247 – Ao participar nesta terça-feira (30), da 68ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados, em Assunção, no Paraguai, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o fortalecimento da integração regional e afirmou que o bloco é essencial para enfrentar os desafios políticos, econômicos e sociais da América do Sul. Em seu discurso, o chefe do Executivo ressaltou que o Mercosul precisa ampliar a cooperação entre seus membros e preservar sua autonomia em um cenário internacional cada vez mais complexo.
As informações foram divulgadas pelo Palácio do Planalto. Durante a reunião, que reúne líderes dos países membros e associados do bloco, Lula destacou a importância da integração regional para promover desenvolvimento, ampliar o comércio, fortalecer a democracia e coordenar respostas conjuntas a desafios como mudanças climáticas, crime organizado e transição energética.
Segundo o presidente, o papel do Mercosul ultrapassa as relações comerciais e se consolidou como um instrumento estratégico para a estabilidade regional. “Na atual conjuntura, o Mercosul é uma necessidade estratégica. O Mercosul permanece como o principal espaço institucional em uma região cada vez mais polarizada”, afirmou.
Focem ganha destaque e Brasil anuncia novo aporte
Ao abordar a redução das desigualdades entre os países do bloco, Lula destacou os resultados do Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), criado para financiar projetos de infraestrutura, saneamento, energia, habitação e iniciativas sociais.
“O Mercosul precisa fazer diferença na vida das pessoas. Desde sua criação, o Focem já financiou mais de mil quilômetros de rodovias, 680 quilômetros de ferrovias, 750 quilômetros de linhas de transmissão elétrica, 100 quilômetros de redes de saneamento básico. Estamos prontos para lançar o Focem-II e aumentar a contribuição brasileira, com aporte de 100 milhões de dólares anuais ao longo de uma década”, declarou.
O presidente também ressaltou o crescimento econômico proporcionado pelo bloco desde sua criação. De acordo com Lula, o comércio entre os países do Mercosul saltou de US$ 4,5 bilhões em 1991 para mais de US$ 50 bilhões em 2025.
Além disso, afirmou que o intercâmbio comercial com o restante do mundo continua em expansão. “No ano passado, nosso intercâmbio com o resto do mundo cresceu mais de 6% em relação a 2024 e alcançou quase 760 bilhões de dólares, com exportações superiores a 400 bilhões. Voltamos a olhar para o mundo com ambição.”
Solidariedade à Venezuela e defesa da integração
Antes de iniciar seu pronunciamento, Lula pediu um minuto de silêncio em homenagem às vítimas do terremoto que atingiu a Venezuela na semana anterior.
“Gostaria de reiterar minha solidariedade ao povo e ao governo da Venezuela diante das perdas humanas e materiais incalculáveis causadas pelos terremotos da semana passada. Tragédias como essa convidam a uma reflexão sobre a importância da solidariedade e da cooperação regionais”, afirmou.
O presidente também chamou atenção para a necessidade de coordenação entre os países sul-americanos diante dos impactos das mudanças climáticas e dos eventos extremos associados ao fenômeno El Niño.
“A Organização Meteorológica Mundial já alerta sobre a necessidade de preparação para um El Niño que agravará secas, provocará chuvas intensas e aumentará o risco de ondas de calor. Nossos países sofreram as consequências nefastas desse fenômeno em 2023. O projeto de integração sul-americano deve estar acima de ideologias. A crise climática, a transição energética, a transformação digital, o enfrentamento ao crime organizado transnacional e a promoção da saúde exigem uma capacidade de coordenação regional sem precedentes.”
Energia, minerais críticos e soberania regional
Outro eixo central do discurso foi o potencial do Mercosul na transição energética e na exploração sustentável de minerais estratégicos para a economia global.
Segundo Lula, o bloco reúne condições privilegiadas para liderar iniciativas relacionadas à produção de combustíveis sustentáveis, hidrogênio verde e integração energética entre os países.
“Nosso bloco está na vanguarda da transição energética global. Somos detentores de uma matriz elétrica limpa e a geração eólica e solar cresce exponencialmente. Reunimos condições únicas para o desenvolvimento de combustível sustentável de aviação e de hidrogênio verde. Avançar na integração elétrica e gasífera é essencial para garantir complementaridade entre diferentes fontes e aprimorar nossa resiliência energética”, afirmou.
O presidente também defendeu maior cooperação para agregar valor às reservas minerais existentes na região.
“Possuímos reservas abundantes de minerais críticos, ativos indispensáveis para a descarbonização e a revolução digital. Desenvolver cadeias regionais que incluam etapas de maior valor agregado é uma questão de segurança nacional e soberania. Ainda não dispomos de um mapeamento comum do nosso potencial nem de um diagnóstico sobre projetos estratégicos que podem ser desenvolvidos conjuntamente. O Mapa do Caminho para Plano de Minerais Críticos do Mercosul, apresentado pelo Paraguai, é um ponto de partida para reforçar a autonomia estratégica de nossos países.”
Democracia, inclusão e combate ao crime organizado
Em outro momento da fala, Lula alertou para o avanço da desinformação e dos ataques às instituições democráticas em diferentes partes do mundo.
“A democracia voltou a estar ameaçada no mundo todo. Em nossa região, não é diferente. Redes de desinformação continuam desvirtuando o debate público e tentando enfraquecer a confiança nas instituições”, declarou.
O presidente defendeu ainda o fortalecimento das políticas regionais voltadas à proteção de grupos historicamente vulneráveis.
“É preciso fortalecer as instâncias regionais dedicadas aos povos indígenas, aos afrodescendentes, às crianças, aos idosos, às pessoas com deficiência e à comunidade LGBTQIA+. O Pacto Regional pelo Fim da Violência contra Mulheres proposto pelo Brasil merece ser considerado com urgência”, afirmou.
Na área da segurança pública, Lula destacou a necessidade de intensificar a cooperação entre os países para enfrentar organizações criminosas transnacionais.
“Não há democracia forte ou desenvolvimento duradouro onde o crime organizado corrói a autoridade legítima do Estado. O crime organizado controla territórios, intimida comunidades, destrói o meio ambiente, alimenta a corrupção, desvia recursos públicos e expande sua atuação para o mundo digital. Nossa cooperação policial, judicial e financeira precisa atuar na mesma escala.”
Lula pede diálogo e continuidade institucional
Ao concluir seu discurso, o presidente defendeu que os países do Mercosul preservem sua autonomia nas relações internacionais e fortaleçam o diálogo com diferentes parceiros.
“Nenhum país do Mercosul ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes. Nossa força estará na capacidade de dialogar com todos, sem deixar de lado nossos interesses. Diversificar parcerias, ampliar a cooperação e preservar a autonomia são requisitos para que a região encontre seu espaço em um mundo em transformação”, afirmou.
Lula também pediu empenho dos governos do bloco para consolidar mecanismos institucionais permanentes de integração.
“E é por isso que eu queria que a gente faça um esforço nestes seis meses para consolidar a instituição de apoio ao Mercosul, para que ela funcione perfeitamente bem, independentemente do presidente a ser eleito em qualquer país do nosso bloco”, concluiu.
❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com redacao@brasil247.com.br.
✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no Telegram do 247 e no canal do 247 no WhatsApp.
Apoie o jornalismo independente do 247:







Participe da discussão