Senador Flávio Bolsonaro

A farsa do Bolsonaro moderado: por que a elite se divide no apoio a Flávio

Ao contrário do que Flávio tenta vender, não há um Bolsonaro moderado — há apenas um projeto de poder, um oportunismo eleitoreiro

A narrativa construída pelo senador Flávio Bolsonaro de que ele seria expressão de uma facção moderada dentro de seu próprio clã político serve a um propósito claro: anabolizar, pela fraude, ambições eleitorais e afastar o espantalho do "bolsonarismo radical", que afugenta o centro e é inaceitável mesmo para parte das elites. Nos últimos meses, porém, essa fachada vem ruindo de forma acelerada. O chamado “bolsonarismo light”, recitado pela mídia neoliberal, revela-se uma ficção publicitária, e o mais recente sintoma dessa constatação é o distanciamento, já explícito, de setores influentes do pensamento conservador que por muito tempo flertaram com a direita. Mesmo entre partidos antes colados ao bolsonarismo cresce a ambiguidade.

Ao contrário do que Flávio tenta vender, não há um Bolsonaro moderado — há apenas um projeto de poder, um oportunismo eleitoreiro que, diante do isolamento do patriarca e do que ele significa, busca sobreviver fazendo o teatro do moço cheiroso, mas montado sobre as mesmas vísceras autoritárias, negacionistas e golpistas.

A jornalista Miriam Leitão, conhecida por sua trajetória de críticas ao petismo, foi direta em sua coluna recente. Ao analisar os movimentos de Flávio para se descolar do pai, encarcerado por liderar violenta organização criminosa golpista, Miriam apontou que o senador tenta “recolorir o bolsonarismo”, mas que sua própria trajetória — incluindo o caso das rachadinhas e a lealdade incondicional ao clã — desmente qualquer viragem. Para ela, a tentativa de Flávio de se apresentar como uma alternativa negociadora esbarra na realidade: o DNA do grupo é a ruptura institucional, e o filho jamais condenou os ataques desferidos pelo pai ao sistema eleitoral ou os atos golpistas. Miriam não expressa uma opinião isolada. Antes, aponta que a marca de descompromisso do clã com a democracia encapsula as chances eleitorais de Flávio Bolsonaro.

Reinaldo Azevedo, outro veterano que nunca escondeu seus arreganhos à esquerda, também dedicou espaço ao tema. Para Azevedo, Flávio ensaia um discurso de centro para agradar ao mercado financeiro e a parte do Judiciário, mas mantém o mesmo manual tático de seu pai: ataque à imprensa, defesa de pautas de costumes reacionárias e silêncio conveniente sobre a tentativa de golpe em 2023, que ele apoia. Azevedo lembrou que o senador foi um dos articuladores do orçamento secreto e blindou Jair nas piores horas. Portanto, tentar vender moderação é, nas palavras dele, “insultar a inteligência de todos”. Isso sem falar do crescimento patrimonial inexplicável de Flávio, de suas ligações com o crime organizado miliciano, das rachadinhas em seu gabinete, da lavagem de dinheiro e do empréstimo a taxas incompatíveis no BRB para a compra de uma mansão em Brasília por R$ 6 milhões, mas que na verdade vale R$ 14 milhões.

Já Ruy Castro, em sua coluna, foi cirúrgico ao descrever o cenário como um “divórcio anunciado”. O cronista observa que as elites — incluindo setores do agronegócio, do mercado financeiro e da chamada Nova Direita — começam a migrar para outras lideranças, como Tarcísio de Freitas ou Romeu Zema, que oferecem a agenda econômica liberal sem o estorvo golpista e a toxicidade familiar. Ruy destaca que Flávio tem tentado se reunir com empresários e artistas para construir uma imagem de “Bolsonaro que conversa”, mas o resultado tem sido o oposto: ninguém acredita na moderação de quem cresceu à sombra das manifestações com faixas pedindo intervenção militar. Talvez com certo exagero, o colunista conclui que o não casamento das elites com Flávio é definitivo, pois elas já compreenderam que apoiar o herdeiro significa apenas reviver o espólio de um projeto autoritário que se recusa a mudar.

Esse afastamento revela uma contradição profunda e incômoda no próprio seio das elites. De um lado, a ala mais pragmaticamente liberal, capitaneada por setores do mercado financeiro e do agronegócio, ainda enxerga em Flávio um instrumento útil, uma potencial alavanca para um programa austericida e de desmonte do Estado. Para esses, o senador serviria como cavalo de Troia para aprovar reformas impopulares, privatizações e o arrocho fiscal, desde que mantida a fachada da governabilidade. O cálculo é cínico, porém racional: usa-se o nome Bolsonaro para a agenda econômica, enquanto se isola o núcleo golpista. Mas aí reside a fissura. Outra parcela das elites abomina exatamente o que Flávio representa como instrumento de sabotagem do valor principal, sobretudo nessa conjuntura histórica: a democracia. Para esse grupo, reduzir o regime a um meio para fins fiscais é aceitar a própria extinção das regras do jogo. Eles compreendem que apoiar Flávio, mesmo como muleta para a eliminação dos reajustes do salário mínimo acima da inflação e das verbas destinadas à saúde e educação, significa validar a tática permanente de ruptura, a ameaça às instituições que de algum modo garantem sua hegemonia e o apetite pela exceção. É essa contradição não resolvida que trava o casamento definitivo. Enquanto uma parte da elite ainda cogita o pacto maquiavélico, a outra já percebeu que não se fazem reformas sobre escombros autoritários. E, por ora, o medo do golpismo, ainda que por margem estreita, tem falado mais alto que a fome por cortes de gastos.

É essa a realidade que Flávio Bolsonaro insiste em maquiar. O mercado pode até ter tolerado, no passado, o discurso truculento de Jair enquanto as reformas andavam — mas o 8 de janeiro e a persistente defesa do revisionismo eleitoral mudaram, ao menos em parte, a equação, e isso já se faz notar. Parte das elites, em seu pragmatismo frio, calcula que o risco de associar-se à marca Bolsonaro supera hoje qualquer ganho de curto prazo. E, ao contrário do que tenta propagar o senador, essa rejeição não é ao “estilo”, mas à própria substância. 

Redação Brasil 247 avatar
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