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Escolha de Trump como adversário fortalece Lula e enfraquece Flávio Bolsonaro

Tensão com os Estados Unidos ajuda presidente a diferenciar-se do bolsonarismo e explorar pauta eleitoral

Presidente Lula e Donald Trump (Foto: Ricardo Stuckert / PR / REUTERS/Kevin Lamarque)

247 – Em editorial publicado neste sábado, o jornal Folha de S. Paulo avaliou que o presidente Lula passou a intensificar críticas a Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, como parte de uma estratégia política com impacto direto na disputa eleitoral brasileira.

Segundo o texto, o movimento permite ao presidente reforçar sua posição diante do eleitorado ao explorar o antagonismo com Trump, figura associada ao bolsonarismo. A análise sustenta que esse embate contribui para isolar adversários internos, especialmente o senador Flávio Bolsonaro (PL), identificado como próximo do universo político trumpista.

A Folha observa que o retorno de Trump à Casa Branca tornou previsível o conflito político com Lula, sobretudo pelo alinhamento ideológico entre o líder norte-americano e Jair Bolsonaro (PL).

De acordo com o editorial, Lula aproveitou o tarifaço de Trump contra o Brasil para reforçar sua narrativa política, associando adversários a interesses estrangeiros e obtendo melhora em sua avaliação. O texto também menciona que houve, em determinado momento, uma aproximação pragmática com Trump, que teria contribuído para evitar sanções mais severas, como a aplicação da Lei Magnitsky contra Moraes e um impacto mais amplo do chamado “tarifaço”.

No entanto, a partir de março, com o início mais visível da campanha pela reeleição, o tom do presidente teria mudado. A Folha destaca que Lula passou a acumular declarações críticas a Trump e protagonizou episódios de tensão diplomática, como a negativa de visto a um emissário da Casa Branca que pretendia visitar Bolsonaro na prisão, além de medidas de reciprocidade após a expulsão de um delegado brasileiro dos Estados Unidos.

Rejeição popular a Trump

O editorial também aponta sinais de novas pressões por parte de Washington, incluindo possíveis medidas relacionadas a supostos prejuízos a empresas americanas decorrentes do sistema de pagamentos Pix. 

Outro elemento central da estratégia, segundo a análise, está na exploração de temas internacionais sensíveis. A Folha destaca que Lula critica com frequência conflitos como a guerra envolvendo o Irã e a situação na Venezuela, apoiando-se em dados de opinião pública. O editorial cita números do Datafolha indicando que 70% dos eleitores são contrários ao conflito, 92% acreditam que ele eleva o preço dos alimentos e 75% avaliam que terá impacto eleitoral.

Apesar disso, o jornal ressalta que há riscos na estratégia. O comportamento considerado “instável” de Trump poderia levar a novas retaliações contra o Brasil, inclusive por meio de sanções econômicas. Diferentemente de episódios anteriores, o editorial observa que, nesse cenário, Lula não poderia atribuir a responsabilidade a adversários internos.

Ainda assim, a Folha conclui que há lógica política na escolha de Trump como adversário, especialmente para marcar diferenças em relação a Flávio Bolsonaro, cuja proximidade com o trumpismo dificulta uma tentativa de se apresentar como figura moderada no cenário nacional.

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