Chico Teixeira: “A guerra contra o Irã terminou em humilhação para os EUA”

Historiador afirma que Washington fracassou em seus objetivos, fortaleceu a posição iraniana e saiu politicamente desgastado

EUA-Irã
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247 – O historiador e cientista político Chico Teixeira afirmou que a guerra entre Estados Unidos e Irã terminou com um resultado oposto ao esperado por Washington. Em entrevista ao programa Brasil no Mundo, TV Brasil, ele avaliou que a ofensiva norte-americana fracassou em seus principais objetivos e representou uma derrota política e estratégica para os Estados Unidos.

Segundo Teixeira, o memorando que estabelece o cessar das hostilidades demonstra que, ao final do conflito, pouco mudou em relação às negociações que já haviam sido conduzidas durante o governo Barack Obama. Para ele, o saldo da guerra evidencia que Washington assumiu altos custos sem obter as mudanças que buscava.

“Foi uma guerra inútil, na qual os Estados Unidos nitidamente arriscaram largamente o seu prestígio”, afirmou.

Na avaliação do historiador, a principal meta norte-americana era promover uma mudança de regime em Teerã e enfraquecer definitivamente o programa nuclear iraniano. Nenhum desses objetivos foi alcançado.

“Sem dúvida nenhuma, eles esperavam mudar o regime, e isso não aconteceu”, destacou.

Teixeira observou que as questões mais sensíveis, como o futuro do programa nuclear iraniano, sequer foram resolvidas pelo memorando atualmente em negociação. Esses temas deverão ser discutidos apenas nas próximas etapas das conversações, previstas para ocorrer ao longo dos próximos dois meses.

O cientista político lembrou ainda que o compromisso de impedir a produção de armas nucleares pelo Irã não representa uma novidade. Segundo ele, essa posição já estava presente no acordo firmado durante o governo Obama e também encontrava respaldo em declarações históricas da liderança religiosa iraniana, que classificava armas atômicas como incompatíveis com os princípios do Islã.

Outro aspecto destacado por Teixeira foi a constante mudança dos objetivos anunciados pelo governo Donald Trump durante o conflito. Segundo ele, a justificativa para a guerra variou ao longo das semanas, revelando falta de uma estratégia consistente.

Para o historiador, a maior consequência do conflito foi o desgaste internacional dos Estados Unidos, que mobilizaram seu enorme aparato militar sem conseguir impor uma vitória decisiva.

Ele afirmou que a guerra revelou uma profunda transformação na dinâmica dos conflitos contemporâneos, marcada pelo uso de tecnologias militares relativamente baratas e altamente eficazes contra estruturas tradicionais de poder.

“Estamos assistindo a uma revolução em assuntos militares”, afirmou. “Há armas novas que são relativamente baratas e extremamente eficientes, capazes de colocar em xeque forças militares muito superiores.”

Segundo Teixeira, o conflito demonstrou que a superioridade tecnológica e o gigantesco orçamento militar dos Estados Unidos já não garantem resultados no campo de batalha.

“Essa força militar enorme dos Estados Unidos, com porta-aviões de propulsão nuclear e armas nucleares, não serviu em nada”, disse.

Na análise do historiador, a vulnerabilidade demonstrada pelas forças norte-americanas obrigou Washington a abandonar a estratégia de escalada militar e buscar uma saída negociada para evitar custos ainda maiores.

Ele também chamou atenção para o impacto da guerra sobre a relação entre Estados Unidos e Israel. Para Teixeira, ficou evidente um distanciamento entre os interesses do governo Trump e os objetivos do gabinete de Benjamin Netanyahu.

Segundo ele, Israel esperava uma campanha capaz de destruir a capacidade militar iraniana e provocar a queda do regime de Teerã. Como isso não ocorreu, surgiram divergências públicas entre as lideranças dos dois países.

“Israel ainda não entendeu que está criticando o único aliado que lhe resta”, afirmou.

O historiador observou que integrantes da extrema direita israelense chegaram a defender a destruição completa de países vizinhos, como o Líbano, revelando, segundo ele, um nível crescente de radicalização política.

Na reta final da entrevista, Teixeira avaliou que Donald Trump busca encerrar rapidamente o conflito para minimizar seus impactos internos, especialmente sobre a economia norte-americana e o preço internacional do petróleo.

“O que ele precisa muito é sair do Irã. Ele quer sair de qualquer maneira e produzir um grande fato na política internacional”, afirmou.

Para Chico Teixeira, o saldo da guerra é inequívoco: os Estados Unidos não conseguiram alterar o regime iraniano, não eliminaram as capacidades estratégicas de Teerã e terminaram o conflito com sua credibilidade internacional enfraquecida, tendo sido obrigados a negociar justamente aquilo que pretendiam impor pela força.

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