas de carne bovina argentina para os Estados Unidos cresceram 204% em abril na comparação com o mesmo mês do ano passado, segundo a Ciccra. O preço médio chegou a US$ 8,25 por quilo. No mesmo período, os embarques para a China caíram 32%, com compradores chineses pagando US$ 6,24 por quilo.

O governo Milei também atuou para promover a carne argentina nos Estados Unidos. No início do ano, patrocinou uma missão comercial com grandes frigoríficos em Los Angeles, Chicago e Filadélfia. A seleção argentina que disputa a Copa do Mundo também ajudou a reforçar a imagem do produto ao realizar grandes churrascos com cortes bovinos, queijo provolone grelhado e linguiça chorizo.

Entre as empresas que participaram da missão está o Grupo Lequio, que atua tanto no mercado interno quanto no externo. No ano passado, quando a cota isenta de tarifas era menor, a companhia exportou cerca de três mil toneladas de carne aos Estados Unidos, metade dentro da cota e metade sujeita a uma tarifa de 26%. Apenas nos quatro primeiros meses deste ano, o grupo já igualou esse volume.

“Quando a cota é limitada, você a reserva para os produtos de maior valor agregado, a fim de maximizar a rentabilidade”, afirmou Santiago Escales, gerente de exportações do Lequio.

“Mas, quando ela aumenta tanto, você deixa de se preocupar se vai utilizá-la para um corte específico ou outro, é possível exportar tudo. Isso abre muito mais oportunidades”, completou.

Apesar do aumento das importações argentinas, os Estados Unidos ainda enfrentam restrições estruturais no próprio mercado. O rebanho bovino americano está no menor nível em 75 anos, o que limita o efeito dos embarques estrangeiros sobre os preços. Em maio, a carne moída atingiu novo recorde no mercado dos EUA.

Para Milei, a abertura de mercados é uma promessa cumprida aos produtores rurais, base importante de sua sustentação política. Mas o contraste entre exportadores ampliando negócios e consumidores pagando mais caro no mercado interno pode se tornar um problema político em meio à campanha pela reeleição no próximo ano.

Com a carne bovina mais cara, muitos argentinos têm migrado para alternativas mais acessíveis. Pelo mesmo valor, consumidores conseguem comprar o dobro de carne suína ou quatro vezes mais carne de frango, segundo a Bolsa de Comércio de Rosário.

“A Argentina sempre foi uma exceção quando se tratava dos preços da carne bovina e do consumo interno, havia um enorme abismo entre nós e o resto do mundo”, afirmou Escales.

“Hoje, a situação está se tornando mais racional, embora isso, evidentemente, traga novos desafios”, disse o executivo.

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