Opinião

Jornalismo de Chico Otávio faz justiça a Marielle Franco

“Chico Otávio oferece indícios contra figurões daquela zona na qual o crime se encontra com o primeiro escalão policial do Rio”, diz Paulo Moreira Leite

Marielle Franco
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Crime associado diretamente ao calendário da campanha de 2018, de onde saiu o primeiro governo abertamente fascista da República, existem sólidas razões para se acreditar que as responsabilidades pelo assassinato da vereadora Marielle Franco estejam bem estabelecidas.

Em caso de dúvida, recomenda-se a leitura de “Arqueologia de um crime — Os bastidores do caso Marielle”, reportagem de seis páginas publicada pela edição 211 da Piauí (abril de 2023), onde o repórter Chico Otávio oferece indícios definitivos contra figurões conhecidos daquela zona cinzenta na qual o crime organizado se encontra com integrantes do primeiro escalão da máquina policial do Rio de Janeiro. Numa louvável demonstração de perícia profissional, com apoio em fatos consistentes e explicados pelo texto, a reportagem aponta o envolvimento de um ex-chefe de polícia (Rivaldo Barbosa), um conselheiro do Tribunal de Contas (Domingos Brazão) e seu irmão, João Francisco Brazão, nada menos que deputado federal do União Brasil, braço musculoso do bolsonarismo.

Com um texto refinado sem ser pedante, mas informado e cuidadoso, 62 anos de idade e sete Prêmios Esso na bagagem, Chico Otávio não desperdiça munição nem se perde em elocubrações inúteis.

“Arqueologia de um crime” apoia-se em fatos relevantes e aguda sensibilidade de observação, numa postura que incluiu a reprodução literal de diálogos indignados, como ocorre numa conversa dura entre Monica Benício, viúva Marielle, e uma autoridade policial apanhado num flagrante de machismo. Demonstrando a cautela profissional de quem evita afirmações que não pode sustentar, Chico Otávio constrói uma reportagem que combina duas virtudes — contundente pelos fatos que revela, serena em sua narrativa.

O resultado é um texto que vale como registro obrigatório de um crime que deixou o país em estado de choque — e não pode ficar impune, como tantas vezes acontece.

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