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"Distância entre Brasil e Índia é apenas um detalhe diante das oportunidades”, diz Lula

Em Nova Déli, presidente projeta comércio bilateral de até US$ 30 bilhões até 2030 e destaca acordos da Embraer com Adani e Mahindra

Lula celebra acordos ao lado de ministros indianos (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou neste sábado, 21 de fevereiro de 2026, do Fórum Empresarial Brasil–Índia 2026, em Nova Déli, onde defendeu que a aproximação entre os dois países deve ir além do comércio tradicional e avançar em inovação, investimentos e transferência de tecnologia.

O encontro reuniu autoridades brasileiras e indianas, lideranças empresariais e representantes de áreas consideradas centrais para o desenvolvimento produtivo, com debates sobre desafios e oportunidades de negócios e cooperação tecnológica. Em seu discurso, Lula associou esse tipo de agenda ao crescimento econômico e à geração de trabalho.

"Eventos como este impulsionam o desenvolvimento nacional e o avanço de tecnologias inovadoras. Também atraem investimentos que geram oportunidades e renda para os trabalhadores. A distância entre o Brasil e a Índia é apenas um detalhe diante do potencial de nossa amizade", afirmou.

A frase sintetizou o tom político do evento, que buscou apresentar a relação bilateral como um eixo de integração econômica capaz de combinar ganhos comerciais com projetos industriais e tecnológicos de longo prazo.

Meta de ampliar o comércio: US$ 20 bilhões e aposta em US$ 30 bilhões até 2030

Lula ressaltou que ele e o primeiro-ministro Narendra Modi estabeleceram o compromisso de elevar o intercâmbio comercial para US$ 20 bilhões em poucos anos. Na sequência, indicou que a ambição é chegar a US$ 30 bilhões até o fim da década, sugerindo que o patamar atual ainda está aquém do potencial bilateral.

"O primeiro-ministro Modi e eu nos comprometemos a trabalhar para chegarmos a 20 bilhões de dólares de intercâmbio em poucos anos. Não será surpresa se em 2030, ao invés de 20 bilhões de dólares, a gente chegar a 30 bilhões de dólares em comércio entre os dois países. É só correr atrás", disse.

A fala foi acompanhada de uma defesa explícita de uma relação econômica menos dependente da lógica de exportação simples e mais orientada à presença produtiva e à cooperação industrial.

Embraer e indústria: “não queremos apenas vender”, diz presidente

Ao tratar da competitividade da indústria brasileira, Lula citou os setores aeronáutico e espacial e mencionou acordos envolvendo a Embraer. O presidente afirmou que a estratégia do Brasil inclui comprar, investir e consolidar presença com transferência de tecnologia e formação de pessoal.

"Não queremos apenas vender. Queremos comprar, investir e consolidar nossa presença na Índia, com transferência de tecnologia e formação de pessoal. Os acordos assinados pela Embraer com o Grupo Adani e a Mahindra vão propiciar a produção de aeronaves comerciais e de defesa aqui na Índia", declarou.

O trecho reforçou a ênfase na criação de cadeias industriais e na cooperação produtiva, com implicações diretas para a integração de empresas e plataformas tecnológicas de ambos os países.

Cooperação digital e setores de ponta: IA, alto desempenho e startups

No campo tecnológico, Lula apontou oportunidades em tecnologia da informação, inteligência artificial, biotecnologia e exploração espacial. Ele destacou a assinatura de uma Parceria Digital com a Índia, descrita pelo governo como a primeira desse tipo firmada pelo Brasil, com foco em inteligência artificial, computação de alto desempenho e startups de base tecnológica.

"A Parceria Digital com a Índia é a primeira dessa natureza assinada pelo Brasil. Ela reunirá a cooperação em inteligência artificial, computação de alto desempenho e startups de base tecnológica", afirmou.

Lula também mencionou o acordo de Cooperação em Micro, Pequenas e Médias Empresas, apontando a troca de experiências como relevante para um setor considerado vital na geração de empregos.

"Vocês, empresárias e empresários, serão centrais para que essas oportunidades se tornem realidade", disse, concluindo com uma referência a Indira Gandhi: "O futuro não chega por si só — precisamos desejá-lo. Vamos ao trabalho".

Medicamentos oncológicos no SUS: parcerias para produção nacional e investimento de longo prazo

Além da agenda empresarial, o Fórum serviu de palco para anúncios do Ministério da Saúde. O ministro Alexandre Padilha assinou três Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) estratégicas para produção nacional de medicamentos oncológicos utilizados no SUS: pertuzumabe, dasatinibe e nivolumabe.

Segundo a nota do governo, os acordos representam investimento estimado pelo Ministério da Saúde de até R$ 722 milhões no primeiro ano, podendo chegar a R$ 10 bilhões em 10 anos, por meio do poder de compra do Estado. O objetivo declarado é ampliar a autonomia produtiva, reduzir a dependência externa e garantir estabilidade no fornecimento de fármacos estratégicos.

As PDPs contemplam medicamentos utilizados no tratamento de diferentes tipos de câncer — como mama, pele e leucemias — e envolvem laboratórios públicos brasileiros e parceiros privados nacionais e indianos, com foco na internalização da produção e no desenvolvimento tecnológico.

No caso do nivolumabe, a produção envolve a Bahiafarma como parceira pública e, como parceiras privadas, a Bionovis S.A. e a Dr. Reddy’s Laboratories Ltda. Para o pertuzumabe, a Bahiafarma também aparece como parceira pública, com participação da Bionovis S.A. e da Biocon Biologics do Brasil Ltda. Já a PDP do dasatinibe será realizada com a Fundação para o Remédio Popular (FURP), a Biocon Pharma Ltda. e a Nortec Química S.A.

Fiocruz amplia memorandos e Brasil e Índia prorrogam cooperação em saúde

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) reforçou a agenda bilateral com a assinatura de dois Memorandos de Entendimento com empresas farmacêuticas indianas. Um deles, com a Biocon Pharma, tem foco em transferência de tecnologia e produção de tratamentos para doenças raras, câncer e terapias imunossupressoras. O outro, com a Lupin, prevê desenvolvimento conjunto, produção local e fortalecimento de capacidades industriais e regulatórias voltadas a medicamentos para doenças infecciosas negligenciadas, como tuberculose, malária, esquistossomose, hanseníase e doença de Chagas.

Padilha também participou da assinatura de um termo aditivo ao Memorando de Entendimento entre Brasil e Índia, prorrogando por cinco anos a cooperação bilateral em saúde, com iniciativas conjuntas em áreas como medicamentos, vacinas, insumos farmacêuticos ativos, biofabricação, desenvolvimento de biológicos, saúde digital, telessaúde e inteligência artificial.

ApexBrasil inaugura escritório em Nova Déli e amplia presença internacional

O Fórum Empresarial Brasil–Índia 2026 foi realizado pela ApexBrasil em parceria com o MDIC e o MRE. A missão presidencial marcou ainda a inauguração do primeiro Escritório da ApexBrasil na capital indiana, pelo presidente da Agência, Jorge Viana, consolidando a expansão internacional da instituição e reforçando a estratégia de presença permanente em mercados prioritários.

Ao combinar metas de comércio, acordos industriais e iniciativas estruturantes na saúde pública, o governo buscou apresentar a relação Brasil–Índia como um eixo de cooperação de longo prazo, com ambição de transformar oportunidades comerciais em projetos produtivos, tecnológicos e de interesse social — do setor aeronáutico à produção nacional de medicamentos para o SUS.

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