Lula está pronto para vencer e vai precisar de todos os aliados
Como ensinou a própria história, Lula vencerá apenas se estiver acompanhado. Por seus aliados de sempre e por aqueles que decidirem somar forças
A trajetória política recente do Brasil ensina uma lição que não pode ser esquecida: nenhuma vitória sólida se constrói na solidão. A eleição de 2022, vencida com margem convincente ainda que estreitíssima, foi a prova mais evidente desse axioma. A derrota do bolsonarismo foi uma conquista coletiva, um mosaico de forças diversas que, superando diferenças históricas, uniram-se em torno da defesa da democracia.
Os números daquele pleito, o mais disputado da história do país, são um alerta permanente: Lula venceu com 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% de Jair Bolsonaro, uma diferença de cerca de 1,8 ponto percentual. Em votos, a vantagem foi de aproximadamente 2,1 milhões, com Lula alcançando 60,3 milhões e Bolsonaro, 58,2 milhões. Diante de uma margem tão estreita, fica claro que todo e qualquer voto retirado do campo adversário é precioso.
Mais do que um triunfo pessoal do presidente Lula, foi a vitória de uma sofisticada construção política, que fala muito das capacidades do país em meio a tantas dificuldades, a frente ampla.
Frequentemente retratada de maneira deturpada pelo jornalismo de oposição, essa aliança de partidos, grupos, poderes e personalidades teve e tem papel decisivo. Foi crucial na campanha, mobilizando eleitorados distintos. Foi vital após a vitória, para barrar a tentativa de golpe de Estado. E tem sido imprescindível, em meio a tensões, avanços e recuos, para prover o Executivo do apoio tão necessário para governar e realizar as melhorias que o país tanto necessita.
A construção de tal amálgama não foi simples nem isenta de sacrifícios. Tratou-se de uma complexa obra de aproximação política, na qual todos os envolvidos, incluindo o próprio presidente, tiveram que superar resistências, despir-se de velhos preconceitos e de diferenças recentes, muitas vezes geradoras de mágoas, sob críticas de suas bases e de críticos de manual.
Todos, sem exceção, de alguma forma aprenderam com derrotas, o que os fez abrir mão de ambições legítimas para fazer concessões pragmáticas na busca de um objetivo – ou da sobrevivência – possível.
A composição dessa frente é a própria imagem da pluralidade e do esforço de conciliação. Para citar alguns nomes, Geraldo Alckmin, por exemplo, no PSB, ex-governador longevo por um partido de centro, personificou a ponte aberta a setores moderados ao aceitar ser vice na chapa de Lula. Marina Silva, da Rede Sustentabilidade, superou antigas amarguras, trouxe a materialidade da pauta ambiental e agregou um eleitorado específico. Guilherme Boulos, do PSOL, empenhou a energia da mobilização social e adensou o compromisso tradicional do PT com as bandeiras progressistas. Simone Tebet, do MDB, com seu discurso técnico e sensato, foi voz decisiva para atrair eleitores indecisos no segundo turno e, em seguida, no Ministério do Planejamento. Carlos Lupi, presidente nacional do PDT, segue incorporando a tradição do trabalhismo à base de apoio. Renan Calheiros, também do MDB, e Rodrigo Pacheco, do PSD, foram peças-chave nas articulações no Congresso, garantindo a governabilidade desde a transição.
A inclusão de alas de quase todos os partidos, como o PSD e o MDB, nesse processo foi sempre fruto de negociações complexas.
A política é a arte do possível, e a estabilidade democrática exige, por vezes, diálogo com quem antes fez oposição.
Agora, o desafio se renova e se amplia. Para consolidar o caminho da reconstrução e seguir superando as convulsões geradas pelo bolsonarismo, será necessário atrair vozes ainda mais diversas. Nesse contexto, a disposição de figuras como Ciro Nogueira, presidente do Partido Progressista (PP) e ex-chefe da Casa Civil no governo anterior, em negociar e colaborar não é um fato menor. Ela terá sérias dificuldades para prosperar e talvez nem deva. O que importa, porém, é que tal disposição constitui um sinal dos tempos e talvez uma oportunidade concreta.
Ao representar a frente ampla, a candidatura de Lula precisa ser um guarda-chuva aberto, capaz de abrigar todos aqueles que, independentemente do passado, comprometem-se, após serem obrigados a isso por refregas e derrotas, com um caminho democrático e um programa de mudança social no país. Essa mudança não se fará sem a incorporação dos diversos movimentos comprometidos com as causas em torno da melhoria das condições de vida para os mais pobres.
A eleição é uma disputa política que se faz com os olhos voltados para o futuro. Lula, como mostrou em recente entrevista à jornalista Daniela Lima, é quem tem as melhores condições políticas e de personalidade para dar conta dessa imensa construção, estuário de tantas disputas por caminhos opostos em conjunturas muito cambiantes.
A trajetória de Lula é marcada pela capacidade de superar grandes impasses e de costurar acordos em nome de um projeto nacional. O desafio atual será atrair e manter unida uma frente eleitoral ainda mais ampla que a de 2022, voltada para a defesa consensual da soberania, da democracia e de um crescimento econômico que conduza, de forma irreversível, à superação da desigualdade.
Lula está pronto para vencer. Mas, como ensinou a própria história, vencerá apenas se estiver acompanhado. Por seus aliados de sempre e por aqueles que, entendendo a gravidade do momento, decidirem somar forças em uma nova direção. O chamado, portanto, é que se amplie a mesa. O Brasil a ser reconstruído precisa de todas as mãos.
Aos que ruminem dúvidas legítimas sobre a imperiosidade dessa construção política, sugere-se considerar a alternativa tão ameaçadora que insiste em permanecer no horizonte.




