Campos Neto evitou liquidação do Master após relato de servidores que atuavam para Vorcaro
Investigação da Polícia Federal complica a situação do ex-presidente do Banco Central
247 – Informações reveladas em investigação envolvendo o Banco Master indicam que relatórios elaborados por servidores do Banco Central tiveram peso na avaliação da instituição durante a gestão de Roberto Campos Neto. Segundo reportagem do jornal Valor Econômico, documentos produzidos por técnicos que posteriormente passaram a ser investigados por suposta atuação em favor do controlador do banco, Daniel Vorcaro, contribuíram para afastar a hipótese de liquidação do Master naquele momento.
A apuração aponta que os servidores Paulo Souza e Belline Santana, integrantes da área de supervisão do Banco Central, elaboraram análises que indicavam normalidade nas operações do banco. Esses relatórios foram apresentados à direção da autarquia quando Campos Neto presidia o BC e havia denúncias do mercado financeiro sobre possíveis irregularidades na instituição.
De acordo com o Valor, Campos Neto chegou a receber alertas de agentes do mercado sobre problemas nas operações do Banco Master. Diante das denúncias, o então presidente do Banco Central determinou que Paulo Souza analisasse as carteiras do banco. O relato apresentado pelo servidor, no entanto, apontava que não havia irregularidades relevantes.
Servidores sob investigação
O cenário mudou posteriormente com o avanço de investigações da Polícia Federal. Paulo Souza e Belline Santana passaram a ser suspeitos de atuar em favor de Daniel Vorcaro dentro da estrutura do Banco Central. Ambos foram alvo de decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, que determinou o uso de tornozeleira eletrônica pelos dois.
Segundo a decisão judicial citada na reportagem, há indícios de que os servidores teriam recebido vantagens financeiras vinculadas ao banco controlado por Vorcaro. No caso de Belline, a decisão menciona pagamentos feitos por meio de uma empresa por serviços simulados de consultoria. O documento judicial não detalha o mecanismo utilizado no caso de Paulo Souza.
Belline Santana era chefe do Departamento de Supervisão (Desup) do Banco Central quando os episódios ocorreram. Funcionário com quase três décadas de carreira na instituição, seu afastamento no início do ano provocou surpresa entre colegas. Paulo Souza, por sua vez, era chefe-adjunto no mesmo departamento e responsável por acompanhar o Banco Master dentro da estrutura de supervisão.
Relatórios e decisões internas
Conforme relata o Valor Econômico, os dois servidores tiveram participação em episódios considerados relevantes para a estratégia jurídica de Daniel Vorcaro. Um deles foi a elaboração de um relato de reunião realizada em 17 de novembro de 2025 entre o empresário e o diretor de fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino.
Esse tipo de encontro normalmente não gera registros formais detalhados. Ainda assim, Paulo Souza redigiu e assinou um breve relatório sobre a reunião. O documento foi encaminhado rapidamente por Belline aos advogados de Vorcaro.
No relato, Souza registrou que o controlador do Banco Master afirmou que pretendia anunciar naquele mesmo dia a venda da instituição para um grupo de investidores nacionais e que viajaria para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, para assinar contrato com investidores estrangeiros interessados em integrar o novo bloco acionário do banco.
Segundo a reportagem, o documento acabou sendo utilizado pela defesa de Vorcaro para sustentar argumentos que contribuíram para sua soltura após a primeira prisão, ocorrida em novembro do ano passado.
Defesa da venda ao BRB
A investigação também aponta que Paulo Souza atuou de forma ativa na defesa da proposta de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB) dentro do Banco Central. Em setembro de 2025, a diretoria colegiada da autoridade monetária rejeitou por unanimidade a operação.
Mesmo sem ter sido solicitado e atuando fora de sua área de competência direta, Souza enviou mensagens internas defendendo a operação. O tema era conduzido por outra área da instituição, a diretoria de Organização do Sistema Financeiro, então comandada por Renato Gomes.
De acordo com o Valor, esse posicionamento acabou sendo utilizado posteriormente como argumento em iniciativas jurídicas que buscavam questionar decisões do regulador no Tribunal de Contas da União (TCU).
Afastamento e investigação interna
O relatório da reunião de novembro de 2025 foi considerado um dos elementos que levaram o atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, a afastar Paulo Souza e Belline Santana de suas funções e determinar a abertura de uma investigação interna.
Outro ponto analisado pela apuração foi a insistência de Souza em defender que a eventual união entre o Banco Master e o BRB poderia resolver os problemas financeiros da instituição privada. Galípolo argumentava que o patrimônio do banco poderia ter ficado negativo após a devolução de cerca de R$ 12 bilhões ao BRB, relacionada à compra de carteiras de crédito posteriormente contestadas.
Sinais de riqueza e suspeitas financeiras
Nos corredores do Banco Central também circulavam comentários sobre mudanças no padrão de vida dos dois servidores. Segundo relatos mencionados na reportagem, Belline teria adquirido um imóvel considerado incompatível com sua remuneração de aproximadamente R$ 44,5 mil brutos mensais antes de seu afastamento da função de direção.
No caso de Paulo Souza, colegas mencionavam aquisição de imóveis e realização de festas consideradas incompatíveis com seu salário bruto de cerca de R$ 41,5 mil mensais. As autoridades investigam se esses sinais de riqueza estão relacionados às vantagens financeiras supostamente recebidas.
Cadeia de investimentos sob análise
As investigações também analisam movimentações financeiras envolvendo fundos ligados à gestora Reag. De acordo com fonte citada pelo Valor Econômico, o Banco Central chegou a identificar aportes em fundos da gestora realizados após empréstimos obtidos no próprio Banco Master.
Os relatórios apresentados à direção do BC na época, contudo, não teriam detalhado completamente a cadeia de investimentos e reinvestimentos entre os fundos. Essa estrutura é apontada por investigadores como um dos caminhos que podem ter levado ao suposto desvio de cerca de R$ 11,5 bilhões do banco.
Com o avanço das investigações da Polícia Federal e das apurações internas do Banco Central, o caso passou a lançar novas dúvidas sobre decisões tomadas durante a gestão de Roberto Campos Neto e sobre o papel desempenhado por servidores responsáveis pela supervisão da instituição financeira.


