O multilateralismo avança – e o Brasil dá contribuição decisiva
O acordo entre o Mercosul e a União Europeia representa um movimento concreto de articulação entre blocos e de diversificação de parcerias
A cena internacional atravessa um período de graves turbulências e mudanças profundas. A multipolaridade se afirma como realidade objetiva incontornável. O mundo já não gira em torno de um único centro de poder, e o multilateralismo, no quadro de uma nova governança global, aparece como alternativa clara e resposta concreta às contradições de uma ordem internacional marcada, durante décadas, pela imposição unilateral de interesses, sanções, intervenções e violações do Direito Internacional.
A multipolaridade e o multilateralismo se materializam em decisões políticas, movimentos diplomáticos e escolhas estratégicas de Estados que compreendem que o mundo do século XXI não comporta mais a dominação unilateral. Nesse cenário, o Brasil hoje ocupa um lugar de destaque, e isso se deve, em grande medida, à atuação do presidente Lula, hoje reconhecido como um dos grandes estadistas da época. Lula recolocou o Brasil como um ator confiável, capaz de dialogar com diferentes polos de poder sem submissão, sem alinhamentos automáticos e sem abrir mão da soberania nacional.
O Brasil tem desempenhado um papel relevante e coerente com os princípios escritos em letras de ouro na Constituição Federal. Nos últimos dias, as conversações do presidente Lula com chefes de Estado e de governo reforçaram a centralidade do diálogo, da solução de conflitos, da cooperação e da soberania nacional como pilares da política externa brasileira. A isso se soma o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, que, apesar de desafios e assimetrias ainda existentes, representa um movimento concreto de articulação entre blocos e de diversificação de parcerias, em contraste com lógicas unilaterais. No contexto atual, é uma união que soma a favor do multilateralismo.
Teve grande impacto geopolítico, principalmente para a América do Sul, a conversação entre os presidentes Lula e Putin sobre os acontecimentos na Venezuela. É auspicioso que os dois líderes tenham enfatizado a defesa da soberania estatal e dos interesses nacionais da República Bolivariana e concordado em somar esforços para reduzir a tensão na América Latina e em outras regiões.
Enquanto isso, as recentes demonstrações de força dos Estados Unidos, o ataque militar à Venezuela, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cília Flores, a reiteração de ameaças ao Irã e a outras nações, a presença militar em regiões sensíveis e a persistência na guerra tarifária têm produzido um efeito paradoxal. Longe de aproximar Washington de seus objetivos estratégicos, tais ações aceleram movimentos de resistência e busca por alternativas ao chamado corolário Monroe adotado por Donald Trump. A insistência em práticas colonialistas e tentativas de subordinar regiões inteiras apenas aprofunda desconfianças, rejeição e fortalece a disposição de países e blocos em buscar caminhos próprios.
A guerra comercial entre Estados Unidos e China é um exemplo emblemático desse processo. O resultado concreto desse embate foi a vitória chinesa, expressa na resiliência de sua economia, na ampliação de mercados, no fortalecimento de cadeias industriais, no avanço tecnológico contínuo e no colossal superávit na balança comercial do gigante asiático, da ordem de 1,2 trilhão de dólares. Ao mesmo tempo, a diplomacia chinesa tem obtido resultados significativos no campo político. Os encontros recentes com o presidente da Coreia do Sul e o chefe de governo canadense indicam o êxito de uma estratégia clara de construção de pontes, ampliação de cooperação econômica e redução de tensões, mesmo em ambientes historicamente influenciados pela política externa norte-americana.
Também é sintomático desse novo cenário o fato de a Venezuela permanecer de pé. Apesar de anos de sanções, isolamento, pressões externas e da recente agressão que sofreu, o governo bolivariano mostra-se resiliente: o país segue existindo como ator soberano, mantendo relações internacionais, explorando alternativas econômicas e resistindo à tentativa de estrangulamento político. Sua sobrevivência, por si só, já é uma demonstração de que os instrumentos clássicos da coerção hegemônica perderam parte significativa de sua eficácia.
O avanço do multilateralismo e da multipolaridade também se expressa no plano simbólico e da opinião pública global. Uma pesquisa internacional realizada em 46 países em 2025 pelo Global Times Institute revela que a imagem global da China vem se tornando mais positiva e que, em diversas regiões, o país passou a registrar índices de favorabilidade superiores aos dos Estados Unidos.
De acordo com o relatório, a pesquisa reuniu 51.689 respostas válidas, com participantes entre 18 e 70 anos. O levantamento indica que 78% dos entrevistados reconhecem que a força nacional abrangente da China está em crescimento, um salto expressivo em relação a estudos anteriores. Mais de 80% classificaram como fortes as capacidades econômicas e tecnológicas do país, associando sua ascensão à inovação, ao desenvolvimento industrial e à projeção estratégica.
Outro dado relevante é que, em parte das avaliações consolidadas, a favorabilidade da China superou a dos Estados Unidos, sinalizando um deslocamento significativo no “termômetro” da reputação internacional. A pesquisa também aponta um desejo claro da opinião pública internacional por menos confronto entre China e Estados Unidos. Para uma parcela expressiva dos entrevistados, a disputa entre as duas maiores potências representa um risco direto à estabilidade econômica e política global. Em um mundo de cadeias produtivas interdependentes, decisões tecnológicas sensíveis e desafios transnacionais, cresce a demanda por previsibilidade, cooperação e redução de tensões.
Tudo isso ocorre em um mundo marcado por crises prolongadas, tensões geopolíticas e transformações profundas na economia internacional. Nesse contexto, a ascensão da China, a articulação do Sul Global, o protagonismo renovado de países como o Brasil e a resistência de nações submetidas à pressão externa indicam que o tempo trabalha a favor das forças anti-hegemônicas.
A tendência histórica principal aponta para a construção de uma nova governança global, baseada no desenvolvimento compartilhado, na cooperação entre Estados soberanos, na segurança coletiva e na paz.
O mundo está em mudança e seguirá adiante, apesar das tentativas de forças imperialistas regressivas de fazê-lo voltar ao passado.




