Acabo de rever “Guerra de Canudos,” de Sérgio Rezende. Produção ambiciosa de 1997, com um elenco de grandes atores — José de Abreu, Jose Wilker, Marieta Severo, Paulo Betti, Claudia Abreu, Tonico Pereira — e 5000 figurantes, “A Guerra…” foi uma das referencias do esforço de recuperação do cinema brasileiro num país que começava a se levantar após duas décadas de censura e ditadura militar.
No domingo, 26/5, ao sintonizar a TV para rever “A Guerra …”, imaginava que poderia enfrentar um mal-estar muito conhecido por quem assiste a reprise de um sucesso do passado — a decepção de encontrar uma obra inevitavelmente envelhecida.
Não é o que acontece. Num fenômeno que tem se explica pelo formidável vigor intelectual da obra de Euclides da Cunha, que o filme soube respeitar com louvável fidelidade, “Guerra de Canudos” permanece como uma referencia indispensável do cinema brasileiro a um momento histórico preciso — o nascimento da República. Num país que ainda se libertava do rescaldo da ditadura militar de 64, “Guerra de Canudos” se debruça sobre a natureza essencialmente autoritária da República proclamada em 1889 pela espada de Deodoro.
Mesmo que nenhum personagem empregue explicitamente a expressão “tutela militar” para se referir ao sistema de poder em construção — esse conceito sequer fora criado na época — o enredo do filme não deixa dúvidas sobre a direção em que o país está sendo conduzido, em particular no tratamento dispensado a pobres e miseráveis. Essa é a atualidade de “Guerra de Canudos”.
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