O programa de Lula à reeleição deve conduzir Brasil à revolução digital soberana
A hora de agir é agora, transformando a visão de Nova Déli em realidade nos trópicos.
A assinatura da "Parceria Digital Brasil–Índia para o Futuro" em Nova Délhi deveria não limitar-se a ser apenas mais um protocolo de intenções entre dois países do Sul Global. Deve representar um divisor de águas na forma como o Brasil enxerga seu lugar no mundo da tecnologia e, mais importante, como projeta seu futuro econômico e social. A declaração conjunta, fruto do encontro entre os líderes de duas democracias do Sul, acende um sinal verde para que o Brasil abandone definitivamente o papel de mero consumidor de inovação alheia e assuma o protagonismo na construção de um modelo próprio de desenvolvimento digital, consciente do poder e dos interesses geopolíticos que comandam as chamadas big techs.
É imperativo, portanto, que o país transforme essa visão em um projeto estratégico de Estado, buscando se tornar uma potência em Inteligência Artificial (IA) alicerçada no conceito de soberania digital.
O presidente Lula afirmou recentemente não desejar ser apenas o presidente do Bolsa Família. O momento em que se elabora o seu programa eleitoral oferece a oportunidade para que se reflita sobre as grandes linhas e projetos estruturantes que poderão projetar o país ao padrão de nação desenvolvida.
O cerne desse novo país está no reconhecimento de que as infraestruturas públicas digitais, a inteligência artificial e as tecnologias emergentes são os novos motores da transformação econômica, da inclusão social e do desenvolvimento sustentável. Não se trata apenas de modernizar a máquina pública ou facilitar a vida do cidadão com pagamentos digitais, como já demonstram as experiências do Pix brasileiro. O salto qualitativo proposto pela parceria é a criação de um centro conjunto de excelência no Brasil e o lançamento de uma rede de inteligência comum, que integra transformação digital e ação climática. É a materialização da ideia de que a tecnologia, quando pensada como bem público e com governança compartilhada, pode ser a ferramenta mais poderosa para o enfrentamento de desafios planetários, da desigualdade à emergência climática, sem dependência de monopólios tecnológicos estrangeiros.
Para o Brasil, apostar na soberania digital significa mais do que um exercício de autossuficiência; é uma estratégia de inteligência competitiva. A declaração comum de Brasil e Índia explicita a intenção de colaborar em áreas nevrálgicas como computação de alto desempenho, tecnologias quânticas, semicondutores e blockchain. São exatamente esses os alicerces sobre os quais a próxima geração da IA será construída. Ignorar essa corrida tecnológica é condenar a economia brasileira a um papel secundário e subordinado no cenário global, pagando caro por soluções desenvolvidas em outros contextos e para outras realidades, sempre expostas a sanções e à espionagem. Ao contrário, ao estabelecer pontes com a Índia — um país que tem demonstrado notável capacidade de inovação em tecnologia de baixo custo e em larga escala —, o Brasil pode acelerar seu aprendizado, compartilhar riscos e custos de pesquisa e, sobretudo, garantir que as aplicações de IA sejam treinadas com dados brasileiros, respeitem a diversidade cultural e linguística e atendam às prioridades nacionais, como a melhoria da saúde pública, da educação e da produtividade.
A defesa de um desenvolvimento ético, inclusivo e centrado no ser humano, presente no texto da declaração, é a bússola moral que deve guiar essa jornada. Soberania digital não é sinônimo de isolacionismo ou apenas de criação de uma internet sob controle nacional, mas sim a capacidade de definir as próprias regras sobre dados, governança e uso da tecnologia. Em um mundo onde o valor é cada vez mais extraído da informação, controlar as infraestruturas digitais é uma questão de segurança nacional e de garantia de direitos. A parceria com a Índia fortalece a posição do Brasil em fóruns multilaterais, permitindo que o Sul Global tenha voz ativa na regulação da inteligência artificial e na definição de padrões éticos que contraponham os interesses puramente comerciais das grandes corporações do Norte.
O caminho está traçado e a janela de oportunidade está aberta. A declaração conjunta não é um ponto de chegada, mas o ponto de partida para uma mobilização nacional que envolva governo, setor privado, academia e sociedade civil. Transformar o Brasil em uma potência em inteligência artificial com base na soberania digital é um projeto de nação para as próximas décadas. É a certeza de que não queremos apenas um futuro digital, mas sim um futuro digital que seja construído e controlado com mãos e cérebros brasileiros, para o benefício dos brasileiros e como contribuição original a um mundo mais equilibrado e sustentável. A hora de agir é agora, transformando a visão de Nova Déli em realidade nos trópicos.





