Opinião

Em busca da credibilidade perdida

Lula precisa recuperar credibilidade e dividir conquistas com os brasileiros para conter o avanço da extrema direita em 2026

Flávio Bolsonaro, Donald Trump e Lula
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Vemos a extrema direita avançando em pleitos democráticos no mundo inteiro, especialmente na América do Sul. Com a vitória da candidatura de direita na Colômbia e a grande possibilidade de vitória de Keiko Fujimori no Peru, o sonho de Trump de criar um “cinturão de fogo” parece ganhar tração. Mas falta o Brasil; sem ele, não haverá cinturão nenhum. Nosso país é a bola da vez. De ameaça em ameaça, a eleição brasileira entra no radar imperial do trumpismo. A extrema direita, com seus valores desumanos, foi capaz de detectar enormes defeitos na gestão das democracias liberais. Os direitistas extremistas conhecem bem esse terreno.

Sob as regras liberais, os avanços para o povo são lentos; a burocracia e o jogo de interesses se apropriam dos investimentos. Estabelece-se um passo a passo que o eleitorado não compreende e do qual se cansa de esperar. Gera-se o que nós, profissionais da comunicação eleitoral, chamamos de “desgaste de material” e, nessa brecha, os direitistas extremistas vencem eleições vendendo terrenos na Lua, com propostas antipovo e inexequíveis. Perde-se a credibilidade, perde-se a governabilidade, perde-se a competitividade. Vale, como nunca, para as campanhas eleitorais em competição, o dito popular: “o diabo mora nos detalhes”. No caso deste texto, o “detalhe” é o foco das campanhas na recuperação da credibilidade perdida, do candidato e do sistema.

No Brasil, estamos vivendo esse fenômeno: uma enxurrada de pesquisas quantitativas inunda o cenário político. Debate-se sobre números, sobre fatos de conjuntura na web, numa guerra do dia a dia que não constrói imagem nem reposiciona as mensagens.

Para refletir sobre o tema, buscamos uma bússola mais confiável: produzimos, via inteligência artificial, resultados agregados, obtendo uma média dos percentuais dos cinco últimos levantamentos divulgados publicamente pelos institutos Datafolha, Quaest, AtlasIntel, Paraná Pesquisas e PoderData.

Lula pontua com 39,4% e Flávio, 31,1%, uma diferença de 8%, que o coloca como virtual vencedor. Mas a diferença, ainda pequena, oferece a Flávio, com ajuda de seus amigos ultraliberais, a possibilidade de buscar o resultado produzindo novos acontecimentos conjunturais.

Para o segundo turno, o número se mantém estacionado, agregando os resultados dos institutos Datafolha, CNT/MDA, Gerp, BTG Pactual/FSB e Alfa Inteligência.

Lula pontua 45,5% e Flávio, 41,92% (42%). Os candidatos aparecem separados por uma vantagem de 3,5%, muito perto dos parcos 1,8% finais da vitória lulista em 2022. Por quê? Terá sido ruim o mandato? Pelo contrário. Lula tem números e ações excepcionais para mostrar e sofre agora com a qualidade da sua comunicação, que o coloca no centro de tudo, o tempo todo.

Quase quatro anos governando, e agora se detecta uma falta aguda de credibilidade. Seu carisma e sua capacidade de gerar esperança, que sempre funcionaram, dão claros sinais de que estão menos efetivos.

Os números agregados também nos oferecem a possibilidade de extrair um padrão de rejeição: a situação piora. Lula pontua 45,5% e Flávio, 42,0%, um empate estatístico. Por quê? A resposta é a mesma: “desgaste de material” de Lula, somado à má vontade do “pobre de direita” com o sistema de governo.

Ou seja, estamos disputando uma eleição entre rejeições, e quem souber trabalhar nessa direção sairá vencedor. Depois de preparar um competente pacote de “entregas” de fim de mandato, é hora de o PT e Lula aceitarem que de 40% a 48% da população não gostam dele. Não são necessariamente maus brasileiros; simplesmente, não querem mais o lulismo. Metade do Brasil.

São brasileiros que não sabem ou estão estafados da democracia que conquistamos nos anos 1990 e que, 36 anos depois, parece amarrotada, sem capacidade de fazer sonhar. Esses antilulistas não suportam mais a voz de Lula e de seus ministros, perseguem sua esposa, seus filhos e seus aliados, e não entendem o atual governo como politicamente de aliança. É Lula, Lula, Lula o tempo todo.

Atacar a perda da credibilidade com uma comunicação de culto à personalidade, como ocorre atualmente, tornará a campanha oficial invisível. Será preciso dividir as conquistas com os brasileiros. Quem retirou o Brasil do mapa da fome: foi Lula ou foram os brasileiros? De quem são as conquistas econômicas: de Lula ou dos brasileiros? Quem é respeitado internacionalmente: Lula ou o Brasil?

Lula precisa oferecer oxigênio para essa massa sufocada; é justo. A simples prestação de contas não está apresentando resultado. Canto sem povo, frases de efeito, “cenho franzido”, olhados sob o ângulo do “desgaste de material”, produzem um presidente ainda mais distante do homem comum. Lula talvez precise de uma preparação mais eficiente para reorientar suas falas: mostrar-se um líder maduro, plácido, sereno, que controla a crise e não se desespera facilmente. Que age sem precisar levantar a voz. Que a idade trouxe maturidade a ele e ao PT. Reconhecer que ainda há muito o que fazer, acusar em tom menos contaminado, que ao final será contabilizado como ódio.

Um Lula mais “paz e amor” de verdade, e não apenas como retórica de campanha. Descer do salto é mais simples e divide a responsabilidade de Lula com outras pessoas. Alertar para o “perigo” da volta da família Bolsonaro em alto e bom som, sem gritar.

Um exemplo de tom adequado foi aquele que Lula usou ao anunciar o aumento do investimento em defesa de que o país necessita. Ali, quem falou foi um homem cordato, seguro no comando do país, que não alimenta o conflito, mas não se nega a enfrentá-lo.

É importante deixar claro que essas subjetividades visam garantir a conquista dos 2% ou 3% que estão faltando para fechar a eleição. Numa pequena mudança de rota talvez esteja a consolidação da vitória, o quanto antes.

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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