A onda de solidariedade à Venezuela, louvável e bela, contrasta neste momento com a indiferença, condenável e mesquinha, dos países da região para com Cuba. Duramente castigado, não por um terremoto, mas pelo embargo econômico imposto pelos Estados Unidos há 64 anos, o país agora enfrenta também o caos e as privações trazidos pelo bloqueio energético e as ameaças de invasão militar de Donald Trump.
É pela invasão e por um banho de sangue que esperam os países irmãos da América Latina? Nos anos 90, quando deixou de contar com a ajuda militar da finada União Soviética, Fidel Castro disse um dia que, para não ser conquistada e dominada pelos Estados Unidos, Cuba até se tornaria uma nova Numancia, cidade espanhola cuja população preferiu o suicídio coletivo a render-se às tropas do poderoso Império Romano, que cercavam suas muralhas. Desde então, os cubanos sabem o que é Numancia.
Neste nosso lado do mundo, todos os governos sabiam que Trump planejava invadir a Venezuela para matar ou sequestrar Nicolás Maduro, mas nada fizeram. Todos sabem hoje que o povo cubano está à beira de uma crise humanitária, mas ninguém se mexe. Nem mais o México, para não cutucar o vizinho perigoso.
Nesta terça-feira, 30, o chanceler cubano Bruno Rodríguez anunciou, numa entrevista coletiva, que Cuba solicitou à ONU a realização de uma sessão especial no próximo dia 7 para denunciar a escalada de agressões e ameaças cometidas pelos Estados Unidos, que vêm causando “privações e sofrimentos crescentes” a seu povo. A maior dessas privações é a de petróleo, que vem provocando apagões constantes e continuados, desde que foi cortado o fornecimento pela Venezuela, com o sequestro de Maduro.
Estas medidas, disse o chanceler, constituem “um ato de genocídio, uma punição coletiva e uma violação massiva, flagrante e sistemática dos direitos humanos do povo cubano e do direito internacional humanitário. São atos que causam danos e privações. Cuba não é, nem pode ser, uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos, que se constituem em uma grande potência militar e nuclear. Cuba não é uma ameaça. O bloqueio, sim, ameaça a existência e o bem-estar do povo cubano”.
O bloqueio e as sanções, somados às ameaças de agressão militar direta, disse ele, “não representam um perigo futuro nem uma ameaça que ainda está por vir, mas um crime contra a humanidade em plena execução”.
Rodríguez mencionou documentos que o Departamento de Estado norte-americano faz circular pelas embaixadas em outros países como forma de pressão. Um deles, intitulado “É hora de mudar Cuba”, sustenta que a pequena ilha é uma ameaça direta à segurança dos EUA devido a suposto apoio ao terrorismo. Sem qualquer prova, o atual governo Trump recolocou Cuba na lista de países que apoiam o terrorismo, da qual fora retirada por Biden. Este e outros documentos conclamam diferentes governos a votar contra a moção que a ONU aprova todo ano, em sua Assembleia Geral, pedindo o fim do bloqueio comercial a Cuba. A aprovação, entretanto, jamais teve efetividade.
O debate do dia 7 não será seguido de qualquer votação, mas poderia ensejar um posicionamento mais firme dos países da região. As vitórias eleitorais da extrema direita, entretanto, parecem desencorajar até mesmo os poucos governos progressistas que restam na América Latina: Brasil, México, Uruguai e, por ora, a Colômbia, onde o eleito de direita ainda não tomou posse.
Uma página importante da saúde pública no Brasil foi escrita pelos mais de 18 mil médicos cubanos que aqui vieram trabalhar, atendendo os moradores do meio rural, pequenas cidades e locais ermos. Só por isso, nosso país tinha a obrigação de retribuir a Cuba, não só com ajuda energética, mas com uma condenação dura ao bloqueio e ao cerco imposto por Trump.
Bloqueio energético é uma expressão fria que pouco revela sobre suas consequências. Ele significa apagões de até 15 horas diárias, alimentos já escassos perdidos por falta de refrigeração, hospitais operando no limite das possibilidades, cirurgias e exames adiados, transporte público paralisado, indústrias inoperantes… Tudo isso se destina a torturar os cubanos e envenená-los contra o governo socialista.
Não poderá o Brasil, maior economia do hemisfério depois dos EUA, potência agrícola e energética, socorrer os cubanos assim como está fazendo com os venezuelanos? Além de humanitária, esta ajuda seria um ato de soberania diante das pressões norte-americanas.
Seria também um ato de soberania do governo brasileiro exigir dos Estados Unidos a imediata suspensão do bloqueio ao fornecimento de petróleo e diesel a Cuba, com vistas à manutenção de suas termelétricas.
Isso é o que milhões de brasileiros que amam Cuba gostariam de ouvir do embaixador brasileiro junto à ONU, Sergio Danese, no dia 7 de julho. Ou, preferivelmente, do próprio presidente Lula.
Antes do dia 15 de julho, entretanto, veremos o governo brasileiro pisando em ovos na relação com os Estados Unidos. Nesta data, a mando de Trump e Marco Rubio, o USTR, órgão maior da política comercial deles, decidirá sobre a imposição de novas tarifas e sanções ao Brasil, por supostas práticas desleais comerciais. Entre elas, o Pix.
Se as sanções vierem, terá acabado qualquer ilusão química entre Lula e Trump, e o Brasil que se prepare para a ingerência trumpista em nossa eleição. Mas Lula então estará livre, inclusive, para estender a mão a Cuba, como se espera que ainda faça.
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