Quem são os personagens “anti-heroicos” desta tosca novela da extrema direita brasileira que desejamos estudar para a conjuntura? Silas Malafaia, o pastor; Nikolas Ferreira, o golden boy das Big Techs no Brasil; André Mendonça, o juiz [poderosíssimo juiz do STF]; e Michelle Bolsonaro, a perigosa atriz política do momento.
Primeiramente, o vídeo devastador de Michelle implodindo a campanha de Flávio Bolsonaro por dentro da bolha deles não vem na coincidência dos tempos. É planejamento com método muito bem articulado, inclusive na suspeita de se ter a intervenção de outro “Steve Bannon” da pós-ultracontemporaneidade extremista no mundo (vide eleições vencidas pelo campo na América Latina nos últimos dias).
O filme “dark” da Mi foi milimetricamente calculado para sua divulgação após Flávio se embrenhar na fossa fétida do dinheiro do Banco Master/Vorcaro para meia dúzia de crimes que a Polícia Federal ainda apresentará à nação.
O vídeo dela surge exatamente no instante dos acréscimos do jogo do ministro André Mendonça [STF] que, mesmo sabendo das sujeiras dos senadores Alcolumbre, Ciro Nogueira e do próprio Flávio junto ao escândalo do Master/Vorcaro, preferiu cirurgicamente impor uma busca e apreensão nos endereços de apenas um senador, e não foi qualquer destes apontados acima, todavia, de um dos melhores amigos do Lula, Jaques Wagner (PT-BA).
A película carregada das falácias de Michelle ocorre quando o todo-poderoso, estridente e crente pastor Silas Malafaia resolve partir com tudo para cima de Flávio, a exigir coerência junto à política e à sociedade evangélica (os cristãos e os fariseus), afirmando — em paráfrase — que o Zero Um não tem moral para ser representante da direita por se enveredar na mesma corrupção que, segundo o barulhento, deveria combater [a esquerda].
O vídeo da ex-primeira-dama de tantos Bolsonaros e Costas Netos se conecta às interlocuções de Nikolas Ferreira, o maior disseminador de fake news do Brasil e que tem a mais potente ressonância por força de deliberação dos prepostos no País de Mark Zuckerberg (Facebook, WhatsApp), Elon Musk (antigo Twitter/X, Starlink), Jeff Bezos (Amazon), Sundar Pichai (Google) e outros magnatas das Big Techs, as novas “donas do mundo”. (Lembremos que um vídeo do deputado mentindo sobre o Pix e relacionando a crise ao presidente Lula chegou a mais de 300 milhões de visualizações. Ora, a população brasileira é de 212 milhões de pessoas. Portanto, este vídeo jamais chegaria a tantos “views” não fossem os “anabolizantes” das Big Techs nos algoritmos ao esforço de derrubar um governo, ou os governos progressistas no planeta).
Feitas as constatações, vamos às especulações (por ora, somente isto é possível interpretar, do ou de fato).
Ao que parece, uma ala do bolsonarismo (epíteto para desqualificar a extrema direita destes tempos sombrios) resolveu se insurgir contra os filhos de Bolsonaro. E esta ala ou está sendo liderada ou usando a esposa de Bolsonaro, Michelle, para dividir os blocos do carnaval macabro dessa gente.
Um parêntese necessário: será que Jair já morreu? Não fisicamente. Ele está bem vivo. Mas, por depressão ou por alguma outra punição da vida, desistiu o sujeito de viver e intervir na política? Será que ele opina em casa com a esposa sobre os “videozinhos” dela e os “videozinhos” dos filhos deste zumbi político, ambos se enfrentando no “Coliseu” das redes sociais? De que lado este moribundo está, afinal: dos seus “Zeros” isso/aquilo, ou da ex-atual esposa?
Retomando a espetacularização. A sorte do campo progressista é que mafiosos são como hienas que disputam território como predadores ensandecidos. A extrema direita, lugar de seres monstruosos que brigam entre si pelo poder e pela luxúria, não para de brigar (por mais território). E nós, claro, torcemos pela briga.
Contudo, tem algo sujo que ainda não está evidente nesta briga de Michelle com os membros da familícia. Ou os marqueteiros da terceira-dama realmente sabem que Lula tem chances de levar a eleição deste ano já no primeiro turno e vão se “guardar” para a eleição de 2030 — preservando uma parcela dos quase 30% de fanáticos que não largam o sobrenome “Bolsonaro” —, ou Michelle está trabalhando — exatamente pelo contrário — para se desgrudar deste clã falido (se falindo) do espólio eleitoral, e opera para se aproximar da direita tradicional, dos “sapatênis-ruralistas” como Eduardo Leite, Caiado, Ratinho Junior etc., a fim de viabilizar outro projeto de poder.
Michelle não está bancando esta briga extremamente perigosa (para seu projeto político) por pudor ou dignidade. Não! Estes valores a líder do PL Mulher quase nunca teve na vida conhecida do público lúcido. Não seria agora que primaria por estes fatores. É um jogo estranho, mas um mover de peças no tabuleiro da política. E vamos compreender tão logo qual é a estratégia que coincide com a amarração de pontas complexas, a saber, ter na esposa de Bolsonaro (o “dono” dos votos neoconservadores), no pastor evangélico mais ressonante da política, no jovem deputado que caiu nas graças do poder do Vale do Silício e no ministro mais poderoso desta quadra temporal na Suprema Corte, a formação de um Quarteto Fantástico botando fogo no cabaré fascista que pode — sem querer — “salvar” a República de sofrer com outra pornochanchada eleitoral “dark horse”…
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Notas de consideração
[1] Apesar de citar os quatro personagens principais acima, há dezenas, talvez centenas de outros líderes importantes na política e de outras instâncias das elites seguindo Michelle e “abandonando” Flávio na segunda via eleitoral.
[2] Esta perspectiva semiótica que utilizamos de ter quatro pontas representadas (cristãos extremistas; sistema de justiça elitista; políticos ideológicos fascistas; e magnatas do novo capitalismo) ainda merece atenção, no caso do Brasil, de que os pleitos eleitorais em solo pátrio não se desvestem da plutocracia tradicional, qual seja, dos poderosos da Faria Lima (banqueiros, latifundiários, industriais, além de outros) como compradores de políticos para arrematar seus interesses, sangrando o Estado e a classe trabalhadora ao limite.
Para Michelle se viabilizar como candidata a presidenta da República — se esta for sua intenção —, ainda lhe falta convencer os “Faria Limers”.
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