247 – O economista marxista Richard Wolff afirmou que a ascensão econômica da China representa “o mais profundo desafio ao império americano” e oferece lições fundamentais para países que buscam superar a pobreza histórica e a dependência externa. A análise foi feita no programa Economic Update, publicado no YouTube, em episódio dedicado às “lições do desenvolvimento econômico da China”.
Segundo Wolff, a trajetória chinesa, que levou o país “das profundezas da pobreza a uma economia de superpotência global”, não pode ser compreendida apenas por estatísticas de crescimento. Para ele, um dado simbólico mostra a dimensão da transformação: a maior acionista da Mercedes-Benz é a BAIC, uma empresa estatal chinesa. Somada à participação da Geely, também chinesa, a presença de capitais chineses chega a cerca de 20% da montadora alemã.
“Isso é importante porque é uma medida de até onde chegou a economia chinesa”, disse Wolff.
China venceu a corrida dos carros elétricos, diz Wolff
O economista afirmou que a disputa global pelo futuro dos automóveis elétricos já tem um vencedor: a China. Segundo ele, empresas como a BYD conseguiram produzir veículos de alta qualidade e baixo preço, enquanto os Estados Unidos recorrem a tarifas para proteger sua indústria.
“Proteção é o que você faz quando não consegue competir. Quando não consegue descobrir como vencê-los, você os exclui”, afirmou.
Wolff lembrou que Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, impôs em seu primeiro mandato uma tarifa de cerca de 27% contra veículos chineses, posteriormente elevada por Joe Biden para 100%. Para ele, essa política revela fragilidade, não força.
“Isso não é um avanço para os Estados Unidos”, disse. “É sinal de um sistema em declínio, de uma economia em declínio.”
O século de humilhação e a revolução chinesa
Wolff recuperou o contexto histórico da China entre 1850 e 1950, período conhecido no país como o “século de humilhação”. Ele citou a pressão colonial europeia, a pobreza extrema, a crise do ópio, a derrota na Rebelião dos Boxers, a presença britânica em Hong Kong e a invasão japonesa, iniciada em 1931.
Segundo ele, a superação desse quadro exigiu um movimento de massas capaz de unir trabalhadores urbanos e camponeses. Foi esse o papel desempenhado pelo Partido Comunista Chinês sob a liderança de Mao Tsé-Tung.
“O Partido Comunista da China entendeu que precisava reunir uma nova classe trabalhadora nas áreas urbanas, pequena, com um vasto mar de camponeses”, afirmou.
Após a vitória comunista na guerra civil, em 1949, a China passou décadas reconstruindo um país devastado pela guerra, pela pobreza e pelo isolamento internacional. Wolff lembrou que os Estados Unidos se recusaram por anos a reconhecer a República Popular da China e mantiveram uma política de hostilidade, inclusive por meio do apoio a Taiwan.
O modelo híbrido chinês
Para Wolff, a grande virada veio a partir dos anos 1970, quando a China adotou uma estratégia diferente tanto do modelo soviético quanto do capitalismo ocidental. Em vez de estatizar quase toda a economia, como fez a União Soviética, ou deixar o desenvolvimento nas mãos do lucro privado, como nos países capitalistas centrais, a China construiu um sistema híbrido.
“Metade da economia seria formada por empresas capitalistas privadas. A outra metade seria propriedade e operação do governo”, explicou.
Nesse modelo, segundo Wolff, o Estado regula e tributa tanto o setor privado quanto o setor público, enquanto o Partido Comunista define os objetivos estratégicos. O objetivo central era sair da pobreza, tornar o país forte o suficiente para enfrentar a hostilidade ocidental e transformar a China em ator decisivo da economia mundial.
“A China é um meio-termo. A China é um híbrido dirigido por comunistas que têm um objetivo. E, nesse objetivo, o capitalismo privado desempenha um papel subordinado”, disse.
Crescimento chinês superou o Ocidente
Wolff afirmou que, nas últimas décadas, a China cresceu muito mais rapidamente do que os Estados Unidos. Segundo ele, enquanto o PIB chinês avançou, em média, entre 5% e 9% ao ano nos últimos 35 anos, a economia norte-americana cresceu entre 2% e 3%.
“A história do crescimento está encerrada. A competição acabou”, declarou.
Para o economista, a consequência desse processo é o enfraquecimento da hegemonia dos Estados Unidos. Ele citou a presença chinesa em setores estratégicos como veículos elétricos, painéis solares e grandes empresas industriais globais.
“O domínio do império americano também acabou”, afirmou.
A principal lição da China
Wolff rejeitou a ideia de que o colapso soviético tenha representado uma vitória definitiva do capitalismo. Para ele, a experiência chinesa mostra que o desenvolvimento pode ocorrer por outro caminho, com forte direção estatal, planejamento estratégico e subordinação do capital privado a metas nacionais.
“A noção de que o vencedor foi o capitalismo é um grande erro”, disse.
O economista ressaltou que não está fazendo uma defesa acrítica da China, que, segundo ele, tem seus próprios problemas e contradições. Mas afirmou que, para países interessados em escapar da pobreza secular e da posição periférica na economia mundial, a China oferece a experiência mais bem-sucedida do nosso tempo.
“Se sua prioridade é escapar da pobreza de séculos, então a China é o caminho mais rápido conhecido para alcançar esse objetivo”, afirmou.
Para Wolff, a lição central é clara: “Deixar tudo ao lucro privado não funciona.”
O próximo passo: os trabalhadores no comando
No fim da análise, Wolff afirmou que a história chinesa ainda está em movimento. Para ele, o próximo passo da experiência socialista chinesa seria ampliar o papel direto dos trabalhadores na gestão da economia.
“Será a classe trabalhadora da China de hoje, altamente desenvolvida, que lutará novamente”, disse. “Para quê? Para dar o próximo passo.”
Segundo o economista, esse passo seria colocar os trabalhadores “no comando, na fábrica, no escritório, na loja, diretamente”. Para Wolff, esse seria o novo formato do antigo sonho comunista nas condições da China de 2026.
“O sonho dos comunistas lá atrás, em 1927, tem sua nova forma na China de 2026. Essa talvez seja a lição mais importante de todas do desenvolvimento chinês”, concluiu.
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