Jorge Messias

Messias foi destemido diante de um Senado tomado pelo medo do caso Master

Sob a chefia sorrateira de Davi Alcolumbre, o Senado se expôs. E o país assistiu ao capítulo de uma facção política soez, que insiste em operar nas sombras

A rejeição, pelo Senado, da indicação do presidente Lula ao nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal não foi um acidente político resultante de um descuido.
Foi um ato deliberado, construído nas sombras, executado com frieza e sustentado por interesses que o país conhece bem, ainda que raramente consiga flagrar em toda a sua extensão.

Enquanto a sabatina transcorria sob os holofotes, o jogo acontecia fora deles. Articulações mantidas em sigilo, compromissos inconfessáveis e alinhamentos táticos deram o tom de uma decisão que seguiu um roteiro. O desfecho fora previamente definido antes mesmo de qualquer pergunta ser feita. O rito institucional virou fachada. O resultado saiu sob encomenda e com conta exata.

Nesse cenário, Jorge Messias foi gigante. Preparado e firme, ainda que por vezes tomado pela emoção, enfrentou um ambiente contaminado por interesses que nada tinham a ver com o exame de sua capacidade jurídica. Foi derrotado apenas no resultado formal, porque politicamente se superou diante de um Senado que escolheu, na verdade, se ocultar.

Consolidou-se a percepção de um comando político que opera mais pela lógica da conveniência do que pela transparência republicana.

Cresce, dentro e fora de Brasília, a leitura de que essa articulação para soterrar o caso Master envolve uma aliança entre setores do Centrão e do bolsonarismo, com um objetivo claro: conter riscos decorrentes do avanço de investigações sensíveis relacionadas ao escândalo e que afetam os próprios senadores.

Inevitável retornar à já famosa entrevista do presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, ao Canal Livre, como um raro momento de franqueza sobre os alinhamentos e interesses em jogo. Longe de dissipar dúvidas, suas palavras de que há muitos envolvidos ajudaram a corroborar a percepção de que há, sim, uma engrenagem política operando para blindar determinados setores.

Nesse contexto, ganham corpo as apurações conduzidas pela Polícia Federal sob a órbita do próprio Supremo Tribunal Federal. Oxalá possam alcançar parlamentares, governadores e autoridades que desejam tudo ocultar.

Aguarda-se também a revelação do conteúdo dos dispositivos de Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, bem como seus depoimentos.

A comprovação dessas acusações depende do inquérito sob a responsabilidade do ministro André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro. Independentemente da comprovação dessas acusações, o simples fato de elas influenciarem o processo de seleção para o STF já representa uma distorção grave.

Quando decisões sobre o Supremo passam a ser interpretadas como instrumentos de autoproteção, o sistema institucional deixa de ser garantia e passa a ser mecanismo de manobras para blindagem de interesses.

O presidente Lula sofreu uma derrota. O dano mais profundo não é do governo, mas da confiança pública. O Senado, mais uma vez, preferiu o caminho da opacidade.

Sob a chefia sorrateira de Davi Alcolumbre, o Senado se expôs. E o país assistiu ao capítulo de uma facção política soez, que insiste em operar nas sombras.

Redação Brasil 247 avatar
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