Leia na íntegra o discurso de Lula no encerramento do Fórum Empresarial Brasil-Índia
O presidente defendeu mais diversificação comercial diante do avanço do protecionismo e do unilateralismo
247 - O presidente Lula afirmou neste sábado (21) que faz questão de participar de fóruns empresariais em suas viagens e destacou a relevância estratégica da Índia para o Brasil. Em seu pronunciamento, Lula defendeu a ampliação do comércio bilateral, maior conectividade e diversificação comercial diante do avanço do protecionismo e do unilateralismo.
Também foram destacadas oportunidades em tecnologia, inteligência artificial, biotecnologia, espaço e na Parceria Digital firmada entre os países. Enfatizou a cooperação em transição energética, bioenergia e minerais críticos, ressaltando o potencial brasileiro nesse setor.
Leia a íntegra do discurso:
Faço questão de participar de fóruns empresariais em todas as minhas viagens ao exterior.
Mas nenhum outro seminário esteve tão presente no meu planejamento.
Por isso, Vice-Presidente Geraldo Alckmin chefiou uma missão empresarial à Índia no ano passado.
Nesta minha visita de Estado, venho acompanhado de uma robusta delegação de ministros, parlamentares e de cerca de trezentos empreendedores e empreendedoras.
As trocas comerciais e os fluxos de investimento conferem lastro às relações políticas entre os países.
Eventos como este impulsionam o desenvolvimento nacional e o avanço de tecnologias inovadoras.
Também atraem investimentos que geram oportunidades e renda para os trabalhadores.
A distância entre o Brasil e a Índia é apenas um detalhe diante do potencial de nossa amizade.
Tive a honra de estar à frente da celebração da nossa Parceria Estratégica em 2006.
De lá para cá, nosso comércio bilateral saltou de 2,4 bilhões de dólares para 15,2 bilhões, em 2025.
Mas esse número ainda está muito aquém do potencial para economias do nosso porte.
O Primeiro-Ministro Modi e eu nos comprometemos a trabalhar para chegarmos a 20 bilhões de dólares de intercâmbio em poucos anos.
Já acho que é possível revisar essa meta para 30 bilhões de dólares.
No mundo de hoje, conectividade e diversificação comercial viraram sinônimo de resiliência, diante do recrudescimento do protecionismo e do unilateralismo comercial.
Desde o início de meu mandato, o MERCOSUL assinou acordos com Singapura, EFTA e União Europeia.
Ampliar significativamente o Acordo de Comércio Preferencial MERCOSUL–Índia, que vigora desde 2009, é uma prioridade, com vistas a um futuro acordo de livre-comércio.
Dois mercados tão importantes como o Brasil e a Índia precisam de um arcabouço mais abrangente e ambicioso.
O interesse recíproco é crescente.
Mais de 100 missões empresariais brasileiras visitaram a Índia nos últimos três anos.
Um grande número de empresários se beneficiará da extensão da validade dos vistos de negócio e de turismo, de cinco para dez anos.
Para apoiar o setor privado dos dois países a identificar oportunidades e fechar negócios, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos inaugurou ontem seu escritório em Délhi.
O acordo sobre Cooperação em Micro, Pequenas e Médias Empresas que assinamos hoje vai apoiar a troca de experiências em um setor vital para a geração de empregos.
Nos setores de ponta — como tecnologia da informação, inteligência artificial, biotecnologia e exploração espacial — as oportunidades são inúmeras.
A Parceria Digital com a Índia é a primeira dessa natureza assinada pelo Brasil.
Ela reunirá a cooperação em inteligência artificial, computação de alto desempenho e startups [istar-táps] de base tecnológica.
Também somos líderes na criação de infraestruturas públicas digitais.
O Pix brasileiro e o India Stack [India Isték] mostram que é possível democratizar a tecnologia e colocar a inovação a serviço da inclusão.
Enfrentar a mudança do clima é uma obsessão do meu governo.
