Opinião

Pecados capitais em finanças

Esta é a lista dos pecados ameaçadores da salvação patrimonial e a harmonia do circuito do dinheiro

Mulher tira foto de painel eletrônico com gráfico na bolsa de valores B3 em São Paulo
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Esta é a lista dos pecados ameaçadores da salvação patrimonial e a harmonia do circuito do dinheiro. É comum lançar falsas acusações sobre o sistema financeiro nacional.

1º. Tratar um banco como mero intermediário financeiro de canalização da poupança para o investimento.

Ao cometer esse pecado venial, o agente econômico percebe o papel imprescindível do sistema bancário. O crédito antecede o investimento, a produção, a renda e, daí, pela diferença diante do consumo, a poupança. 

Esta, na realidade, é aplicada como investimento financeiro. Captado por bancos, lastreia a concessão de novo crédito. O circuito financeiro vive dessa retroalimentação, coitado.

2º. Esnobar banco e não usá-lo para fazer pagamentos digitais, tomar financiamento para a própria moradia e enriquecimento para a aposentadoria. 

Todos os crentes nas finanças são clientes voluntários do sistema financeiro nacional. Senão, cometem um pecado capital ou mortal e não sobrevivem nesse mundo real da “financeirização”.

Porém, é pecado denegrir seu santo nome como fosse uma “financeirização parasitária”. Ela é dinâmica, afinal, o crédito ampliado cresceu na economia brasileira de dezembro de 2021 a dezembro de 2025 o mesmo percentual de crescimento do PIB: 46%. 

Entretanto, o crescimento nominal do PIB foi de R$ 8,7 trilhões a R$ 12,7 trilhões no período, montante inferior crescimento do crédito ampliado de R$ 15 trilhões a R$ 22 trilhões. Por este aumentar R$ 7 trilhões e aquele R$ 4 trilhões, a relação crédito / PIB evoluiu de 148% em 2022 a 163% em 2025, ou seja, o crédito “puxou” a renda!

Vale lembrar: o crédito ampliado no início de sua série temporal, em 2013, era R$ 6 trilhões (multiplicou mais de três vezes em doze anos) e o PIB era R$ 5,3 trilhões. Este se multiplicou em 2,4 vezes nesse período. O crédito arrastou o PIB…

O crédito ampliado em 2025 era composto por empréstimos bancários (36%), títulos de dívida pública (36%), títulos de dívida privada (12%) e dívida externa (16%). Em 2015, a composição era 42% empréstimos, 27% títulos públicos, 5% títulos privados e 25% dívida externa. Logo, aumentou a autossuficiência do sistema financeiro nacional sem depender do internacional.

Diante da queda da participação relativa dos empréstimos bancários (47% em 2013 para 36% em 2025), aumentou não só a de títulos de dívida pública (de 29% para 36%), como também dobrou a de títulos de dívida privada, inclusive securitizados, de 6% para 12%. Houve emergência do mercado de capitais brasileiro.

O estoque institucional de poupança compulsória (FGTS para a Caixa Econômica Federal com R$ 160 bilhões e FAT para o BNDES com R$ 488 bilhões) e previdenciária de longo prazo (EFPC ou fundos de pensão com R$ 1,4 trilhão e EAPC com R$$ 1,7 trilhão) acumula R$ 3,75 trilhões. 

Funciona como funding estrutural da economia. Viabiliza o crédito direcionado por bancos públicos para setores prioritários. Essas entidades (fechadas e abertas) de previdência complementar carregam 23% dos títulos de dívida pública em suas carteiras de maneira estratégica para o país. Junto com bancos (33%) e fundos de investimentos (21%), essas instituições financeiras carregam 77% dos títulos de dívida pública.

A acumulação patrimonial transforma fluxos de renda em estoque de riqueza financeira protegida. Investidores não residentes detém apenas 10% do estoque de títulos públicos. O governo geral (União, Estado e Municípios) com US$ 86,5 bilhões tem 22% do total da dívida externa brasileira de US$ 397,5 bilhões.

O lastro do saldo de ~R$ 22 trilhões em crédito ampliado se origina haveres financeiros internos (M4) com R$ 14,8 trilhões (67%), poupança institucional de longo prazo (FGTS+EFPC+EAPC) com R$ 3,7 trilhões (17%) e captação externa com R$ 3,46 trilhões (16%). Cerca de 84% do funding é doméstico.

Então, é pecado acusar o sistema financeiro nacional de raquítico ou desnacionalizante!

3º. Acusar o sistema financeiro de não fazer a antecipação do futuro

O sistema financeiro conecta o futuro ao presente ao transformar fluxos de renda esperados em capacidade de gasto imediata. 

