Lula e Alckmin: a chapa da experiência vitoriosa e do diálogo para transformar o Brasil
A aliança emite uma importante sinalização para o espectro político. Seu sentido se enraíza na crença no diálogo e na colaboração em torno do bem comum
O anúncio de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva convidou o ex-governador Geraldo Alckmin, do PSB, para compor mais uma vez sua chapa como candidato a vice-presidente não constitui um movimento estratégico rotineiro, marcado apenas pela repetição ou continuidade.
É, antes de tudo, um gesto de rara maturidade na vida pública brasileira. A confirmação da união harmoniosa entre dois líderes que estiveram em lados opostos do tabuleiro eleitoral durante décadas representa o sucesso na prova de fogo que é o exercício da convivência durante um mandato em postos executivos cercados de tensões e inevitáveis disputas. Expressa a confirmação de que estão superados ranços antigos em benefício da reconstrução nacional.
O saldo desse ciclo transpira experiência. Lula carrega o aprendizado de anos de governo que tiraram duas vezes o país do mapa da fome e o inseriram no cenário global com dignidade e protagonismo. Alckmin, por sua vez, acumula uma trajetória sólida no Executivo e no Legislativo, com passagens pelo governo de São Paulo que o obrigaram a lidar com a complexidade do maior ente federativo do país. Juntos, eles somam mais de meio século de vida pública dedicada, com erros e acertos, mas sempre sob a inabalável crença no funcionamento das instituições.
Contudo, o maior atributo dessa aliança talvez seja a sabedoria. Sabedoria para entender que o Brasil não suporta mais o espetáculo bizarro do apelo à intolerância e ao ódio. Sabedoria para reconhecer que a mobilização das vontades por meio do diálogo e do confronto de ideias entre diferentes é a única via possível para governar um país continental e variado. Ao unir forças, Lula e Alckmin enviam um recado claro: o tempo das paixões infantis e das trincheiras construídas no apelo ao medo já passou. O momento exige pragmatismo, responsabilidade e coragem para construir pontes onde antes havia muros.
É preciso enfatizar que a continuidade dessa parceria não se dá no vazio nem se sustenta apenas em boas intenções. Ela se baseia, sobretudo, no compromisso com as mudanças sociais que só uma evidente miopia política permite ocultar. Foi a paixão por construir esse legado que propiciou a convivência política e administrativa ao longo deste terceiro mandato. Lula e Alckmin vêm colaborando de forma notável, com diálogo constante, respeito institucional e divisão pragmática de responsabilidades. Enquanto o presidente conduz as grandes articulações políticas e orienta a política econômica com compromisso social, o vice-presidente tem se mostrado peça-chave na gestão de temas complexos como o desenvolvimento, a transição energética, bem como a interlocução pertinente com setores produtivos e com o Congresso. Tal sinergia, rara, demonstra que a maturidade perseguida na campanha eleitoral se consolidou como forma de governar.
A aliança entre as biografias de Lula e Alckmin emite uma importante sinalização para todo o espectro político. Seu sentido se enraíza na crença no diálogo racional e na colaboração em torno do bem para o povo brasileiro. Mostra ainda que o diálogo civilizado entre agremiações distintas, como o PT e o PSB, com orientações políticas próprias, em que ambas abrem mão de territórios exclusivos de hegemonia, não só é viável como pode gerar resultados virtuosos. Tal aliança permite a audição mais adequada e serena de distintos setores da sociedade, gerando maior adesão em torno das políticas públicas. Com a escolha de Alckmin como companheiro desta nova campanha eleitoral, Lula demonstra existir abertura para agregar à sua frente eleitoral todos os partidos e lideranças comprometidos com a democracia. Porque todos devem ser convocados a combater o fascismo, que ameaça retornar e destruir tudo o que foi realizado desde 2023, nos mais diversos setores, a despeito da polarização política e das imensas dificuldades oriundas dela.
É a democracia que está mais do que nunca em risco. A própria existência do país como entidade soberana está ameaçada pelos Estados Unidos de Donald Trump e pela candidatura lacaia de Flávio Bolsonaro.
Nesse ambiente, reconhecer os avanços e ampliar as bases de sustentação de um projeto nacional includente e estável é fundamental. A indicação de Alckmin como vice de Lula encarna esse compromisso.
Por fim, não se pode deixar de ressaltar a lição de profundo conteúdo humano resultante da convivência entre as pessoas de Lula e Alckmin. Dois líderes que outrora se enfrentaram como adversários descobriram, no respeito mútuo e na prática cotidiana do governo, que a política pode ser exercida sem rancor, com racionalidade, afeto institucional e a generosidade de reconhecer no outro qualidades antes obscurecidas pela disputa. Essa amizade cívica, construída na lida diária com os problemas reais do país, é talvez o maior legado dessa chapa: a prova de que a política feita por adultos, com experiência e sabedoria, humaniza o poder e reconcilia o Brasil consigo mesmo.




