Presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante coletiva de imprensa, em Brasília - 27/03/2025

Galípolo, Haddad e Lula fizeram a coisa certa no caso Master

Os três agiram como se espera de autoridades responsáveis: com prudência, respeito às regras e absoluta independência diante de interesses privados

Poucos escândalos na história das ligações entre o sistema financeiro e personalidades da política no Brasil são tão elucidadores como o chamado "Caso Master", que tanto consome, justificadamente, as atenções, muitas vezes sm mal-intencionadas, dos meios de comunicação.

Neste caso, porém, o que salta aos olhos de imediato, pelo que vem sendo exibido pelas exaustivas e sôfregas investigações, é a atuação absolutamente correta das maiores autoridades do governo, nomeadamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Em dezembro de 2024, em reunião no Palácio do Planalto, Lula e Galípolo foram assediados pelo controlador do banco Master, Daniel Vorcaro, já então em busca de um sinal verde das autoridades para que seu banco pudesse adotar medidas que, na verdade, relaxavam limites para ampliar ainda mais a pirâmide de bilionárias transações ilegais contra seus investidores, atraídos por retornos milagrosos oferecidos pelo banco.

Obviamente, àquela altura, ninguém, inclusive o presidente e seus auxiliares, tinha conhecimento da trama.

Diante de todos, porém, o presidente, na própria reunião, determinou a Galípolo, de maneira cabal, que o pleito de Vorcaro fosse examinado de forma técnica e concedido se, e apenas se, obedecesse às leis e controles que regulam o apetite, já de si insaciável, do sistema financeiro nacional.

Os balizamentos estabelecidos por Lula foram seguidos à risca. Em ocasiões distintas, o pedido para que o Banco de Brasília (BRB), por gestões do próprio governador Ibaneis, adquirisse o Master recebeu resposta negativa do Banco Central. Em 28 de março o BRB anunciou que iria comprar o Master que já estava em dificuldades. O próprio Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e a Assembleia Legislativa do Distrito Federal chegaram a aprovar a operação. Em 3 de setembro porém Banco Central a barrou. Em todas as iniciativas de encobrir o rombo, a autoridade financeira considerou insuficientes as garantias apresentadas foram considerada incompatíveis. A maracutaia evidentemente não cumpria os requisitos prudenciais exigidos para preservar a estabilidade do sistema financeiro. A palavra final cabia ao regulador do sistema financeiro nacional, e o Banco Central manteve sua posição técnica e independente ao negar a operação.

Essas decisões, tomadas no estrito cumprimento da legislação e dos critérios técnicos que regem a supervisão bancária, mostraram desde cedo que o governo e as autoridades monetárias não estavam dispostos a ceder a pressões de qualquer natureza, nem a aceitar soluções improvisadas que pudessem transferir prejuízos privados para o conjunto da sociedade.

A coerência dessa atitude tornou-se ainda mais evidente meses depois. Em 18 de novembro de 2025, diante do agravamento da situação patrimonial do banco e da confirmação de irregularidades que já vinham sendo investigadas, o Banco Central determinou a intervenção extrajudicial no Banco Master, medida extrema prevista em lei para proteger depositantes, investidores e a própria integridade do sistema financeiro nacional. Na véspera, ao tentar sair do país, Vorcaro fora preso.

O encadeamento desses fatos fala por si. Primeiro, as autoridades recusaram concessões que poderiam ampliar riscos e mascarar problemas estruturais. Depois, quando os indícios se tornaram incontornáveis, adotaram a providência mais dura disponível ao regulador.

Não se trata de detalhe menor. Em um país frequentemente marcado pela influência de grandes interesses econômicos sobre decisões públicas, o caso demonstra que, desta vez, o presidente da República, o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central mantiveram-se fiéis ao princípio elementar de que a lei e o interesse público devem prevalecer sobre lobbies e pressões.

A história do Caso Master ainda será investigada em profundidade. Mas já é possível afirmar que, do ponto de vista institucional, Lula, Haddad e Galípolo agiram como se espera de autoridades responsáveis: com prudência, respeito às regras e absoluta independência diante de interesses privados. Isso, em si, já constitui um exemplo raro e digno de registro na vida pública brasileira.

Redação Brasil 247 avatar
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