Elon Musk e Alexandre de Moraes

Justiça está certa ao investigar Musk e Brasil deve afirmar soberania para fomentar diversidade digital

A nova lei das plataformas deve garantir máxima transparência e neutralidade

Uma manifestação do magnata Elon Musk conseguiu gerar, pela primeira vez, uma inédita unidade contra si, envolvendo a imprensa independente, o Judiciário e o governo brasileiro, além dos editoriais dos três mais vetustos jornais do país.

Musk ameaça descumprir, em sua rede X,  determinações judiciais para manter fora do ar perfis de bolsonaristas responsáveis por difusão de notícias falsas e de  ameaças contra altas cortes, seus integrantes, reincidindo em seus crimes a despeito de proibições emitidas pela Justiça.

Diante do desafio de Musk, o ministro Alexandre de Moraes, encarregado dos inquéritos sobre as milícias digitais, incluiu Musk entre os investigados, além de determinar uma multa de R$ 100 mil reais por dia para cada perfil que fosse reativado.

Moraes fez muito bem ao reagir em defesa da autoridade do Supremo Tribunal Federal e, em nome do Tribunal Superior Eleitoral, da higidez do pleito presidencial no Brasil. Seu gesto é também uma reação contra a insolência de um bilionário estrangeiro que, em seu delírio de poder, julga ter imunidade para atacar a soberania do Brasil, sapateando sobre suas leis e instituições.

Ao classificar o Brasil como uma ditadura, ao coonestar as acusações contra a legalidade das eleições, Musk provocou também o Executivo, que reagiu cancelando toda a publicidade na rede X. O próprio presidente Lula abriu um perfil na rede Bluesky. O que sinaliza para um incentivo a uma saudável concorrência,  na busca por plataformas mais neutras no trato dos conteúdos e dos influenciadores.

Está na hora de, respeitado o devido processo legal, investigar o X e os interesses políticos a que está mancomunado.

De fato, está evidente a maneira como Musk associa-se de forma cada vez mais explícita a seus vassalos da extrema-direita internacional, seja com o clã Bolsonaro, no Brasil, ou com o celerado fundamentalista Javier Milei, na Argentina.

Vale notar, porém, que a valentia de Musk depende do freguês. Ele tenta falar grosso com o Brasil enquanto se submete à regulação de outros blocos e países, como a União Europeia, a China, a Turquia ou a Arábia Saudita. 

Diz defender a liberdade para os outros, mas não a pratica em sua própria rede, cujo algoritmo sofre acusação de ser manipulado para desmonetizar ou ocultar perfis segundo critérios políticos, sem qualquer transparência e nenhuma isonomia. Como saber se as prioridades do X são mantidas sob um manto do mais absoluto segredo?

Se não está ainda inteiramente claro o que pretende Musk em sua descabelada ofensiva junto a falanges fascistas, resta perceber que a crítica dos jornalões a ele visa na verdade atingir todas as plataformas no projeto de regulamentação agora remetido de volta à estaca zero no Congresso.

Aí reside o fulcro do problema para estes veículos, a quem interessa fazer regredir uma ordem informativa que incorporou ao debate inúmeras novas vozes, rompendo o velho oligopólio. A nova lei das plataformas deve garantir máxima transparência e neutralidade, sem agravar privilégios cuja natureza, a rigor, não está muito distante da arrogância de que se julga investido um Musk.

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