Xi Jinping, Mauro Vieira e Lula

Sul Global reforça multilateralismo após devaneios de Trump em Davos

O diálogo entre Lula e Xi expressa uma disputa de visões de mundo: de um lado, o unilateralismo e a imposição; de outro, o multilateralismo e a cooperação

Os países emergentes se destacam cada vez mais como o polo que dará estabilidade ao mundo e construirá a nova governança

Os países do Sul Global voltaram a ocupar o centro do debate internacional após a participação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Fórum Econômico Mundial de Davos. Em suas intervenções, marcadas por devaneios e delírios, Trump reacendeu tensões geopolíticas ao reafirmar a rejeição ao multilateralismo e defender uma política externa baseada na imposição da hegemonia norte-americana e no unilateralismo, superdimensionado em seu segundo mandato.

Durante o evento, o presidente dos Estados Unidos anunciou duas iniciativas que ilustram essa orientação. A primeira foi a criação de um chamado “conselho de paz”, concebido como um fórum internacional alternativo à Organização das Nações Unidas (ONU) e sob sua própria liderança. A segunda foi a celebração de um “acordo-quadro” com a Otan envolvendo a Groenlândia e a região do Ártico, apresentado por Trump como uma vitória estratégica. Ambas as propostas se inserem em uma política externa caracterizada pela pressão econômica, pela renúncia a compromissos coletivos e pela tentativa de subordinar instituições internacionais aos interesses exclusivos dos Estados Unidos.

Inicialmente associado ao cenário do pós-guerra em Gaza, o “conselho de paz” surgiu como um mecanismo para supervisionar um cessar-fogo. No entanto, a proposta rapidamente ganhou contornos mais amplos, passando a ser apresentada como uma alternativa à ONU. A iniciativa sinaliza um afastamento explícito das instâncias multilaterais tradicionais e uma tentativa de criar um espaço político com regras e critérios definidos unilateralmente por Washington, em ruptura com os princípios que estruturam a governança internacional desde o pós-Segunda Guerra Mundial. Apesar de suas limitações, a ONU permanece como o principal foro para a mediação de conflitos e a busca de soluções negociadas.

O segundo anúncio de Trump em Davos envolveu o Ártico e a Groenlândia. Ao afirmar que o acordo com a Otan garantiria “acesso total” à região, o presidente dos Estados Unidos explicitou os interesses estratégicos de Washington no Ártico. Esses interesses incluem a projeção militar diante da Rússia e da China, o controle de rotas marítimas, a exploração de reservas energéticas e minerais estratégicos e o fortalecimento da segurança territorial norte-americana.

A defesa de um acesso permanente à Groenlândia representa um choque com princípios básicos do direito internacional, como a soberania dos Estados e a tomada de decisões por meio de negociações multilaterais. Em conjunto, os anúncios feitos em Davos evidenciam uma política externa marcada pela hegemonia, pelo unilateralismo e pela disposição ao confronto, com riscos concretos de eclosão de conflitos armados de grandes proporções.

A repercussão dessas posições foi amplificada por uma campanha midiática marcada por imagens artificiais e erros elementares, como a representação de pinguins no Ártico. O episódio expôs uma estratégia de comunicação que mistura delírio e intenção política, ao apresentar projetos expansionistas em peças de propaganda visual, como a foto gerada por inteligência artificial do ocupante da Casa Branca caminhando na neve de mãos dadas com um pinguim, expondo mais uma vez ao ridículo o presidente dos Estados Unidos.

Em contraste com esse cenário, Davos também foi palco de reações significativas em defesa do multilateralismo. Diversos líderes reafirmaram a necessidade de cooperação internacional e de uma nova governança global como resposta à fragmentação política e econômica.

Nesse contexto, ganhou destaque o diálogo por telefone entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente chinês, Xi Jinping, que reafirmaram Brasil e China como pilares de estabilidade em um ambiente internacional marcado por incertezas.

A conversa entre os dois líderes ecoou a posição do Sul Global e reforçou a defesa de uma ordem internacional baseada no direito internacional, na cooperação e no fortalecimento das instituições multilaterais. Brasil e China também reconheceram o papel que a ONU pode desempenhar, ao tempo em que evidenciaram a necessidade de reformas profundas na organização multilateral, para que esta reflita a correlação de forças do século XXI e recupere capacidade de resposta diante das crises globais.

O entendimento entre Brasília e Pequim parte de um diagnóstico comum: a instabilidade atual decorre de desequilíbrios estruturais no sistema internacional e da substituição de regras coletivas por decisões unilaterais. Ao defenderem o desenvolvimento compartilhado e a resolução pacífica de controvérsias, os dois países se posicionam contra a lógica da força, das sanções seletivas e da fragmentação do comércio internacional.

A defesa explícita do Sul Global também é uma ideia-força que emana do diálogo. Ao afirmarem a necessidade de proteger os interesses dos países em desenvolvimento, Lula e Xi reforçaram a convicção de que crescimento econômico, progresso social e soberania nacional são direitos, e não concessões subordinadas às prioridades das potências imperialistas.

Nesse cenário, o Sul Global se consolida como vetor central da multipolaridade. A América Latina, a África e grande parte da Ásia concentram parcela significativa da população mundial, do crescimento econômico e das transformações energéticas. A articulação entre Brasil e China aponta para uma nova ordem internacional baseada na cooperação, na redução das desigualdades e na ampliação da participação dos países emergentes nos espaços decisórios globais.

O diálogo entre Lula e Xi expressa, assim, uma disputa de visões de mundo: de um lado, o unilateralismo e a imposição; de outro, o multilateralismo e a cooperação. A sintonia entre Brasil e China sugere que o futuro da governança internacional tende a ser cada vez mais moldado fora dos antigos centros hegemônicos.

Esse protagonismo brasileiro também se reflete nas conversas recentes de Lula com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e com o presidente da Rússia, Vladimir Putin. O Brasil se apresenta, desse modo, como articulador de consensos e defensor da reforma das instituições internacionais, assumindo um papel ativo na construção de um novo equilíbrio de poder no sistema internacional.

Redação Brasil 247 avatar
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