Acordo entre Israel e Líbano prolonga impasse na região ocupada

Analistas veem acordo entre Israel e Líbano como risco de impasse militar, ao vincular retirada israelense ao desarmamento do Hezbollah

EUA, Israel e Lìbano assinam acordo que leva conflito a mais impasse
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247 – O acordo entre Israel e Líbano assinado em Washington pode prolongar o impasse militar no sul libanês, segundo analistas ouvidos pela Reuters, ao condicionar a retirada das tropas israelenses ao desarmamento do Hezbollah, grupo aliado ao Irã e principal força armada não estatal do país.

De acordo com reportagem da Reuters, o pacto foi apresentado por autoridades israelenses e libanesas como um passo diplomático relevante, mas especialistas veem baixa viabilidade de implementação. O ponto central da controvérsia está na exigência de que o Estado libanês assuma controle pleno do sul do país apenas após o desarmamento verificado do Hezbollah, condição rejeitada pelo próprio grupo e considerada impraticável por atores políticos regionais.

Na prática, o acordo coloca Beirute diante de uma obrigação que dificilmente poderá cumprir sem risco de convulsão interna. O Hezbollah já declarou que não aceitará entregar suas armas enquanto houver presença militar israelense em território libanês. Ao mesmo tempo, Israel afirma que permanecerá em uma chamada zona de segurança até que o grupo deixe de representar ameaça ao norte israelense.

“Isto não é um acordo, é uma imposição”, afirmou à Reuters um político libanês de alto escalão, sob condição de anonimato. Segundo ele, o Exército libanês não tem estrutura nem equipamento para desarmar o Hezbollah, e exigir essa operação ignora tanto a capacidade militar consolidada do grupo quanto o delicado equilíbrio sectário que sustenta a política libanesa desde o fim da guerra civil.

O analista Michael Young, baseado em Beirute, avaliou que o desenho do pacto transfere quase todo o peso da implementação ao Líbano, sem garantir uma contrapartida efetiva de Israel. “Este acordo colocou todo o fardo sobre o Líbano”, disse Young, acrescentando que o texto “cria uma estrutura que permite aos israelenses permanecerem indefinidamente” no sul do país.

Para Fawaz Gerges, professor libanês da London School of Economics and Political Science, o acordo nasceu sem condições reais de prosperar. Ele afirmou que o pacto é “nascido morto” por depender de uma exigência impossível de ser cumprida na prática. Segundo Gerges, Israel já consolidou uma zona-tampão no sul libanês, com profundidade estimada entre oito e dez quilômetros, e agora vincula qualquer retirada futura ao desarmamento do Hezbollah.

Na avaliação do acadêmico, esse arranjo pode transformar a zona de segurança em uma presença de longo prazo, revestida de legitimidade diplomática. Gerges descreveu o acordo como um “presente” político a Israel, ao oferecer uma justificativa formal para a permanência militar em território libanês.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, tratou o pacto como uma conquista histórica e afirmou que a presença israelense será mantida enquanto considerar que há risco vindo do Líbano. “Continuaremos a mantê-lo [o território na chamada zona de segurança] até que o Hezbollah e outras organizações terroristas sejam desarmados, e até que nenhuma ameaça adicional a Israel seja representada a partir do Líbano”, disse Netanyahu no sábado.

Três autoridades israelenses ouvidas pela Reuters afirmaram que Israel tem pouca confiança na capacidade do Líbano de desarmar o Hezbollah, mas considera o acordo um passo diplomático importante para uma eventual paz de longo prazo com Beirute.

Do lado libanês, o presidente Joseph Aoun saudou o acordo como um primeiro movimento para restaurar a soberania do país e permitir o retorno da população a áreas totalmente liberadas. A recepção positiva, porém, não foi unânime. O presidente do Parlamento, Nabih Berri, classificou o texto como um “acordo de imposições, não um que preserve os direitos do Líbano” e afirmou que ele não será implementado.

A rejeição mais dura veio do Hezbollah. O chefe do grupo, Naim Qassem, declarou o acordo “nulo e sem efeito” e o definiu como uma “rendição”. Ele disse que a organização continuará combatendo até que Israel seja obrigado a deixar o território libanês. O deputado Hassan Fadlallah, ligado ao Hezbollah, alertou para o risco de “conflito interno” no país.

A possibilidade de o Estado libanês tentar impor o desarmamento pela força é vista por analistas como altamente perigosa. Young afirmou que o acordo “não nos levará a lugar nenhum, exceto ao conflito civil, e talvez a uma insurreição da comunidade xiita”.

A guerra entre Israel e Hezbollah já deixou cerca de 4 mil mortos no Líbano e deslocou aproximadamente 1 milhão de pessoas, segundo os dados citados pela Reuters. O conflito ganhou centralidade na diplomacia regional em meio à tentativa de conter a guerra mais ampla entre Estados Unidos e Irã, da qual o Hezbollah é uma das principais forças alinhadas a Teerã no Oriente Médio.

Danny Citrinowicz, analista regional e ex-oficial da inteligência militar israelense, também avaliou que a desmontagem do Hezbollah “nunca acontecerá” nos termos propostos. Para ele, o acordo acaba legitimando uma presença militar israelense sem prazo definido. “Nada vai acontecer. Israel não vai se retirar, e o Hezbollah não vai se desmantelar”, afirmou.

Citrinowicz argumentou ainda que nenhum primeiro-ministro israelense teria margem política interna para ordenar uma retirada enquanto o Hezbollah permanecesse armado e comunidades do norte de Israel continuassem deslocadas. Segundo ele, um pacto mais limitado, baseado na retirada do Hezbollah ao norte do rio Litani, no reforço da presença do Exército libanês e na expansão gradual da autoridade estatal, teria maiores chances de sucesso.

O analista pró-Hezbollah Mohammed Obeid também afirmou que o acordo dificilmente será implementado. Para ele, suas cláusulas funcionam “como explosivos”, capazes de abalar a estabilidade interna do Líbano por dependerem de uma ação estatal direta contra o arsenal do Hezbollah.

Com isso, o pacto apresentado como caminho para a paz pode, segundo os analistas ouvidos pela Reuters, cristalizar uma nova fase do impasse: Israel manteria tropas no sul libanês sob justificativa de segurança, enquanto o Hezbollah preservaria suas armas sob argumento de resistência à ocupação. Entre essas duas posições, o Estado libanês seguiria pressionado por exigências externas, limitações militares e risco permanente de ruptura interna.

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