Por Andrea Trus – O lançamento do livro “Memória Viva do Cinema Brasileiro: CineOP 20 Anos (2006-2026)” celebra duas décadas de uma das mais importantes iniciativas dedicadas à preservação audiovisual no país. A obra integra a programação da 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Com 360 páginas, o livro reúne ensaios, artigos, entrevistas e depoimentos de pesquisadores, curadores, professores, preservadores e realizadores, propondo uma reflexão coletiva sobre o cinema como patrimônio cultural, campo de conhecimento e espaço de disputa de memória. Organizado por Raquel Hallak e Fernanda Hallak, com coordenação editorial de Cleber Eduardo, o volume foi viabilizado com recursos do Fundo Especial do Ministério Público de Minas Gerais (Funemp), em parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Secretaria Municipal de Cultura.
Preservação como construção coletiva e política de memória
Em fala durante a coletiva, a idealizadora da CineOP, Raquel Hallak, destacou o caráter coletivo da publicação e a raridade de obras dedicadas à preservação audiovisual brasileira. Segundo ela, o livro nasce da vontade de consolidar marcos históricos e transformar datas comemorativas em legado. “É uma construção coletiva”, afirmou. A publicação reúne reflexões a partir de diferentes aniversários ligados ao projeto, como os 20 anos da CineOP, os 20 anos da CineBH, os 30 anos da Mostra de Tiradentes e os 17 anos do Brasil CineMundi.
Raquel também relembrou que a concepção da CineOP surgiu a partir de uma experiência na Mostra de Tiradentes, quando a equipe enfrentou dificuldades para localizar cópias de filmes brasileiros e identificar seus responsáveis e estados de conservação. A partir desse episódio, surgiu a percepção de que era necessário discutir a preservação audiovisual de forma estruturada. “Eu não tinha na minha cabeça que um filme pudesse não ter acesso no presente. A CineOP nasce dessa inquietação”, afirmou. A escolha de Ouro Preto como sede do evento também foi simbólica. Por ser a primeira cidade brasileira reconhecida como Patrimônio Mundial da Humanidade, o município reforça a relação entre cinema e patrimônio cultural. “Eu falei: temos que fazer esse evento numa cidade patrimônio. O cinema também merece tombamento”, completou.
“Preservar não é guardar o passado. É acessá-lo”
Ao ampliar o conceito de preservação, Raquel destacou a importância de uma abordagem mais abrangente, que envolva profissionais do audiovisual e suas diferentes práticas. “É uma construção coletiva. Os profissionais precisam falar da preservação a partir das suas ações. Precisamos de uma preservação expandida”, afirmou. A ideia de preservação também atravessa os diferentes eixos do livro, que reúne entrevistas com homenageados e documentos históricos, além de registros da trajetória da CineOP. Preservar, para a organizadora, não se limita ao armazenamento, mas envolve acesso e circulação de memória: “Preservar não é guardar o passado. É acessá-lo”, resumiu.
Estrutura e conceitos do livro: a preservação expandida
O coordenador editorial, Cleber Eduardo, destacou que o livro está dividido em duas grandes abordagens. A primeira parte reúne textos técnicos e políticos, com foco em preservação, formação e educação. A segunda parte amplia o conceito para o que ele define como “preservação expandida”, incorporando pesquisas e experiências que extrapolam o campo técnico tradicional.
Com uma estrutura densa, a obra se organiza em eixos que transitam entre a teoria e a prática. Além de debates sobre a preservação de películas na era digital e o impacto da inteligência artificial, o livro dedica capítulos cruciais à relação entre cinema e território, como os textos sobre a trajetória de 40 anos do Vídeo nas Aldeias, a memória dos mundos ameríndios e a emergência do Cinema de Quebrada, reafirmando a preservação como um campo de disputa política e social. Segundo Cleber Eduardo, o livro busca esse “atravessamento ativo de experiências”, onde arquivos não são apenas mantidos, mas reavaliados através de diferentes lentes, como a ética, a política, a memória televisiva e o papel das mulheres negras no audiovisual brasileiro.
Memória, diversidade e futuro
A obra discute ainda temas como políticas públicas, preservação digital, memória indígena e negra, além dos impactos das novas tecnologias. Além dos ensaios, a obra se estabelece como uma importante ferramenta de consulta técnica ao documentar as “Cartas de Ouro Preto”, fruto de encontros nacionais dedicados aos arquivos e à educação, consolidando um legado que será referência obrigatória para estudantes e profissionais da área.
Mais do que um registro histórico, o livro se apresenta como um gesto de continuidade e reflexão sobre o futuro da memória audiovisual brasileira, reforçando que preservar envolve escolhas, disputas e responsabilidades coletivas sobre o que uma sociedade decide manter vivo.
Serviço
Memória Viva do Cinema Brasileiro: CineOP 20 Anos (2006-2026)
Organização: Raquel Hallak e Fernanda Hallak
Coordenação editorial: Cleber Eduardo
Editora: Universo Produção
Páginas: 360
Como adquirir: Interessados na obra podem entrar em contato pelo e-mail cineop@universoproducao.com.br* para informações sobre disponibilidade e venda.
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