O crédito às famílias cresceu de dez2022 a dez2025 de 34% a 38% do PIB. O crédito às empresas cresceu no mesmo período de 52% a 55% do PIB. O crédito ao governo teve o maior crescimento, pois evoluiu de 62% para 70% do PIB. São os três componentes da relação crédito ampliado / PIB de 163% do PIB em 2025.

Uma família pode gastar além de sua renda disponível hoje para consumo ou investimento habitacional. Uma empresa tem possibilidade de obter ativos muito maiores diante de seu patrimônio presente. Um governo gasta hoje com base em receitas tributárias futuras.

4º. Tentar criar moeda por si só sem a multiplicar no sistema bancário.

Um banco não cria moeda por conta própria, mas o sistema bancário sim multiplica a oferta de moeda. Empréstimos criam depósitos, inclusive captados por outros bancos, em uma série de empréstimos-depósitos-empréstimos.

É pecado (venial) dizer a oferta monetária ser exógena, determinada pela Autoridade Monetária. Ela é sim endógena, criada pelas forças de mercado. 

5º. Deixar de expandir o valor presente de riquezas futuras esperadas.

Em dezembro de 1999, o FGC registrava um total de 75 milhões de clientes com R$ 246 bilhões. Em dezembro de 2025, o número de contas de depósitos e letras atingiu 704 milhões, sendo 25% de depósitos à vista, 36% de depósitos de poupança e 35% de depósitos a prazo. As participações em valores foram, respectivamente, 4,6% (R$ 252 bilhões), 17,2% (R$ 973 bilhões) e 59,2% (R$ 3,3 trilhões). LCA tinha 8,6% (R$ 478 bilhões) e LCI, 9,6% (R$ 529 bilhões) tinham valores expressivos em número muito menor de contas.

Na virada do ano, o segmento de 191 milhões de contas no Varejo acumulava quase R$ 6 trilhões, sendo os 168 milhões clientes no Varejo Tradicional tinham R$ 2,8 trilhões e as 22,8 milhões de contas do Varejo de Alta Renda possuíam R$ 3,2 trilhões. Dez anos antes, no fim de 2015, eram 72 milhões de contas no Varejo com quase R$ 1,4 trilhão. 

Quadruplicou a riqueza financeira dos “varejistas”, mas impressiona a ascensão da classe média alta ao sair de R$ 570 bilhões multiplicou por seis a sua fortuna, enquanto a classe média baixa partiu de R$ 824 bilhões e multiplicou por pouco mais de três vezes sua acumulação nesses dez anos. Em 2015, eram 66,6 milhões contas dos clientes do Varejo Tradicional e 5 milhões no segmento de Alta Renda.

Quanto ao Private Banking, eram 104 mil contas em 2015 e foram para 167 mil contas exclusivas em 2025. Os ricaços acumulavam R$ 670 bilhões nessa data e passaram a ter, dez anos após, R$ 2,6 trilhões, ou seja, multiplicaram sua fortuna agregada em quase quatro vezes.

6º. Não se iludir com o mercado secundário de ações, mas usá-lo para sua capitalização.

Entre 2001 e 2024, a média anual de rendimentos na bolsa de valores foi 13%, mas isso foi um resultado ex-post, porque o desvio padrão foi de 32%. Enquanto isso, o CDB rendeu a média anual de 10,6%, mas com desvio padrão menor de 4%. Por sua vez, a poupança rendeu a média de 7,2% com desvio padrão de 2%. A inflação média anual foi de 6,2% com desvio padrão de 2,4%.

O Brasil com juros nominais de 14,25% aa e taxa de inflação em 4,72% se mantém no primeiro lugar no ranking de juros reais com 9,1% aa. Supera a Rússia com, respectivamente, 14,25%, 5,3% e 8,5% e Turquia com juros nominais de 37% aa, inflação de 32,6% e juros reais de 3,3%. Os menores juros reais são os da Argentina com -3,44%, por seus juros nominais estarem em 29% aa e a inflação anual em 33,6%. Não à toa, há fuga de capitais lá para o dólar.

7º. É pecado investir só o capital próprio se os capitais alheios compensam.

A alavancagem financeira é um caso particular da capacidade de antecipação de renda esperada. O “segredo” do empreendimento capitalista é o proprietário não investir apenas seu próprio patrimônio. 

Porém, um levantamento foi realizado com 297 companhias em maio de 2026 (Valor, 22/06/26). Deste grupo, 68,6% disseram se financiarem exclusivamente com capital próprio. Outros 25,4% afirmaram usarem somente o crédito bancário. Há 5,9% capazes de adotar uma estrutura mista de financiamento. O levantamento não considerou o mercado de capitais.

Este não chega a ser um pecado mortal, porque as empresas não-financeiras à base do autofinanciamento sobrevivem na estagdesigualdade brasileira. Mas, paradoxalmente, é um pecado capital no capitalismo financeiro contemporâneo…

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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