Neste ano, reduzimos em 50% o desmatamento na Amazônia com relação a 2022.
Em 2026, teremos a menor taxa de desmatamento da história.
O Brasil está fazendo sua parte para assegurar um planeta habitável para as próximas gerações.
Monitoramos nossos biomas e usamos a ciência como ferramenta de cuidado e de soberania.
Juntamente com a Índia, queremos ser motores de um novo modelo de desenvolvimento.
Transformamos os desafios da transição energética e da mudança do clima em oportunidades.
A Índia é o mercado de bioenergia que mais cresce no mundo, e o Brasil tem meio século de experiência com o etanol e motores flex.
No marco da Aliança Global para Biocombustíveis, estamos criando um mercado mundial.
A transição energética e digital não se fará sem minerais críticos.
O Brasil conta com, pelo menos, 26% das reservas mundiais de minerais críticos, tendo apenas 30% de seu território prospectado.
Assim como a Índia criou a “Missão Nacional de Minerais Críticos”, o Brasil vai criar um Conselho Nacional vinculado à Presidência da República para garantir a nossa soberania.
Queremos atrair a cadeia de processamento dessa riqueza para o território brasileiro, sem fazer opções excludentes.
O acordo que assinamos hoje com a Índia vai nessa direção.
Meus amigos e minhas amigas,
Há sinergias também no setor agropecuário.
Somos o segundo e o quarto maiores produtores de alimento do mundo.
O rebanho zebuíno brasileiro teve sua origem no início do século 20, com importações de exemplares de nelore e gir do Gujarat, estado natal do Primeiro-Ministro Modi.
Hoje, o Brasil vende sua genética animal para Índia.
Podemos cooperar na integração de cadeias produtivas agrícolas, na inovação tecnológica, no uso sustentável do solo e na segurança alimentar global.
O Complexo Industrial da Saúde é outra vertente estratégica da cooperação e do comércio bilaterais.
A Índia é um grande fornecedor de insumos farmacêuticos para o Brasil.
Temos um histórico de atuação conjunta para garantir acesso amplo e barato de medicamentos genéricos para populações de baixa renda e para países em desenvolvimento.
Neste Fórum, celebramos três acordos de parceria estratégica da Fiocruz com empresas locais para desenvolvimento conjunto de vacinas, medicamentos e insumos essenciais.
Outro campo com enorme potencial é o de hospitais inteligentes, como o que o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, visitou em Bangalore.
A indústria brasileira é competitiva em vários setores de elevado conteúdo tecnológico e valor agregado, como o aeronáutico e o espacial.
A Índia já é o terceiro maior mercado de aviação comercial do mundo e um dos maiores mercados globais de defesa, com ambiciosos programas de modernização.
Em ambas as áreas, o Brasil está pronto para cooperar.
Não queremos apenas vender.
Queremos comprar, investir e consolidar nossa presença na Índia, com transferência de tecnologia e formação de pessoal.
Os acordos assinados pela Embraer com o Grupo Adani e a Mahindra [Ma-rrin-dra] vão propiciar a produção de aeronaves comerciais e de defesa aqui na Índia.
Para atrair investimentos, o Brasil fez uma reforma tributária histórica.
Hoje, oferecemos segurança jurídica e estabilidade econômica, política e social.
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e a Nova Indústria Brasil (NIB) — que mobilizam mais de 50 bilhões de dólares — estão abertos à participação indiana em áreas de energia limpa, mobilidade elétrica, saúde, aeroespacial, semicondutores e inovação digital.
Senhoras e senhores,
O Brasil vai continuar a expandir nossas relações com o mundo — sem distinção ou alinhamentos automáticos.
Os negócios não têm cor, religião ou ideologia.
Vocês, empresárias e empresários, serão centrais para que essas oportunidades se tornem realidade.
Parafraseando a Primeira Ministra Indira Gandhi ao visitar Brasília em 1968, o futuro não chega por si só — precisamos desejá-lo.
Mãos à obra.
Muito obrigado.




